DEMETRIA
Era manhã, o frio se impregnava aos seus ossos. Água escaldante foi preparada por Cecily numa tina para que tomasse banho. Tomou um chá de hortelã para o hálito e escovou os dentes com os dedos. Deveria ter passado no convento antes e preparado sua mala e avisado as freiras que faria uma excursão a outro mundo. Demetria riu consigo mesma enquanto Cecily terminava os ajustes do vestido vermelho e dourado. Era um tecido pesado, mas leve. Quase como camurça e por dentro era bordado com um pano mais pesado para protegê-la do frio. Fechou o colar de sua mãe na mão. O pai de Iker já havia chegado ao acampamento e precisava estar apresentável para conhecê-lo. Quer dizer, um dragão com certeza foi menos assustador do que conhecer o pai de seu futuro marido.
Até que algo a ocorreu. Iker falou do pai, mas não da mãe dele. Arqueou a sobrancelha. Cecily devia saber, porém, não daria esse gostinho de vitória a garota.
Kalahan perguntou do lado de fora:
— Majestade, está pronta?
— Últimos ajustes, Kalahan. Logo a princesa estará pronta.
Era estranho para Demetria ser chamada de rainha por uns, princesa por outros. Era só confuso. Preferia Sarah agora, mais simples, menos complicado. Será que ainda teria chance de fugir para o convento de novo? Deu um suspiro.
— Sobre ontem me desculpe.... Eu não deveria ter falado daquele jeito com você, Lady Cecily.
— Está tudo bem. — A ruiva disse. — Eu já sabia que o Iker estava prometido a alguém.
...
Na barraca central onde Iker se reunia aos seus homens para discutir estratégias, foi improvisado um ligeiro trono que era basicamente uma cadeira de madeira, mas com um acolchoado vermelho nas costas e com uma almofada no assento antes duro. O marrom da lona que cobria as barracas se destacava contra a branquidão extrema da fronteira de Dragomir. O frio ainda era cortante, porém, graças ao vestido vermelho e rodado pesado que usava, bem menos incômodo, tinha que chutá-lo para andar pelo excesso de panos e o broche que foi seu presente estava nele se destacando. Os olhares de todos estavam sobre ela, alguns de piedade e outros de curiosidade. Chegou finalmente ao local vendo Iker perto do homem assentado que a aparência comparada a do príncipe não chamava tanta atenção apesar dos trajes nobres e da coroa que parecia pesada em sua cabeça.
Não pode deixar de notar que era incrivelmente bonito o jeito que o cabelo de seu noivo se destacava mesmo amarrado num r**o de cavalo, espessos e esticados fios iam até o meio das costas expondo o pálido e bem-afeiçoado rosto, invejou-o por aquela perfeição irritante. Quando ele notou o olhar dela, sustentou como era o comum dele com ligeira raiva, e ela desviou o olhar ainda inconformada.
Manteve-se calada apenas espiando ao homem novamente com fascínio e tentando não tropeçar ao ser guiada por Kalahan até ele e entregue por fim. Sobre a túnica vermelha que combinava com o vestido dela, o príncipe usava um pomposo manto de escuro que se assemelhava a pele de um urso preso ao redor dele por uma corrente dourada de ouro que ia de um ombro a outro e na cabeça uma coroa de ouro com rubis, Iker a tomou pela mão sobre os olhares atentos de Kalahan e Lady Cecily. Os dois servos se deram conta, sim um casal imponente, admitiram a contragosto.
Juntos curvaram-se então ao rei Damien que apenas sorriu para Demetria por reconhecer nela a junção perfeita de Kiera e Luther, e por fim se levantaram. A moça estava tensa pelo modo que tamborilava os dedos livres da mão na saia do vestido. Era engraçado para Damien vê-la e era ligeiramente incômodo porque o preenchia de uma nostalgia traiçoeira. Como alguém podia ser aquela mistura perfeita?
— Pai, essa é.... ― Iker ia apresentá-la.
