A dinâmica da vida

4481 Words
DEMETRIA As mãos dela eram habilidosas amarrando os cordões que estruturavam o vestido de Demetria, faltava pentear o cabelo, mas esse seria o mais rápido pelo comprimento dos fios. O vestido era branco, sem bordados, feito de seda e revestido de linho por dentro, era todo fechado e de manga comprida, apesar de ser colado no b***o da cintura para baixo soltava-se indo até os pés cobrindo assim as botas de couro reforçadas com panos. A tiara brilhava nos fios negros de Demetria, ornada em ouro branco e com diamantes azuis. Toda a sua preparação parecia a de uma rainha de gelo e aquela era uma nação de fogo. Não havia o que reclamar da moça a prepará-la cuidadosamente, só que podia ver os olhos de Cecily se desviarem frequentemente do broche que carregava. A tenda da mulher era cercada de luxo, a cama improvisada, um baú médio com joias, dois gigantes com vestidos, lamparinas em locais estratégicos com velas dentro que sem aquela proteção pelos ventos gélidos se apagariam, recipientes de vidros com o que pareciam ser várias essências e vários prendedores de cabelo numa penteadeira. Num canto remoto, tinha pergaminhos, uma cadeira e uma harpa. Cecily por algum motivo fez questão de enfatizar antes de vesti-la que aquele vestido pertencia a sua irmã mais nova e que os seus não davam em Demetria porque ficariam folgados em lugares onde era farta. Essa fala a alertou que definitivamente havia algo errado e para melhorar tudo podia sentir uma onda destruidora de ressentimento vindo em sua direção. ― Posso te fazer uma pergunta, Lady Cecily? A estonteante mulher parou seu ofício e esperou apertando as mãos uma na outra, cabisbaixa. Demetria notou que o cheiro amadeirado na barraca de Iker, que era quase sufocante e bem característico, apesar de fraco, estava presente na tenda da mulher e arqueou a sobrancelha. Viu a dama mover a cabeça num vago sim e tendo a permissão dela pois se a falar: ― Uma mulher numa guerra.... Nossa, isso é incrível! Não que eu a subestime por ser uma, mas me diga você luta bem? ― Eu não luto, alteza. ― A voz de Cecily era um sussurro de vergonha. Um ligeiro curvar dos lábios preencheu a forasteira. A imponência de Demetria mesmo usando um vestido para crianças ainda se mantinha. E tinha agora a coroa em sua cabeça aumentando ainda mais a autoridade de seus olhos que tornaram-se intimidantes demais a mais alta. E o broche do dragão dourado que Cecily sabia que pertenceu a mãe de Iker depositado no vestido era outro fator incômodo a ruiva. ―Ah.... Entendi. Tão longe de casa, não é.... Me diga, se não luta o que faz aqui? ― Iker.... Quero dizer, o príncipe me pediu para acompanhá-lo. ― Respondeu a ruiva. ― Compreendo.... ― Algo divertiu Demetria na resposta, não sabia bem o quê. ― Ele deve precisar de alguém para aquecer a cama dele nesse tempo tão frio. ― Cecily ficou sem fala quando as palavras reverberaram em sua mente. De forma violenta as bochechas ganharam cor. Quando se recuperou do baque pareceu a mais ofendida das mulheres pelo olhar, apesar de nada dizer. ― Calma, sem julgamentos. ― A expressão de Demetria não mudou. ― Deixa eu adivinhar.... Você me odeia com todas as forças e o odeia ainda mais por ter te mandado me ajudar? Finalmente os olhos verdes encontraram os escuros da princesa cheios de rancor e lágrimas. ― Eu e ele nos conhecemos desde crianças.... Só não casamos por sua causa! ― Cecily apontou ousadamente o dedo a ela. Demetria quis sorrir mas se conteve para não irritar ainda mais a outra. ― Por causa da promessa i****a do pai dele a sua mãe.... Por causa de um juramento i****a, ele tem que casar com você! ― Analise comigo, acha que ele sendo o príncipe não poderia ter mudado isso há anos? ― Alertou-a sem conseguir conter o riso. ― Acha que um maldito príncipe não pode escolher com quem se casa ou não? ― Ficou séria. ― O que você quer dizer? ― Quero dizer, que Iker pode te estimar o suficiente para querer te manter por perto e na cama dele. Mas ama mais ao poder. É isso que o nosso casamento o dará. Então, não me culpe, acredite, eu não estou aqui por ele. ― Vocês dois realmente se merecem.... Usarão um ao outro e todos ao seu redor e não têm nem vergonha de admitir isso. ― Por que nós teríamos? Isso é estabelecer objetivos! Os olhos outrora inocentes e amáveis de Demetria quando queriam soavam mais frios que o de Iker em seus momentos sombrios. Cecily sentiu as lágrimas descerem contra a sua vontade. Os olhos escuros se reviraram. ― Sabe que chorar na minha frente não muda nada, não é? Eu ainda me casarei com ele! Aceita que dói menos. Cecily estava enojada perante tamanha indiferença aos seus sentimentos puros. Não conseguia confrontar a pequena garota a sua frente. Apesar de ser mais alta e mais forte que Demetria, aquela pequena mulher simplesmente soava assustadora agora. ― Alteza, se me der licença.... Demetria assentiu com a cabeça e a ruiva se retirou da tenda. ― Espera.... ― Gritou Demetria. Já era tarde demais. ― Considerando que essa barraca é dela, não é eu que deveria ter saído? Deixa para lá. Provavelmente ela foi reclamar com o principezinho que se acha! ― Massageou as têmporas. ― Eu mereço.... Agora estou no meio de uma história de amor e sou a vilã! Ah, era só o que me faltava.... Kalahan viu Cecily sair aos prantos caminhando até a barraca de Iker. De imediato, adentrou ao local que fazia guarda vendo Demetria sentada na cama comendo uvas tranquilamente ou pelo menos fingindo estar. Seus olhos contemplaram-na no vestido rodado e branco que contrastava com o cabelo escuro e a dava um ar quase mágico e nos olhos escuros ligeiramente atordoados. ― O que você disse a ela, majestade? ― Exigiu Kalahan, porque tinha apreço por Cecily. ― Eu disse que o príncipe i****a a está usando porque não pretende desposá-la. ― Informou e não viu surpresa nos olhos de Kalahan. Riu ligeiramente que ele soubesse sobre a garota e não a tivesse avisado. ― Que se ele quisesse teria casado com ela antes. ― Isso foi c***l, majestade! ― Sim, foi. ―Concordou Demetria. ― O que? Vai me abandonar por que eu sou c***l? ―Questionou-o desafiadora. ― É claro que não, mas isso não se faz. Cecily ama Iker desde que eram crianças. Demetria se levantou. A coroa na cabeça dela demonstrava a patente agora. Os olhos de Kalahan contemplaram sua rainha com respeito e ligeira inquietação. ― Ela me irrita. ― Informou-o Demetria perdida. ― Acha que espernear e chorar vai mudar alguma coisa.... Mas não vai. ― Kalahan notou a voz fincando embargada apesar de lutar para se manter firme, acabou se dando conta angustiado do olhar perdido dela e dos olhos escuros se enchendo de lágrimas. Comovido, a tocou no rosto. ― Majestade.... ― Suspirou ele. Demetria virou-se de costas. ― Eu falo isso por experiência própria. E acredite, não havia ninguém comigo para amortecer a minha queda ou me contar a verdade de que homens só usam as mulheres para se saciar. Eu fiz um favor a ela.... Ela não conseguiu terminar de falar porquê os soluços tomaram de conta de sua fala. Kalahan a tocou no ombro e a fez virar-se novamente para ele, ignorando os protocolos a abraçou forte. ― Eu estou aqui agora, majestade. ― Consolou-a. ― Eu esperei a minha vida inteira por você.... ninguém vai usá-la ou machuca-la. ― Sussurrou contra o cabelo dela. Pegou a mão enfaixada da menina na sua, beijou-a na testa confortando-a. ― O que fez está te machucando também, não é? Ficar no meio deles dois. Iker que foi tirar satisfação com Demetria por ter feito Cecily chorar, ouvindo o diálogo de ambos parou na porta da cabana imperceptível. Manteve-se quieto e soturno assistindo os outros dois. ―Eu me sinto uma intrusa desde o começo.... ― Confessou-o. ― Nada aqui é meu, eu.... Eu não deveria estar aqui, Kalahan! ― Contou-o. ― A garota o ama, o príncipe deve sentir algo por ela também ou não a teria trazido para um campo de batalha.... Eu não quero me casar. Mas eu preciso dele! Eu quero me vingar do meu tio, eu quero matá-lo por tudo o que ele tomou de mim e essa minha sede de vingança está impedindo o amor de alguém. Eu entendo como essas coisas monárquicas funcionam, li muitos livros a respeito. ― Majestade, eu não sei o que dizer a você. ― Lamentou o loiro. ― Kalahan, acha que eu ouviria a qualquer pessoa só porque ele me chama de rainha? Acha que só quero alimentar meu ego? Acha que vim para esse mundo por que estou ansiosa para conquistar o que é meu? ― Ela desabafou e soltou um suspiro, buscando os olhos verdes esmeralda dele. ― Eu ouvi você porque você afastou a outra voz que escuto me chamando.... E a voz dele é tão sedutora, me penetra inteira. ― Confessou-o trêmula. ― Eu não sei seu nome, nem quem é.... Mas a melodia da flauta dele é a coisa mais linda que já ouvi. Eu vejo o monstro que se esconde por trás dele. Mas a questão é que sinto que já o pertenço. Ele esteve comigo desde o início e nunca me deixou sozinha, eu podia senti-lo na escuridão me abraçando e pedindo para que eu fosse sua rainha e o libertasse. Então, quando você apareceu e me deu o colar, a voz dele que me assusta e ao mesmo tempo me acalenta, sumiu. A voz dele sumiu e o alívio me preencheu. Eu tenho tanto medo do escuro. Tanto medo dele voltar! ― Desabafou. ― E agora, eu estou prejudicando alguém por meus desejos egoístas.... dois amantes como os das histórias que eu lia são prejudicados por uma obrigação matrimonial entre duas pessoas que se odeiam e querem matar uma a outra. ― O casamento com o príncipe Iker precisa acontecer para que tenha poder aqui, majestade! Essa é a sua responsabilidade com seu povo. Eles estão na mão de um tirano. Alexander não se importa com nada além de conquistar mais e mais. O reino perece nas mãos dele e as pessoas passam fome. ― Eu não quero um trono ou me importo com o povo, eu quero vingança, Kalahan! ― Gritou ela descontrolada. ― Desculpe eu não sou a rainha que espera ou a pessoa amável que gostaria.... O que viu eu fazer com Cecily, lá no fundo, eu gostei de machucá-la. Essa sou eu. Eu não medirei esforços para matar o meu tio e que se dane o trono. Iker manteve-se quieto a estudando perdido em reflexões. Antes que pensasse no que fazia fez sua presença ser notada com um limpar de garganta. Recebeu olhares surpresos dos dois que soltaram-se de imediato e caminhou até Demetria. ― Saia, sir Kalahan! Eu e sua rainha temos assuntos pendentes a tratar. O loiro passou por Iker pisando duro e se retirou da tenda. Vendo-o distante, Iker massageou as têmporas. ― Não se sinta culpada. Cecily e eu não nos amamos como pensa. ― Esclareceu o m*l entendido. Os olhos dele estavam frios. ― Ela me ama e colocou na cabeça dela que a amo também porque crescemos juntos. ―Eu só.... ― Demetria estava sem ar e queria muito se retratar. ― Escutou a conversa toda? ―O suficiente sim.... ― Foi sincero. A jovem moveu a cabeça como se dissesse que entendia. ― E o que tem a dizer? ― Sondou-o com medo do julgamento do homem. ― Que estou ficando maluca, alteza? ― Riu de si mesma. ― Disso eu já sei. ― Demetria passou a mão pelo cabelo curto e sentou-se na cama. ― Eu escutei a flauta que citou uma vez em minha juventude. Eu tinha quatorze dias do meu nome. Foi depois de minha primeira batalha. Na primeira vez que matei um homem com minha espada. Esse tipo de coisa era bem pessoal e eles não se conheciam o suficiente para conversar sobre traumas do passado. Demetria ficou