Capítulo 20

1214 Words
A sexta-feira começou com o céu aberto, o tipo de dia que parece prever calmaria — mas Lara não sentia nada parecido com paz. Os últimos dias haviam sido um turbilhão. Desde o almoço na casa da família de Gabriel, ela vivia entre o alívio e o pânico, dormindo m*l, sonhando com rostos, vozes e promessas que já deveriam ter morrido no passado. No meio da tarde, o celular vibrou sobre a mesa do escritório. Gabriel: Desmarque sua agenda da próxima semana. Confia em mim.” Ela franziu o cenho, curiosa. Antes que pudesse responder, uma segunda 9 k887vmensagem chegou. Gabriel: “As malas já estão prontas. Te pego às sete.” As malas? Ela ficou olhando para a tela, sem entender. Sentiu o coração acelerar. “Ele só pode estar brincando…” Mas às sete em ponto, quando saiu do prédio, lá estava ele — encostado no carro, sorriso fácil no rosto e o olhar leve, como se carregasse um segredo bom demais para guardar. — Que cara é essa? — ele perguntou, rindo. — Está com medo de mim? — Medo não… curiosidade — respondeu. — O que você aprontou, Gabriel? Ele abriu o porta-malas. Duas malas. Uma delas era inconfundivelmente dela — o lenço pendurado no zíper denunciava. — As meninas foram cúmplices — confessou. — Passei na sua casa e elas me ajudaram a arrumar tudo. — Elas o quê? — perguntou, rindo nervosa. — É sério, Lara. Você anda com a cabeça longe, com o olhar pesado. Eu quero tirar você daqui por uns dias. Uma semana inteira. Só nós dois. Ela o encarou, surpresa. Uma semana. — Você é maluco. — Um maluco apaixonado — respondeu. — Agora entra no carro antes que eu te carregue. Lara riu, mas a risada vinha com um nó no peito. O que ele via como uma fuga, pra ela era uma suspensão da realidade. Talvez fosse o que precisava. Talvez fosse o que a destruiria de vez. Mas ela entrou. A estrada se abriu diante deles, longa e silenciosa, enquanto a cidade ficava para trás. O vento entrava pela janela, e Gabriel dirigia com uma mão no volante e a outra entrelaçada à dela. A música baixinha, o pôr do sol alaranjado — tudo parecia perfeito demais, como se o mundo lá fora não existisse. — Vai me dizer pra onde estamos indo, ou vai me deixar sofrer até o fim? — ela perguntou. — Um refúgio — respondeu ele, sem, a0s olhos da estrada. — Um chalé a beira do lago. Nada de trabalho, nada de ninguém. Só nós. Ela o olhou, emocionada. — Uma semana não é muito tempo? — Não quando se está com a pessoa certa. As palavras ficaram no ar, doces e perigosas. Enquanto eles se afastavam da cidade, Dan estava à beira de um colapso. Passara a manhã tentando trabalhar, sem sucesso. Cada ruído, cada rosto na rua parecia zombar dele. Desde o encontro no escritório, a tensão dentro dele só aumentava. Lara havia deixado claro que não o queria mais, mas ele não conseguia aceitar. E o que doía mais não era o “não” dela. Era quem estava ao lado dela agora. Decidiu que não esconderia mais nada, que contaria tudo ao irmão. Pegou as chaves do carro, foi até a casa do irmão, não havia ninguém. O carro de Gabriel não estava na garagem. Voltou para casa, respirando fundo, lutando contra a ansiedade. Ele deve estar com ela. Ligou para o escritório dela — a secretária atendeu. — Ela não está. Retorna na semana que vem. Quer deixar algum recado? — Semana que vem — perguntou, surpreso. — Ela está em alguma feira de arquitetura? - perguntou ele tentando se enganar já sabendo a resposta. — Eu não estou autoriza a repassar essa informação, posso ajudar em algo mais? Dan desligou o telefone e ficou imóvel. O eco das palavras soava como um tiro: Ela estaria fora por uma semana, e Gabriel não estava em casa e não havia aparecido na empresa naquela tarde. Foi até a janela, olhando para o nada. A raiva começou a se infiltrar como veneno. Eles estavam juntos. Sozinhos por uma aemana Atirou o copo contra a parede. O som do vidro quebrando foi o único que preencheu o apartamento silencioso. A viagem durou quase quatro horas. Quando chegaram, já era noite. O chalé à beira do lago parecia saído de um sonho: cercado por pinheiros, com janelas amplas e um deque iluminado por pequenas luzes amareladas. O ar cheirava a madeira e paz. Gabriel parou o carro, deu a volta e abriu a porta para ela. — Bem-vinda ao nosso refúgio — disse, oferecendo a mão. Lara desceu, os olhos marejando com o cenário. O lago refletia a lua, e o som das cigarras preenchia o silêncio. — É lindo, Gabriel. — Você merece. — Ele passou o braço por sua cintura. — Uma semana sem o mundo. Só nós dois. Entraram. O chalé era aconchegante, com uma lareira acesa e garrafas de vinho sobre a mesa. Ela sorriu. Por um instante, sentiu o coração relaxar. — Isso é perfeito — murmurou. — Quase — disse ele, se aproximando devagar. — Vai ser perfeito quando você parar de pensar em tudo e só olhar pra mim. O beijo veio então — terno, lento. O tipo de beijo que promete recomeço. Lara se deixou levar, querendo acreditar que ali, naquele chalé , o passado ficaria do lado de fora. Naquela manhã Lara e Gabriel estavam no sofá , enrolados em um cobertor. Ela se encostou nele, os dedos entrelaçados aos dele. — Faz tempo que não me sinto assim — murmurou. — Assim como? — Em paz. — Sorriu, melancólica. — Mesmo que eu saiba que a paz sempre tem prazo de validade. Gabriel beijou o topo da cabeça dela. — Então vamos aproveitar cada segundo. — E quando a semana acabar? — A gente inventa outra fuga — respondeu ele, rindo. Ela sorriu, naquele momento se sentia calma, inteira e paixonada. Naquela noite Dam não dormiu Andava pelo apartamento como se buscasse algo que explicasse a vida ter virado de cabeça para baixo. Tentou se convencer de que estava exagerando. Que era apenas uma viagem comum. Mas cada detalhe — cada lembrança dela, cada palavra que ouvira sobre o irmão — o deixava mais certo. Eles estavam juntos. E o mundo parecia desabar sobre ele. — Dentre todas as pessoas… — murmurava, encarando o próprio reflexo. — Você tinha que escolher ele. A raiva subiu em ondas. Ele chutou a cadeira, o som seco ecoando no apartamento vazio. — Parabéns, i****a — murmurou para si mesmo. — Perdeu tudo. A garrafa de whisky foi sua companhia. A cada gole, a mente criava imagens que o dilaceravam: Lara nos braços de Gabriel, Lara sorrindo, Lara o esquecendo. Foi para a empresa assim que o dia clareou mas não consegui se concentrar Tinha que ter um jeito de encontrar o irmão, foi nesse instante ele lembrou do aplicativo que compartilhava com o irmão a dois anos atrás, pegou o celular torcendo para que ele ainda funcionasse depois de todo esse tempo, mas não funcionou, a tela. Não lhe dava lista nenhuma. Desligou o celular frustrado e esperou.
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