Capítulo 16

1753 Words
Uma semana. Sete dias desde a última vez que Gabriel viu Lara. E, ainda assim, parecia uma eternidade. A cidade perdera a cor. As ruas que antes vibravam agora pareciam silenciosas demais, os cafés sem aroma, o sol sem brilho. Até o som do trânsito parecia abafado, como se o mundo inteiro tivesse sido envolto em um filtro cinza. Ele tentava seguir a rotina — responder e-mails, participar de reuniões, sorrir mecanicamente para colegas de trabalho —, mas a mente insistia em voltar para o mesmo lugar: Lara. Sempre ela. O mais c***l era que ela não o traíra com mentiras. Ela fora honesta. Podia ter escondido, disfarçado, inventado uma desculpa — mas escolheu contar. E, paradoxalmente, foi isso que mais o destruiu. A sinceridade dela não apagava a imagem que a mente dele insistia em repetir: Lara, com outro. O toque, o beijo, o passado que voltara para bagunçar o presente. Ele a amava. Mas será que amor bastava? Durante aquela semana, Gabriel se afastou do mundo — e dela. Precisava de distância para entender onde terminava o orgulho e começava o medo. Queria descobrir se ainda era capaz de confiar. Mas cada silêncio parecia puni-lo mais do que a própria verdade. Naquela tarde, sentado à beira da cama, ele encarou o celular. O nome dela brilhava na tela, como uma ferida que teima em doer mesmo depois de cicatrizada. O polegar pairou sobre o botão de chamada. Hesitou. Respirou. E, por fim, cedeu. O toque soou uma, duas, três vezes — até que a voz dela o envolveu como uma lembrança antiga. — Oi... — a voz de Lara era suave, baixa, como se carregasse o mesmo nervosismo que ele sentia. — Estava esperando você ligar. O peito de Gabriel apertou. Ela o esperava. — Oi. — Ele respirou fundo, tentando controlar a voz. — A gente precisa conversar. Do outro lado da linha, o silêncio foi breve, mas denso. — Eu sei. — respondeu ela, com um fio de voz. — Posso passar no seu escritório hoje— Ele fez uma pausa. — Após o expediente? - Estarei aqui - ela respondeu sentindo o coração apertar. E desligou. O sol já começava a descer, tingindo o céu de dourado e laranja, como se o próprio dia quisesse assistir ao reencontro. Lara estava apreensiva o coração descompassado. Desde a ligação, o tempo parecia correr em ritmo próprio. Cada batida do próprio coração trazia um turbilhão de lembranças — o primeiro olhar, o primeiro toque, as risadas entre taças de vinho, o som do nome dele na voz dela. Mas também a última conversa, as lágrimas, a confissão, o vazio. Ela avistou pela janela Gabriel do outro lado da rua, encostado no carro. O vento bagunçava o cabelo loiro dele, os olhos azuis a encontraram como se o tempo entre eles nunca tivesse existido. E, por um instante, ela quis voltar correndo para o abraço dele, antes mesmo que qualquer palavra fosse dita. Ela trancou o escritório e foi ao encontro dele. — Oi. — ela murmurou, ao se aproximar. Gabriel se endireitou, mas não respondeu de imediato. Apenas a olhou. Havia algo diferente em seu olhar — menos raiva, mais saudade. E, sem conseguir se conter, ele deu dois passos à frente e a envolveu num abraço. Não foi um abraço qualquer. Foi o reencontro de dois mundos que haviam se partido e, de repente, lembraram que se encaixavam. O cheiro dela, o toque, o corpo pequeno entre os braços dele — tudo gritava casa. — Eu senti sua falta — disse ele, a voz rouca, quase num sussurro contra o cabelo dela. — Eu também — respondeu Lara, encostando o rosto no peito dele. — Mais do que posso dizer. Eles permaneceram assim por longos segundos — tempo o bastante para o arrependimento se dissolver um pouco, e a esperança se infiltrar entre os dedos entrelaçados. Quando se afastaram, Gabriel manteve as mãos nas dela. Os olhos buscavam os dela com uma mistura de carinho e receio. — Lara, eu preciso que seja totalmente sincera comigo. — disse, firme, mas sem agressividade. — Se ainda houver algo que eu não sei… algo que você guarda, agora é a hora. Ela assentiu lentamente, respirando fundo antes de falar. — Eu não tenho mais nada a esconder, Gabriel. — pausou, tentando conter o tremor na voz. — Eu me encontrei com ele há alguns dias… e aconteceu um beijo. Foi rápido, confuso. Eu estava assustada, perdida. Mas acabou. — As lágrimas vieram sem permissão. — Ele me prometeu que não vai mais me procurar, e eu… eu percebi que não quero olhar pra trás. Não quero viver no que já foi. Eu quero ficar. Com você. Gabriel fechou os olhos por um instante, deixando as palavras penetrarem devagar. A dor ainda existia, mas algo nela — talvez a forma como ela tremia, ou a sinceridade nos olhos — o desarmava completamente. Ele levantou o rosto, encostando a testa na dela. — Então vamos ser inteiros juntos — disse, num tom baixo e decidido. — Sem pressa, sem medo, sem metades. Se você cair, eu vou estar lá pra te levantar. Se duvidar, eu vou