— Se parece com sua mãe, uma mulher forte e inabalável! — Admirou-a o homem do trono. Ele quis dizer, apesar da pouca altura que é tão incomum por aqui. O monarca era ligeiramente corpulento, era calvo, ao contrário de seu filho, contudo, a bondade e severidade em seus olhos era algo que o tornava alguém a se respeitar. — Apesar de ter o formato dos olhos e o olhar imponente de seu pai. A cor escura de seus olhos creio que tenha herdado de seu avô, sim, seus olhos são herança de Alam, podem perscrutar a alma de um homem e saber seus segredos. Os de Luther eram dois tons mais claros que os seus apesar de também escuros e os de sua mãe eram âmbar pelo que me recordo. Contudo, creio que a linhagem tenha sido mais forte em você para herdar os olhos escuros e profundos que podem condenar um homem ao céu ou ao mais profano lugar do lago da morte.
A menina de mãos dadas ao filho do rei, não pode contar a surpresa. Iker apertou a mão enluvada dela ao sentir ela dar um passo à frente.
— Perdoe minha audácia, majestade. Conheceu minha família?
— Seu avô era meu padrinho, majestade. — Contou-a Damien como se nada fosse. Iker arregalou os olhos pela revelação e mais ainda porque seu pai tratou-a com o título que ainda nem era dela reconhecendo-a como rainha até dele e isso sem nem mesmo ter visto o colar ornado pelo ancestral deles, Dramer, brilhar perante ela. — Seu pai e eu éramos bons amigos e sua mãe foi uma mulher estonteante e uma guerreira incrível. Vossa mãe salvou minha vida uma vez na guerra contra Ratifar quando tentaram conquistar Dragomir. —Revelou-a. Iker congelou em sua postura arrogante se sentindo humilhado. — A rainha Kiera com uma espada parecia uma guerreira imparável e o seu pai era muito habilidoso, o melhor espadachim que já vi, ele parecia se mover com o vento, leve, rápido, gracioso, mortal e ao mesmo tempo o homem mais misericordioso com quem tive o prazer de cruzar caminho. A habilidade de meu filho com a luta não é bruta como a dos outros guerreiros se notar, fiz questão que ele aprendesse a lutar como Luther e dizem que ele é um ótimo espadachim e não importa o cenário sempre permanece intacto. — Relatou com um sorriso feliz. — Se não for ousadia, gostaria de dizer que é uma junção perfeita de vossos pais, majestade. Eu lamento profundamente sua perda. —Informou-a calmo e com um ligeiro sorriso por lembrar-se de tempos passados. — Contudo, que essa amizade que nutria por vossa mãe e vosso pai se estabeleça na união de nossos reinos e no seu casamento com meu filho.
— Eu é quem o agradeço.... Por honrar sua palavra a minha mãe! E peço perdão pelos atos imprudentes de meu tio contra sua pátria.
Demetria corou um pouco, no entanto, agradeceu também num mover da cabeça.
Cecily fez uma ligeira careta.
— Meu filho amado me disse que vocês queriam se casar aqui hoje, aproveitando minha presença para abençoar a união.... — Buscou a resposta dela. Kalahan e Cecily levaram os olhos aos outros dois mais à frente, surpresos. — Entendo que sejam jovens e tenham se agradado um do outro, claro, os dois são vistosos, mas esse ato é um tanto precoce.... — Riu ligeiramente. — Alguém do seu porte merece uma festa digna e inesquecível, não acha? Foi privada de ser quem é por tanto tempo. — Apiedou-se. — Uma festa que toda Tretagon não esqueça! É o que eu gostaria de dar a você já que se tornará minha filha. Vários presentes estão sendo preparados numa barraca nesse exato instante e se não se importa tomei a liberdade e trouxe-a uma dama de companhia.
