O relógio da sala marcava quase nove da noite quando Gabriel estacionou o carro na frente da casa da família e reconheceu o carro do irmão. Fazia meses que não falava com o irmão. Desde que Dam viajara as conversas tinham se tornado raras, mensagens espaçadas e sem muitos detalhes.
As luzes da varanda estavam acesas. Um misto de alegria e nervosismo o fez sorrir e antes mesmo de abrir a porta
o som de passos ecoou do outro lado, e a porta se abriu, a imagem familiar de Dam surgiu — o mesmo olhar firme, o mesmo sorriso contido, mas com uma sombra diferente nos olhos.Gabriel virou devagar.
Ali estava ele.
Dan.
O mesmo sorriso provocador, mas sem brilho.
O mesmo olhar intenso, agora cansado.
Dois anos se passaram, mas o peso nos ombros denunciava que o tempo não foi leve..
— Olha só quem resolveu aparecer — disse Gabriel com um meio sorriso, puxando o irmão para um abraço forte.
Dam retribuiu o abraço — Tava na hora de voltar pra casa, eu acho. — A voz dele, embora leve, carregava uma ponta de exaustão.
Os dois entraram, e a sala é se sentaram no sofá, lado a lado, um copo de whisky servindo de pretexto para a conversa começar.
Gabriel observou o irmão por alguns segundos. Dan parecia mais velho, não só no rosto, mas no olhar.
— Achei que não fosse voltar — disse Gabriel, por fim.
— Achei que também não fosse.
— O que aconteceu? — A pergunta saiu num tom cuidadoso. — Você sumiu de vez.
Dan soltou um riso baixo, sem humor, passando as mãos pelos cabelos.
— História longa.
— Tenho tempo.
Ele se jogou no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos, a expressão distante.
— Lembra da Claire? — perguntou, sem olhar para o irmão.
Gabriel assentiu devagar. — A sua ex problemática
— Essa mesma. — Dan suspirou. — Dois meses após o término ela me procurou dizendo que estava indo embora, me mostrou passagens e tudo. Me disse que aquela era minha última chance de pedir para ela ficar.
O silêncio caiu pesado.
— O quê? — Gabriel franziu o cenho. — isso é sério?
— Quase dois meses depois ela me enviou mensagens com foto de exames, vídeos de ultrassom, testes de gravidez. Disse que o bebê era meu e que aquela era primeira e última vez que veria o meu filho.
Gabriel ficou imóvel, assimilando.
— Cara… isso é…
— Loucura? — Dan completou com amargura. — Eu sei. Mas na época, eu não conseguia duvidar e a ideia de ter um filho que nunca conheceria me dilacerava.
Ele passou a mão no rosto, respirando fundo.
— Então eu fui atrás. Deixei tudo pra trás — o trabalho, os amigos, deixei... Ela. Descobri após um tempo que ela estava nos Estados Unidos. Passei dois anos entre idas e vindas, consulados, advogados, detetives, procurando respostas…
— E? — Gabriel perguntou, já temendo a resposta.
— E descobri que nunca houve bebê nenhum.
O silêncio que se seguiu foi denso, quase palpável.
— Ela falsificou tudo. — A voz de Dan vacilou. — Exames, ultrassom, documentos. Tudo pra me punir por ter terminado com ela. Quis me fazer sofrer por me ver seguir em frente e conseguiu.
Gabriel sentiu um nó na garganta.
— Dois anos da tua vida…
— Perdidos. — Dan assentiu. — Mas o que mais me destruiu não foi isso. Foi perceber que eu acreditei. Que deixei a culpa me dominar a ponto de abandonar tudo e fazer exatamente o que ela queria.
Ele ficou em silêncio por um instante, o olhar perdido na parede.
— E agora você volta pra recomeçar? — perguntou Gabriel, tentando aliviar o peso.
Dan soltou uma risada breve, sem humor. — Recomeçar? Eu nem sei por onde.
Ele se recostou no sofá, e a expressão mudou — de raiva para algo mais suave, mais distante. - Eu estraguei tudo antes mesmo de começar.