te lembrar quem somos quando estamos juntos. Lara sorriu entre lágrimas. — Você tem ideia do quanto isso significa pra mim? Ele devolveu o sorriso — aquele meio sorriso torto que sempre a fazia derreter. — Tenho uma noção. Mas, se quiser, posso passar a vida inteira te provando. Ela riu, o som leve, como um início de cura. O vento soprou entre eles, e por um breve momento, o mundo pareceu suspenso. Mais tarde, caminharam lado a lado pelo parque. O sol já se escondia atrás das árvores, e o ar fresco da tarde trazia um silêncio confortável. Gabriel entrelaçou os dedos nos dela, e os dois seguiram devagar, sem pressa de chegar a lugar nenhum. — Está distraída. — ele comentou, rindo. — O que se passa nessa cabeça? — Pensando em como o tempo cura o que precisa ser curado. — respondeu ela, olhando o caminho à frente. — Isso é bom ou r**m? Ela virou o rosto, sorrindo de leve. — É maravilhoso. Às vezes eu acho que não mereço essa leveza depois de tudo o que fiz. Gabriel parou, puxando-a suavemente para perto. Com uma das mãos, levantou o queixo dela, forçando-a a encará-lo. — Você merece, Lara. Nós dois merecemos. — disse com convicção. — E sabe por quê? Porque a gente escolheu ficar. Escolheu tentar, mesmo com medo. Isso é amor, não perfeição. As palavras dele a envolveram como um abrigo. Ela sentiu o peito se abrir, uma paz que há muito não sentia. Caminharam mais um pouco, entre risadas, lembranças e toques discretos. Gabriel contava histórias da infância, ela ria, e aos poucos o peso do passado foi se tornando leve. Quando o sol finalmente se despediu, ele a levou para casa. O carro seguia embalado por uma trilha sonora suave, e o silêncio que os envolvia era confortável — não o silêncio do medo, mas o da cumplicidade. Ao parar diante da casa dela, Gabriel virou-se e segurou a mão dela, os olhos brilhando sob a luz amarela do poste. — Amanhã é meu aniversário. — disse, com um sorriso tímido. — Minha mãe quer fazer um almoço simples, só a família. Quero que venha. Eles estão curiosos pra te conhecer. Lara arregalou os olhos, surpresa. — Não é cedo demais pra isso? — perguntou, com um meio sorriso nervoso. — Acho que é o tempo certo. — ele respondeu, divertido. — Relaxa, eles são tranquilos. Minha mãe vai te adorar. — Sua mãe? — Ela riu nervosa. — Então é oficial? Ele segurou a mão dela e a olhou fundo nos olhos. — Oficial, se você quiser que seja. O sorriso dela se abriu, tímido, mas real. — Então amanhã, almoço na casa da sogra. — Sogra — repetiu ele, rindo. — Gostei de ouvir isso. Ele se inclinou e a beijou de novo, devagar. Quando se separaram, ela ficou por um instante apenas olhando pra ele, com o coração leve e cheio. Um beijo que dizia “não vamos mais nos perder”. Quando se separaram, ele encostou a testa na dela e sussurrou: — Eu não quero mais te deixar ir, Lara. Nem por uma semana, nem por um dia. Ela sorriu, os olhos marejados. — Então não me deixa. Mais tarde, quando Lara entrou em casa, o peito ainda vibrava. O cheiro dele, o toque, o olhar — tudo nela pulsava Gabriel. Encostou-se na porta, os olhos fechados, e pela primeira vez em muito tempo, não sentiu culpa. Sentiu paz. O passado ainda existia, claro. Mas, de repente, ele já não doía. Era apenas isso: passado. Ela caminhou até a varanda e olhou o céu noturno, pontilhado de estrelas. Pegou o celular, e uma mensagem chegou naquele instante: “Dormir pensando em você já é tradição. Amanhã quero te ver de novo — sem fantasmas, sem medo. Só nós.” — G. Lara sorriu. Digitou de volta: “Sem fantasmas. Só a verdade e o que a gente quer construir.” Lara ficou parada diante do espelho, o reflexo devolvendo a imagem de alguém que ela m*l reconhecia. Não pela aparência — mas pelo brilho nos olhos. Fazia tempo que não via aquela versão de si mesma: esperançosa, tranquila, em paz. Mas, em algum ponto lá dentro, uma voz sussurrava o nome que ela tentava esquecer. Dam. O eco vinha baixo, quase imperceptível. Ela respirou fundo, afastou o pensamento e se permitiu sorrir. Não ia deixar o passado roubar o que estava construindo. Não dessa vez, não depois de ter despido sua alma para Gabriel e contato tudo o que a atormentava e decidido não deixar o passado atrapalhar seu presente. E, pela primeira vez desde que tudo aconteceu, ela dormiu sem culpa, sonhando com o que viria ao lado de Gabriel. Do outro lado da cidade, Gabriel também olhava o teto do quarto, a mente girando entre o alívio e o medo. Sabia que o amor começava ali — e, talvez, o risco também. Mas estava disposto a pagar o preço. Porque, às vezes, o que fica depois de uma ruptura não é o vazio — é o espaço certo pra um recomeço. E, naquela noite, os dois dormiram com o mesmo pensamento sem saber: que o destino, paciente e c***l, ainda tinha mais páginas para virar antes do fim da história.
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