Dois anos, setecentos e sessenta e cinco dias desde que Dam desapareceu e ela ainda não entendia o motivo.
O tempo havia se esticado e se retraído tantas vezes que Lara já nem sabia se esperava por ele ou por uma explicação.
Mas agora, aos 21, ela sentia que não podia mais ficar parada.
Era a idade das escolhas, da independência, das dúvidas.
O número em que a vida adulta deixa de ser promessa e começa a cobrar presença.
O barzinho escolhido pelas amigas ficava numa esquina charmosa da cidade janelas de madeira, luzes amareladas penduradas em fios e mesas gastas que guardavam histórias de muitos outros aniversários.
O som de um violão se misturava ao riso das pessoas e ao cheiro de cerveja e batata frita.
Era uma noite mornal de sexta-feira, com o vento anunciando uma chuva que nunca vinha.
Lara estava ali, cercada por vozes animadas, copos tilintando e música boa mas, por dentro, sentia-se distante.
Usava um vestido leve azul-claro e no pulso carregava uma fitinha de seda presente das amigas.
“Pra marcar o início da vida adulta”, disseram, rindo.
Ela sorriu, mas o olhar denunciava o que o coração ainda pesava.
Os vinte e um chegaram, mas a parte mais difícil era admitir que Dam não estaria ali para ver.
— Agora sim você é oficialmente adulta — disse uma das amigas, erguendo o copo. — Dezoito é só ilusão. Vinte e um é quando a vida começa a cobrar boleto e coragem.
As outras gargalharam.
— E crises existenciais — completou outra. — Até os vinte a gente finge que tá estudando. Com vinte e um, ou você se acha... ou se perde de vez.
Lara riu, meio sem graça. — Então eu tô atrasada pra começar.
As meninas brindaram, pediram mais música e mais uma rodada.
Ela, porém, observava a espuma no copo de suco que segurava.
Sentia-se ali e não.
Parte presente, parte lembrança.
A madrugada se alongou. Quando o grupo decidiu ir embora, Lara foi a última a sair.
Do lado de fora, o vento frio arrepiou seus braços. Procurou as chaves do carro na bolsa… e nada. Revirou os bolsos, a jaqueta, o chão.
Nada.
— Ah, ótimo — murmurou, sentando-se no capô do carro . — Vinte e um e ainda perdendo coisa no meu próprio aniversário.
O bar já apagava as luzes quando uma voz se ergueu atrás dela:
— Problemas?
Ela se virou.
Um rapaz estava encostado num poste de luz, o cabelo castanho bagunçado, sorriso fácil e um olhar que misturava ironia e gentileza.
Tinha uns dois, talvez três anos a mais que ela. Jaqueta de couro, camisa branca simples, sorriso debochado.
O tipo de pessoa que parecia caber bem em qualquer lugar.
— Acho que sim — respondeu ela, cruzando os braços. — É sempre nessa época que eles aparecem.
Ele arqueou uma sobrancelha, intrigado.
— Nessa época?
— Quando a gente decide crescer — disse ela. — Parece que a vida fica mais criativa em inventar encrenca.
Ele sorriu.
— Então, pela festa lá dentro, você acabou de fazer vinte e um?
— Exatamente. O momento oficial da vida adulta, segundo minhas amigas.
— Parabéns, então. — Ele deu um leve aceno. — E o problema é...?
— Perdi as chaves do carro. Tinha umas...
— Borboletas azuis? — ele interrompeu com humor. — Curioso. Acho que encontrei uma coisa assim ali perto.
Ele tirou algo do bolso. As borboletas balançaram sob a luz amarelada.
Lara arregalou os olhos. — Você encontrou!
— Toda princesa deixa uma pista pra ser resgatada — disse ele, sorrindo.
Ela riu, balançando a cabeça. — Então devo acreditar que você é meu príncipe?
— Só se você prometer não rir de mim.
— Sem promessas — respondeu, pegando as chaves. Os dedos se tocaram por um instante, e ela sentiu um pequeno choque — não de eletricidade, mas de reconhecimento.
— Obrigada por salvar minha noite.
— Percebi tarde demais que, ao devolver as chaves, perdi a desculpa de te oferecer uma carona.
Ela riu. — Eu sou a motorista da rodada. Se quiser dar carona, vai ter que levar mais três amigas e um karaokê desafinado junto.
— A aniversariante é a motorista? Isso devia ser ilegal.
— Prefiro lembrar do que vivi — respondeu. — A ressaca física é fácil, a emocional é que complica.
— Filosófica — disse ele, divertido. — Então o que faz aqui, sozinha, às duas da manhã?
— Tentando entender por que crescer dá tanto trabalho.
Ele se aproximou um passo.
— Pelo menos não está sofrendo por amor.
Ela hesitou antes de responder.
— Estou tentando desaprender a sofrer. - ela riu baixinho - Muito clichê né?
Ele assentiu, sério. — O clichê só existe porque é verdade. Mas sabe o que dizem? Isso passa quando alguém aparece pra te devolver as suas chaves perdidas.
— Nesse caso, que sorte a minha - O sorriso antes baixo e incerto dessa vez chegou aos olhos
— Que sorte a nossa — completou ele, com um meio sorriso.
A risada dela veio solta, verdadeira algo que não acontecia há tempos.
— Você tem resposta pra tudo?
— Só quando me convém. — Ele sorriu. — Mas convenhamos, mereço ao menos um café em agradecimento.
— Você não está com tanta sorte assim, mas fico te devendo uma.
O vento soprou, bagunçando o cabelo dela. Por um instante, os dois ficaram apenas se olhando, como se o mundo tivesse esquecido de girar.
E Lara sentiu, talvez pela primeira vez em muito tempo que algo leve começava a se abrir dentro dela.
— Eu sou Gabriel, a propósito — disse ele, estendendo a mão.
— Lara.
Ele segurou a mão dela um pouco mais do que o necessário.
— Nome bonito. Combina com você.
Ele se afastou, devagar. - Boa noite Lara
Ela ficou parada, vendo-o se afastar pela rua silenciosa, o som dos passos sumindo na calçada.
E, pela primeira vez desde que Dam partira, ela sentiu vontade de sorrir, não por lembrança, mas por esperança.
O vento voltou a soprar, fazendo o chaveiro de borboletas tilintar suavemente.
E Lara pensou que talvez crescer fosse exatamente isso:
Perder algumas chaves, encontrar outras.
E entender que nem todo recomeço precisa carregar o mesmo nome.