— Eu sou extremamente grata por sua bondade.... — Demetria agradeceu. Fez uma ligeira reverência apesar de só manter-se firme por Iker a segurar por estar sentindo o coração acelerado e as pernas bambas. Aquilo era real, estava mesmo acontecendo. — Eu não me importo em casar aqui, majestade. — Falou suave e temerosa. — Eu só quero matar meu tio de uma vez! — Soltou, desesperada e descontrolada. Apesar de surpreso pelas palavras, não podia culpá-la, a benevolência de Luther com o irmão o havia feito perecer, era bom saber que a filha dele não cometeria o mesmo erro, entretanto, ao mesmo tempo o deixava triste que alguém tão jovem tivesse tamanha sede de vingança. Demetria percebendo sua fala e sentindo um ligeiro aperto de Iker na sua mão, repreensivo, deu um suspiro que significava um pedido de desculpas e o casal trocou um ligeiro olhar cúmplice. — E uma festa de casamento pode levantar a moral dos soldados e fazê-los lutar mais avidamente por eu me tornar a princesa deles e não uma mera forasteira sem trono ou qualquer coisa no que me apoiar.
— Claro, compreendo. O fator político realmente é deveras importante.... Que perspicaz da sua parte.... Me pergunto de quem foi essa ideia.... — Damien terminou de falar sustentando um olhar a Iker severo. E ele manteve o olhar no do pai com os mesmos olhos azuis do rei, apesar de os do rei serem mais amáveis e menos cortantes. Focou-se em Demetria por fim. — Há algum pedido que gostaria de fazer, criança? Algo que gostaria de ter ou saber...
— Você conheceu meu tio?
Um silêncio se instaurou. Iker avaliou seu pai, interessado.
— Ah, sim. Isso.... — Damien tomou uma rufada de ar. — Conheci sim.
— O que pode me dizer dele? — Os olhos dela eram como os de uma criança com medo de uma história de terror.
Os olhos azuis dele ficaram perdidos no tempo e os lábios se crisparam um pouco mesmo que de forma rápida demais para que se notasse.
— Ele é um homem que não mede esforços para conseguir o que quer. Alguns admiram isso. — Foi a única coisa que conseguiu proferir sem olhá-la e cerrando a mão em punho. — A qualidade ou defeito vai depender do ponto de vista da pessoa e em qual lado ela está.
A sabedoria dele a fez estremecer ligeiramente e a fez sentir respeito de imediato.
— E em qual lado vossa majestade está? — Foi audaciosa.
O rei sorriu realmente surpreso por alguém tão pequena ser tão corajosa.
— Gosto de pensar que sei uma coisa ou outra sobre honra. — Explicitou decidido. — Numa carta sua mãe me disse que era uma moça e sugeriu que quando chegasse a maioridade casasse-se com meu único filho que já possuía dez dias de seu nome e então ambos retomassem Fenit e depois de nossa morte unificassem os reinos. Bem, a ideia me pareceu agradável, não me leve a m*l, não é que eu não goste de ser rei ou não ame Dragomir, mas o dragão e a fênix sempre foram bons amigos e mesmo sendo de reinos diferentes nunca competimos sempre nos respeitamos e nos unimos quando os outros seis se uniram para nos atacar em tempos remotos. Se unir é só o certo. Espero que essa seja uma boa resposta.
— É sim. — Demetria sorriu emotiva e os olhos se encheram de lágrimas, as limpou rapidamente.
— O que há criança? Falei algo errado? — Damien sondou-a.
Demetria negou com a cabeça com as lágrimas escorrendo por suas bochechas. Iker permitiu-se olhá-la franzindo ligeiramente o cenho pela preocupação e virou-a para si, limpando o rosto dela com os polegares de uma forma rude.
— Ah, não me olhem. — Ela abaixou a cabeça triste que seu cabelo não fosse mais longo e não pudesse esconder o rosto e acabou afundando-o no peito de Iker, impedindo que a vissem. Cecily revirou os olhos e Kalahan conteve sua vontade de ir consolar sua monarca. — É só que na minha terra tem um ditado, me diga com quem tu anda e te direi quem tu és, vendo vossa majestade, eu posso ter pelo menos uma ideia de quem meus pais foram e isso me deixa tão feliz que só quero chorar. — A voz saiu abafada, todavia, alta o suficiente. O rei se emocionou também porque mesmo sendo palavras simplórias atingiam bem lá no fundo. — Saiba que tem minha gratidão por ter sido mais irmão ao meu pai do que o próprio irmão de sangue dele! — Falou trêmula ainda escondida. — Desculpe, é só que mesmo eu não os tendo conhecido, eu me sinto feliz em saber que não me abandonaram como pensei toda a minha vida. E mais ainda, saber que nem todos nessa terra são tão ruins quanto meu tio e que alguém como vossa majestade os admirava tanto como eu estou o admirando agora.
