Capítulo 6

1053 Words
Dois anos, setecentos e sessenta e cinco dias desde que Dam desapareceu e ela ainda não entendia o motivo. O tempo havia se esticado e se retraído tantas vezes que Lara já nem sabia se esperava por ele ou por uma explicação. Mas agora, aos 21, ela sentia que não podia mais ficar parada. Era a idade das escolhas, da independência, das dúvidas. O número em que a vida adulta deixa de ser promessa e começa a cobrar presença. O barzinho escolhido pelas amigas ficava numa esquina charmosa da cidade janelas de madeira, luzes amareladas penduradas em fios e mesas gastas que guardavam histórias de muitos outros aniversários. O som de um violão se misturava ao riso das pessoas e ao cheiro de cerveja e batata frita. Era uma noite mornal de sexta-feira, com o vento anunciando uma chuva que nunca vinha. Lara estava ali, cercada por vozes animadas, copos tilintando e música boa mas, por dentro, sentia-se distante. Usava um vestido leve azul-claro e no pulso carregava uma fitinha de seda presente das amigas. “Pra marcar o início da vida adulta”, disseram, rindo. Ela sorriu, mas o olhar denunciava o que o coração ainda pesava. Os vinte e um chegaram, mas a parte mais difícil era admitir que Dam não estaria ali para ver. — Agora sim você é oficialmente adulta — disse uma das amigas, erguendo o copo. — Dezoito é só ilusão. Vinte e um é quando a vida começa a cobrar boleto e coragem. As outras gargalharam. — E crises existenciais — completou outra. — Até os vinte a gente finge que tá estudando. Com vinte e um, ou você se acha... ou se perde de vez. Lara riu, meio sem graça. — Então eu tô atrasada pra começar. As meninas brindaram, pediram mais música e mais uma rodada. Ela, porém, observava a espuma no copo de suco que segurava. Sentia-se ali e não. Parte presente, parte lembrança. A madrugada se alongou. Quando o grupo decidiu ir embora, Lara foi a última a sair. Do lado de fora, o vento frio arrepiou seus braços. Procurou as chaves do carro na bolsa… e nada. Revirou os bolsos, a jaqueta, o chão. Nada. — Ah, ótimo — murmurou, sentando-se no capô do carro . — Vinte e um e ainda perdendo coisa no meu próprio aniversário. O bar já apagava as luzes quando uma voz se ergueu atrás dela: — Problemas? Ela se virou. Um rapaz estava encostado num poste de luz, o cabelo castanho bagunçado, sorriso fácil e um olhar que misturava ironia e gentileza. Tinha uns dois, talvez três anos a mais que ela. Jaqueta de couro, camisa branca simples, sorriso debochado. O tipo de pessoa que parecia caber bem em qualquer lugar. — Acho que sim — respondeu ela, cruzando os braços. — É sempre nessa época que eles aparecem. Ele arqueou uma sobrancelha, intrigado. — Nessa época? — Quando a gente decide crescer — disse ela. — Parece que a vida fica mais criativa em inventar encrenca. Ele sorriu. — Então, pela festa lá dentro, você acabou de fazer vinte e um? — Exatamente. O momento oficial da vida adulta, segundo minhas amigas. — Parabéns, então. — Ele deu um leve aceno. — E o problema é...? — Perdi as chaves do carro. Tinha umas... — Borboletas azuis? — ele interrompeu com humor. — Curioso. Acho que encontrei uma coisa assim ali perto. Ele tirou algo do bolso. As borboletas balançaram sob a luz amarelada. Lara arregalou os olhos. — Você encontrou! — Toda princesa deixa uma pista pra ser resgatada — disse ele, sorrindo. Ela riu, balançando a cabeça. — Então devo acreditar que você é meu príncipe? — Só se você prometer não rir de mim. — Sem promessas — respondeu, pegando as chaves. Os dedos se tocaram por um instante, e ela sentiu um pequeno choque — não de eletricidade, mas de reconhecimento. — Obrigada por salvar minha noite. — Percebi tarde demais que, ao devolver as chaves, perdi a desculpa de te oferecer uma carona. Ela riu. — Eu sou a motorista da rodada. Se quiser dar carona, vai ter que levar mais três amigas e um karaokê desafinado junto. — A aniversariante é a motorista? Isso devia ser ilegal. — Prefiro lembrar do que vivi — respondeu. — A ressaca física é fácil, a emocional é que complica. — Filosófica — disse ele, divertido. — Então o que faz aqui, sozinha, às duas da manhã? — Tentando entender por que crescer dá tanto trabalho. Ele se aproximou um passo. — Pelo menos não está sofrendo por amor. Ela hesitou antes de responder. — Estou tentando desaprender a sofrer. - ela riu baixinho - Muito clichê né? Ele assentiu, sério. — O clichê só existe porque é verdade. Mas sabe o que dizem? Isso passa quando alguém aparece pra te devolver as suas chaves perdidas. — Nesse caso, que sorte a minha - O sorriso antes baixo e incerto dessa vez chegou aos olhos — Que sorte a nossa — completou ele, com um meio sorriso. A risada dela veio solta, verdadeira algo que não acontecia há tempos. — Você tem resposta pra tudo? — Só quando me convém. — Ele sorriu. — Mas convenhamos, mereço ao menos um café em agradecimento. — Você não está com tanta sorte assim, mas fico te devendo uma. O vento soprou, bagunçando o cabelo dela. Por um instante, os dois ficaram apenas se olhando, como se o mundo tivesse esquecido de girar. E Lara sentiu, talvez pela primeira vez em muito tempo que algo leve começava a se abrir dentro dela. — Eu sou Gabriel, a propósito — disse ele, estendendo a mão. — Lara. Ele segurou a mão dela um pouco mais do que o necessário. — Nome bonito. Combina com você. Ele se afastou, devagar. - Boa noite Lara Ela ficou parada, vendo-o se afastar pela rua silenciosa, o som dos passos sumindo na calçada. E, pela primeira vez desde que Dam partira, ela sentiu vontade de sorrir, não por lembrança, mas por esperança. O vento voltou a soprar, fazendo o chaveiro de borboletas tilintar suavemente. E Lara pensou que talvez crescer fosse exatamente isso: Perder algumas chaves, encontrar outras. E entender que nem todo recomeço precisa carregar o mesmo nome.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD