As luzes da marina ficaram para trás, pequenas faíscas tremulando na escuridão.
Lara dirigia sem saber ao certo para onde ia — as mãos trêmulas no volante, o coração batendo fora de compasso.
O beijo de Dam ainda queimava nos lábios como uma lembrança proibida, um eco de um tempo que ela jurava ter superado.
Mas agora, o passado tinha gosto de sal, de arrependimento e raiva.
E por mais que tentasse, ela não conseguia entender como o corpo ainda podia reagir a alguém que tanto a feriu.
O som do motor parecia o único ruído em meio à confusão dentro dela. Quando finalmente estacionou em frente de casa, notou algo diferente.
Um carro parado do outro lado da rua. O capô refletia a luz do poste, e o coração dela apertou quando reconheceu.
Gabriel.
Ele estava encostado na lateral do carro, mãos nos bolsos, olhar perdido na noite.
Havia algo nele — uma quietude que contrastava com o caos que ela trazia dentro do peito.
Quando a viu, endireitou o corpo de imediato, os olhos buscando os dela com uma preocupação que a desarmou.
— Lara? — a voz dele era baixa, firme, mas carregada de inquietação.
Ela saiu do carro rápido demais, movida mais pelo instinto do que pela razão.
E quando viu o olhar dele — aberto, sincero, protetor — algo dentro dela simplesmente cedeu.
— Ei, o que aconteceu? — perguntou ele, dando um passo à frente. — Você está pálida… aconteceu alguma coisa?
Ela tentou responder, mas as palavras não vinham.
Então apenas correu até ele, jogando-se em seus braços.
O choro veio antes de qualquer explicação — pesado, abafado, vindo de um lugar fundo demais.
Gabriel a abraçou com força, o queixo apoiado no topo da cabeça dela.
Não perguntou mais nada.
Apenas ficou ali, sustentando o peso do desespero dela, o calor, o tremor, o arrependimento que ele ainda nem compreendia.
— Shhh… — murmurou, acariciando os cabelos dela. — Calma, respira. Eu tô aqui. Respira comigo.
Foram longos minutos até que ela conseguisse recuperar o fôlego.
Quando finalmente se afastou, os olhos estavam marejados, a voz embargada.
— Eu fiz uma besteira, Gabriel.
Ele franziu o cenho, preocupado. — Besteira? O que você quer dizer com isso?
Ela respirou fundo, tentando controlar o tremor na voz.
— Eu encontrei alguém, não foi um encontro marcado ele simplesmente repareceu… alguém do meu passado. — As palavras saíam como cacos de vidro. — E… as coisas ficaram confusas.
O silêncio caiu entre eles como uma maré fria.
Gabriel ficou imóvel, os olhos fixos nela, o peito subindo e descendo devagar.
Era o tipo de silêncio que antecede um colapso — mas também o tipo que revela quem realmente é forte.
— Vocês se encontraram? Ele te machucou? — perguntou ele por fim, com a voz baixa, controlada, mesmo que a dor estivesse evidente.
Lara assentiu, as lágrimas voltando com força.
— Ele me beijou, mas… eu não consegui me afastar. Eu fiquei confusa… e me sinto h******l. Eu juro que não planejei nada. Eu só… não soube reagir.
Gabriel desviou o olhar por um instante, passando a mão pelos cabelos, respirando fundo.
Ela o conhecia bem o bastante para saber que aquele gesto era o dele tentando não explodir.
— Então ele simplesmente apareceu? — perguntou, num tom mais grave. — Depois de todo esse tempo ele somente apareceu e achou que tinha o direito de te tomar de volta como se o tempo não tivesse passado?
Ela desviou o olhar, envergonhada. — Ele não é culpado sozinho, eu me deixei levar.
Gabriel cerrou o maxilar, lutando contra a raiva que subia. — Esse cara… — ele fez uma pausa, a voz rouca. — Eu vou acabar com ele.
Ela tentou se explicar, mas a culpa engoliu qualquer palavra. — Eu sinto muito. A última coisa que eu queria era te magoar. Eu só… não podia esconder isso de você.
Ele respirou fundo, a mandíbula ainda tensa, mas o olhar suavizando. — Lara, olha pra mim.
Ela levantou o rosto devagar, e encontrou nos olhos dele mais dor do que raiva.
E foi essa dor silenciosa — e não o grito — que a fez chorar de novo.
— Eu gosto de você — disse ele, firme, sem rodeios. — Gosto de verdade.
E ver alguém te deixando assim, te machucando desse jeito… me destrói.
Mas não por ciúme. — Ele respirou fundo, a voz mais baixa. — Por impotência. Porque eu queria poder te proteger até de você mesma.
Lara fechou os olhos, o peito apertado. — Eu não mereço isso. Eu devia ter te poupado dessa confusão.
— Não diga isso. — Ele negou com a cabeça, aproximando-se. — Você não me arrastou pra nada. Você sempre foi sincera comigo sobre o seu passado. Eu sabia que havia alguém que ainda deixava marcas.
— E mesmo assim você ficou — ela murmurou, sem entender.
— Fiquei — respondeu ele, com um sorriso triste. — Porque eu acredito no que a gente tem.
Não é perfeito, não é simples… mas é verdadeiro.
E eu não vou embora só porque ele resolveu aparecer. Eu estarei aqui até quando você quiser que eu esteja.
Ela piscou, sentindo o impacto das palavras. — Eu não quero que você vá — murmurou, com um fio de voz. — Eu só não sei se isso é justo com você.
Ele sorriu de leve, triste, passando os dedos pelas lágrimas no rosto dela.
— Eu não vou te pressionar — continuou ele, a voz baixa. — Mas quero que você saiba… — Ele respirou fundo. — Eu quero você. Quero ficar, quero tentar.
Os olhos dela se encheram de lágrimas de novo, mas agora eram diferentes. — Gabriel…
Ele sorriu, um sorriso calmo e sincero. — Eu vim aqui para te fazer uma perguntar, e vou fazer mesmo que a vida resolveu bagunçar tudo — Ele segurou as mãos dela, entrelaçando os dedos. — Quero que seja minha namorada?
Lara ficou em silêncio por um momento, observando o rosto dele — o olhar firme, a expressão sincera, a segurança que emanava mesmo em meio à confusão.
— Eu não espero o que me responda agora, depois de tudo o que você passou hoje. Só não me afaste de você.
Ela sorriu com lágrimas nos olhos, um sorriso pequeno, mas real. — Eu não conseguiria me afastar de você.
— Então eu vou ficar — respondeu ele, acariciando a bochecha dela com o polegar. — Até quando você quiser que eu fique
E, naquele momento, ele a puxou suavemente para um abraço, o tipo de abraço que não pedia nada em troca. Lara fechou os olhos e se deixou ficar ali, nos braços de alguém que não exigia, não controlava, não sumia.
Nos minutos seguintes, o silêncio foi o bastante. Só o som da respiração deles, o calor do outro, o conforto de não precisar fingir. Lara sentia o coração ainda dividido — parte dela ainda se debatia na tempestade de Dam — mas nos braços de Gabriel, havia calma.
Quando se separaram, ele sorriu com ternura.
— Eu só preciso de um tempo para me reencontrar e entender tudo oque está acontecendo.
— Eu não tenho o pressa, leve o tempo que precisar. E quando tomar sua decisão, que seja sem culpa, sem medo. Que seja por inteiro.
Ele sorriu, a intensidade diminuindo apenas para dar lugar ao carinho, e a abraçou com ainda mais firmeza, como se estivesse selando uma promessa silenciosa.