Damien sorriu ternamente para ela mesmo que moça não visse. Levantou-se do trono e foi até ela, fazendo-a parar de abraçar Iker que ainda estava sem ação pelo súbito movimento da moça. A tocou no rosto com a palma da mão na bochecha dela e o polegar enxugando as lágrimas dela fazendo-a olhá-lo mesmo que relutantemente.
—Escute, é minha filha agora, criança. Que bom que pode ver pelo meus olhos ao menos um pouco de seus pais. E eu gostaria de dizer pessoalmente a eles o quanto a filha deles brilha. A rainha que ela é. —Demetria quebrou-se em soluços como uma criança perdida e foi abraçada pelo ancião o correspondendo. — Eles teriam muita felicidade em vez que em meio a adversidade cresceu tão bem e tão linda. Dragomir terá sorte em tê-la como rainha no futuro e meu filho por desposá-la. Não poderia ter escolhido alguém melhor.
Cecily saiu da cabana.
Kalahan se manteve quieto vendo o próprio rei consolar Demetria, com um aperto no coração. Não sabia que ela sentia tanta dor, se soubesse talvez teria sido menos c***l a julgando quando ela foi ríspida com Cecily. Ela não precisava de mais esse fardo. Agora que colocou-se no lugar dela entendeu o quanto tudo parecia estar sendo uma grande mudança. Um reino, um casamento, um tio que matou o pai dela, desposou a mãe e tudo por um trono.
— Desculpe, eu sou meio emotiva e.... — Demetria se afastou, enxugando as lágrimas e sorrindo para o rei.
— Tudo bem. Não tem que se desculpar por ter um coração. Meu filho deveria aprender com você. — Damien repreendeu Iker.
Iker apenas soltou um suspiro.
— Aprender o quê, pai? Foi porque o pai dela levou em conta os laços de sangue que hesitou tanto e acabou morrendo.
— Iker! — Disse o rei severamente.
— O quê? Estou mentindo? Você mesmo disse que o jeito bruto de Alexander de lutar não se comparava a habilidade de Luther. — Iker continuou.
Damien lançou um olhar gelado ao filho.
— Não o repreenda, majestade. Por mais c***l que tenha sido, ele está certo. Mas eu não cometerei o mesmo erro. — Demetria falou sombria. —Sangue do meu sangue ou não, eu quero que ele morra. E por isso, se permitir, pode nos casar aqui e agora mesmo, majestade.
— Se é a vontade de ambos.
— É a nossa vontade. — Disseram em uníssimo.
...
Estavam no meio de um semicírculo de dez mil homens ou mais. O dia era cinzento e a neve caia. Os soldados usavam armaduras prateadas com emblema do dragão e eram intimidantes e de diversas idades fazendo uma algazarra de felicidade pelo casamento do príncipe herdeiro. Fedrer se posicionava mais atrás do altar improvisado por um tronco de madeira como uma estátua de ouro criando uma gigantesca sombra. Demetria estava realmente fascinada pela criatura e se sentiu honrada do ser estar no casamento.
A neve acumulada sobre os vales criava um cenário bonito contrastando contra os trajes vermelho sangue dos noivos ajoelhados perante o rei de frente um para o outro. Não havia anéis como nos casamentos do mundo onde cresceu e sim uma troca de sangue e seus nomes anotados num pergaminho de genealogia por um escriba e com a assinatura de ambos. Para ela era bem mais intenso essa parte, num cálice de prata havia uma gota do seu sangue tirada do seu polegar num pequeno corte e uma gota do sangue de Iker se tornando um só pela mistura com o vinho. Azeite era passado no meio da testa deles por Cecily numa ritualística desconhecida a noiva.