Gabriel o observou em silêncio.
— Aposto que tem uma mulher no meio dessa história.
Dam olhou para ele e riu baixinho. — Sempre tem, não é? É foi por isso que Clare arrumou toda essa confusão.
Dan continuou, num tom que oscilava entre confissão e arrependimento:
— Ela era diferente, sabe? Inteligente, engraçada, meio perdida, mas com um coração enorme. Só que eu fiz a pior coisa que alguém pode fazer com quem confia em você: eu sumi
Gabriel ficou em silêncio, ouvindo.
— Eu tentei fazer o certo — continuou Dan. — Achar que, me afastando, ia poupá-la da bagunça que era a minha vida naquele momento. Eu estava em pedaços e ela era tão nova para estar no meio de tudo aquilo. Mas foi covardia, eu tive medo dela se afastar se soubesse da história toda, e eu mesmo acabei fazendo isso.
A voz falhou um pouco.
— E agora, eu volto e descubro que ela está com outro. Que seguiu em frente. E, por mais que eu queira dizer que fico feliz por ela, não consigo.
— E ela… é importante?
Dam levou o copo aos lábios, demorando alguns segundos antes de responder. — É mais do que isso. Ela é o tipo de pessoa que você tenta esquecer, mas não consegue. Te desafia, te instiga, te faz sentir vivo… e ao mesmo tempo, que a ausência dói.
Gabriel abaixou o olhar, as palavras do irmão ecoando dentro dele de um jeito incômodo. Era como se estivesse ouvindo uma descrição invertida do que vivia com Lara — só que no caso dele, ela o acalmava, não o destruía.
— E você acha que ela vai te aceitar de volta? — perguntou Gabriel, tentando manter o tom leve.
Dam suspirou, olhando para o copo. — Não sei. Talvez sim, talvez não. A gente ainda precisa conversar direito — Um silêncio breve. — Preciso explicar tudo que a ibteceh, e talvez ela entenda meus motivos e acabe me perdoando.
— E você? — perguntou Dam, desviando o foco. — Alguma novidade por aqui? Ainda se metendo em encrenca com garotas complicadas?
Gabriel deu uma risada curta. — Complicada é pouco. — Deitou-se contra o encosto do sofá, pensativo. — Conheci alguém há uns meses. Diferente de tudo que eu já vivi.
Dam arqueou a sobrancelha. — Diferente como?
Gabriel sorriu de canto. — Elatem uma força que eu nunca vi. Parece frágil, mas é decidida, direta. Às vezes te encara como se te enxergasse por dentro. E mesmo quando tenta se afastar, você só quer chegar mais perto.
Dam franziu o cenho, curioso. — Hum. Parece que o caçula se apaixonou de verdade.
— Completamente — admitiu Gabriel, olhando para o teto. — Sou um cara amarrado agora.
Dam desviou o olhar, um músculo do maxilar contraindo-se levemente. O silêncio que se seguiu foi denso, cheio de significados que nenhum dos dois compreendia, mas Dam reconheceu, estava com inveja do irmão, da felicidade pura que só quem ama é é correspondido tem.
- O caçulinha tá completamente rendido. É isso? - Dam provocou o irmã
Gabriel riu. — Você ia gostar dela. É do tipo que fala o que pensa, mas tem um coração enorme. Ela me faz rir, me faz querer cuidar e proteger, tem uma inocência e ao mesmo tempo uma maturidade que encanta.
Dam sorriu de leve, sem imaginar o quão cruelmente verdadeira aquela frase era. — Então cuida dela, mano. Se ela te faz feliz assim… não perde.
Gabriel olhou o irmão nos olhos. — Eu não vou perder, ela é precioda de mais para não ser cuidada.
Naquela noite, enquanto riam e relembravam histórias de infância, nenhum dos dois percebia que o maior confronto entre eles ainda estava por vir.
Que o nome que ambos evitavam pronunciar era o mesmo.
E que o amor que os unia como irmãos seria o mesmo que os colocaria frente a frente — não como família, mas como rivais.