Damien realizava a cerimônia simplória com palavras rápidas e não haveria uma festa para que os homens não se embebedassem e perdessem o foco da batalha vindoura. Iker bebeu primeiro o vinho batizado, Demetria respirou uma, duas e três vezes antes de dizer sim também e, de perfil para o rei ao lado direito e para a multidão do lado esquerdo que bradava, beber do cálice de forma determinada apesar da taça tremer antes de entregá-la a Kalahan vendo um sorriso de apoio no rosto do loiro. Sentiu em seu íntimo que seu destino foi selado quando o gole simplório tornou-se parte de si.
— O gole foi dado unindo-os. Eu declaro ambos um só sangue, um só corpo e uma só alma perante a natureza, o sol e a lua. — Damien parou de falar assistindo os noivos e lembrando-se da cultura de Demetria algo o atingiu certeiramente. — E perante o Deus único que rege o estandarte da fênix, que ele os abençoe! — Acrescentou por respeito a cultura dela, porém, o sol saiu de seu preguiçoso sono e num foco poderoso iluminou os dois surpreendendo a todos.
Demetria estava ligeiramente sem reação quando ergueu-se junto a Iker sentindo um peso mesmo que imaginário na coroa. Quem diria que aos dezoito anos já estaria casada e teria um reino para conquistar?! Se alguém a dissesse isso no convento chamaria esta pessoa de louca. Seu estômago estava embrulhado. Sentiu o beijo de Iker em sua bochecha e ambas ganharam cor e os olhos escuros encontraram os azuis cinzentos de imediato.
— Eles lutarão por mim agora sem ficarem revoltados? — Sondou ao marido curiosa e ansiosa. Na visão do homem, ela era como uma criança que quer ter todo seu esforço recompensado.
Iker não a respondeu, apenas tomou a mão dela e viraram-se de frente aos homens.
— Todos saúdem minha esposa, a princesa de Dragomir, Demetria Dragomir Alexandra Fenit!
Demetria manteve-se perto dele, intimidada, enquanto caminhavam juntos perante o caminho aberto pela fileira de soldados que erguiam espadas formando uma espécie de arco com as pontas das lâminas das fileiras opostas uma a outra colidindo entre si, mas alto o suficiente para passarem e chegassem a cabana de Iker Escutou-os soltando brados de respeito.
— Por que estão fazendo isso?
— Eles estão mostrando que estão preparados para dar a vida por você e sua causa, princesa.
Os olhos dela se encheram de água novamente, contudo, mesmo repletos da mais pura gratidão não transbordaram depois dela suspirar várias vezes contendo-se. Então entraram na barraca.
Demetria sentou-se na cama e Iker numa cadeira da mesa com pergaminhos que eram cartografias.
— Fiquei feliz pela presença de Fedrer. — Confessou-o sem força.
— Ele gosta de casamentos.
A moça perceptiva como era sorriu negando com a cabeça.
— Ele parece bem genioso. Acho que só esteva lá porque é o seu casamento e tem muito apreço por você.
Iker estudou-a sem palavras. Era ele que falava com Fedrer, todavia, ela que entendia bem ao ser.
— Talvez. — Murmurou o príncipe.
— Compreendo ele. Eu também sou do tipo que odeia multidões. — Ela revelou e deu de ombros. — O tem há muito tempo?
— Fedrer serve minha família há gerações. Mas apenas comigo conseguiu se comunicar como fazia com meu ancestral Dramer, o homem que forjou o colar com o qual sua mãe a presenteou. — Respondeu-a brincando com um soldado de madeira no mapa.
— Ah, então foi seu descendente que fez meu colar? Isso é bem legal. Não sabia.
— Foi.... — Confiou-lhe. — Mas o fez a mando da fênix que rege seu reino.
Eles se analisaram. Por alguma razão era constrangedor. O silêncio se instaurou tenso.
— Sobre isso.... Sinto o respeito de vocês.... Mas.... eu realmente não compreendo. Qual a história da fênix que rege meu reino?
A moça puxou um assunto somente, apesar da questão realmente importar.
Os olhos de Iker ganharam ligeiro cinismo e os lábios se crisparam ligeiramente. Os olhos azuis céticos.
— Adam era um sacerdote purificador, seus dons não eram como os dos outros mais concretos e visíveis.... — Começou Iker se sentindo t**o. — A maioria controlava os elementos ou uma derivação deles. — Viu os olhos dela se arregalarem e ela esticar-se mais sobre a cama parando de ficar retesada. — Os dons de Adam visavam somente o equilíbrio entre Tretagon, os reinos do céu, Firmamento e o reino sombrio que fica abaixo da terra, chamado Relian. Quando Serper o senhor de Relian, quis tomar Tretagon, todos os reis das oito nações se uniram e se prepararam para guerra resultando num conselho feito pelos sacerdotes e sacerdotisas que seguiam fielmente aos monarcas. Mas só Adam, vindo de Andrear, sabia que o sangue de um purificador era necessário para conter a onda de escuridão e ele se sacrificou. Foi o sacrifício dele que deu o nome Fenit a Andrear. Seu sangue e suas cinzas foram absorvidas pelos outros sacerdotes e sacerdotisas os fortalecendo e os tornando capazes de lutar. Mas foi na morte de Adam no seu sangue que as almas rancorosas do lago da morte foram purificadas enfraquecendo Serper, o aprisionando e o fazendo entrar em um sono profundo. Sete dias depois o restante de suas cinzas foi derramado no chão e uma fênix gigante surgiu e alçou voo para o céu. Dizem que agora o rei da escuridão está esperando pela criança amaldiçoada nascida no estandarte de seu inimigo que o trará de volta rompendo o selo e se unirá a ele, alguns dizem que em casamento e outros dizem que será receptáculo. Ele recruta aqueles que herdaram dons antigos e estes com lados obscuros escutam o som de uma flauta que entorpece seus sentidos e os corrompe.
Demetria se arrepiou ciente de que escutava a flauta mesmo em seu mundo.
— Hm.... sinistro. — Ela disse surpreendendo-o por ter acreditado na história, quando nem ele mesmo o fazia.
Iker a observou sentada mais confortavelmente na cama dele e desviou o olhar para a mesa novamente tentando evitar aquela imagem convidativa.
— Realmente sinistro por falta de uma palavra melhor. — Contatou para si. Riu em algo que só ele entendia. — No mundo do qual veio não há nada assim? — Permitiu-se contemplá-la.
— Bem.... Há. Mas é um tanto diferente a história. Não acho que seja a mesma coisa. Seria heresia pensar que sim.
— Não é dividido em reinos lá?
Ela negou com a cabeça instigando a curiosidade dele pelo modo que a olhava como se pedisse que falasse mais a respeito. Vendo isso, pois se a comentar:
— São continentes, então vem países, estados, cidades e municípios. —Explicou-o perspicaz contando nos dedos com o que se lembrava da aula de geografia — Em pouco lugares lá existe o regime monárquico.
— Como escolhem um líder nesses lugares então....?
— Hm... chamam de democracia. Basicamente consiste na opinião da maioria de quem seria um bom governante. Sem laços de sangue como aqui. — Demetria foi direto ao ponto.
— Isso é interessante. Deve haver muitas guerras porque vários se consideram dignos de governar. — Comentou ele.
— Há guerras sim. Mas geralmente não são por causa disso não. A opinião do povo é respeitada lá nesse caso. — Ela contou-lhe, fez uma careta por não saber se explicava bem o suficiente.
— Eu estou entendendo, não se preocupe. — Ele falou calmo. — Você.... Como viveu lá?
— Bem... É uma espécie de casa gigante que adora a um Deus e seu filho. — Arriscou ela. Iker moveu a cabeça a incentivando. — Nessa casa há mulheres que escolheram se casar com esse Deus e se mantem longe de homens ou algo assim. Elas ajudam pessoas que perderam os pais como eu ou estão sozinhos no mundo pela bondade que esse Deus ensina. Eu morei lá e basicamente todo dia fui a um lugar que ensina como esse mundo funciona.
— Acho que compreendi tudo. Você explica bem.
A menina sorriu um pouco, realmente feliz que sua explicação foi satisfatória. Geralmente era péssima nisso.
— Acho que algumas pessoas de lá devem estar preocupadas comigo. — Murmurou Sarah. — Sumi sem dar notícias. Não que eu esteja preocupada, logo serei dada como desaparecida e então serei esquecida.
— Sente falta de lá? — Iker quis saber.
Demetria negou com a cabeça.
— Parando para pensar bem, eu nunca me apeguei a ninguém naquele mundo. Talvez eu sempre soubesse que não era meu lugar. — Revelou-lhe.
— E sente que aqui é seu lugar, Demetria?
Demetria negou com a cabeça tristemente e riu sem se entender passando a mão pelo cabelo curto, os dedos penteando os fios os jogando para trás.
— Confuso, não é? É só que não tenho nada a perder em estar aqui. —Desabafou ela.
Iker mirou-a semicerrando os olhos.
— Você é bem estranha, não é? — O tom irritado dele a surpreendeu.
— Por que?
O belo homem ajeitou-se na cadeira. Tomou ar e finalmente se permitiu confrontá-la.
— O jeito que se subestima é muito irritante. É uma princesa agora e tem autoridade. Por que não age como tal?
— Nada é meu. Eu só me casei. E mesmo que conquiste Fenit para mim, sentirei que não é meu. A única coisa que quero é o meu tio morto. O resto é só resto.
— Não deixe Kalahan te ouvir falando assim. — Repreendeu-a. — Ele criou muita expectativa sobre sua volta....
— Eu sei. Ele ficaria decepcionado em saber que sou essa farsa. Pedaços quebrados de algo que nunca será inteiro nem poderá sequer formar um vitral.
— Sim, ficaria. — Iker apenas falava o que era óbvio, ele não era bom em mentir para consolar alguém.
Demetria soltou um profundo suspiro e o estudou.
— Vi seu pai hoje, mas não sua mãe.... — Basicamente ela pediu para que ele contasse a ela quem era.
Iker captou a deixa. Respirou fundo, bem ela era sua esposa agora, tinha o direito de o conhecer.
— Ela morreu dando luz ao meu irmão mais novo.... Antes que pergunte, ele pegou uma doença e faleceu três dias depois de seu nascimento. Meu pai nunca se casou ou tocou em qualquer uma de suas concubinas. Depois que mamãe morreu, passou a beber muito engordando e pelo estresse perdeu cabelo. O cabelo é importante para nós, uma prova de nossa força. Ele o ter perdido foi devastador ao reino.
— Ah, isso explica seu cabelo ser tão longo e tão bonito. —Demetria comentou casualmente.
Iker a encarou atento.
— O acha bonito? — Insistiu o príncipe.
Demi meneou a cabeça num sim sem reservas.
— Foi a primeira coisa que notei em você. — Ela contou-lhe e riu. — Além do quão alto era é claro.
— É claro.... — Concordou ele. — Não há homens como eu no outro mundo?
— Bem, só em sonhos. — Comentou ela rindo um pouco e os olhos escuros encontraram os azuis dele. — Como eu lhe disse. Nunca vi alguém como você antes. Por isso, eu fui tão imprudente em te admirar.
— Entendi. — Iker murmurou. Ela acabou bocejando sobre o olhar atento dele e Iker sabendo que tinha que estudar estratégias a dispensou do dever matrimonial. — Durma se quiser. Soube que ontem passou à noite inteira andando de um lado a outra da cabana. Deve estar com sono.
— Obrigada.
Demetria permitiu-se deitar-se por inteiro na cama de Iker, sem tirar as botas e fechar os olhos.