incomodada pela carga das palavras e ao mesmo tempo se sentiu consolada. ― Do que está falando, Iker....? Os olhos azuis procuraram os dela deixando evidente ligeira perturbação e ele foi até a cama e sentou-se próximo dela. ― A escuridão se aproveita dos seus maiores medos e fraquezas, Demetria. Das suas partes obscuras que tem medo de que vejam. ― Explicou-a tático. ― Fogo de dragão nunca se apaga.... ― Informou-a suave e a estendeu a mão a moça que a aceitou com a sua pequena ficando atordoada pelo toque. ― Enquanto estiver perto de mim, as trevas não vão te alcançar.... Vamos combatê-las juntos. ― O que você.... ― Estava realmente confusa, pensando no que dizer e ficou balbuciando sem voz e ao mesmo tempo algo em seu interior se esquentou. ― Não deveria estar consolando Cecily? Por que está aqui sendo gentil? É estranho depois de ter me machucado. ― Eu só vim aqui para dizer para deixar Lady Cecily em paz, contudo, parece que já tem seus próprios problemas! ― Acrescentou Iker, rápido. ― Pode não haver amor entre nós, mas eu te protegerei, no que eu puder, mas cabe a você sozinha resistir a melodia da flauta. Demetria ficou sem reação. Algo dentro dela começou a crescer. Era bom para variar alguém que não a julgasse. Demetria sabia que Kalahan também havia estranhado a sua fala como as freiras do convento, pode ver nos olhos verdes dele o horror como se tivesse buscado uma rainha com um parafuso a menos. Ela moveu a cabeça num ligeiro gesto de agradecimento pelas palavras de apoio de Iker. Os olhos dela se encontraram com os do homem novamente com genuína surpresa e ele parecia lê-la como ninguém. Sem entender a razão, a mão dela enroscou-se a dele com gratidão, era um aperto suave de uma pessoa que entendia a outra. Talvez, ele não fosse tão odiável assim. Realmente foi muito atrevida em tocá-lo no primeiro encontro deles. Como se sentiria se fosse com ela? Bem, sabia que não ia gostar de ser tratada como uma mercadoria. ― O que fiz com sua espada mais cedo, me desculpe. Sou impulsiva e você ameaçou o único que parece estar feliz com minha volta e o primeiro a ficar feliz com o dia do meu nascimento. Iker passou o polegar na faixa improvisada de sua túnica para estancar um sangramento na mão direita dela, onde embaixo havia um corte superficial causada por ele nela, com a sobrancelha arqueada. ― Não se preocupe mais com isso. ― Solicitou ele somente, ligeiramente agitado em sentir a pele dela com o polegar e com os olhos fixos nos dela e sem conseguir cortar aquele contato. ― Gostaria de saber quando podemos marcar a data do casamento? Manteve a mão apertada na suada e fria dela e os dois soltaram um arquejo juntos vidrados um no outro. ― Quanto mais rápido melhor, Iker. ― Afirmou Demetria trêmula. ― Então se estiver de acordo, amanhã. O casamento levantará a moral dos homens. Então te darei a cabeça de seu tio como um presente a mais de núpcias se é o que tanto anseia, minha princesa. Demetria sentiu o coração saltar do peito que ele soubesse o que ela queria e não a julgasse como Kalahan. A mão dela livre foi ao rosto dele e ela absorveu toda aquela beleza. ― Esse é um presente que eu apreciaria muito, meu príncipe. Um ligeiro sorriso de lado pintou os lábios dele enquanto a mirava tocando-o no rosto também. Ele a entendia, como não? Querer matar quem causou-a tanta dor era só o mínimo. Os olhos escuros dela estavam o fazendo sentir uma perturbação e palpitação no peito. ― Eu sei. ― Constatou ele, abaixando ligeiramente o rosto e soltando um suspiro de tormenta perto da curva do pescoço dela. ― Uma tenda com os devidos presentes será preparada para você amanhã, princesa de Dragomir. ― O polegar dele desenhou círculos na palma da mão dela, o nariz roçou no pescoço com um ligeiro corte. ― E te apresentarei como minha esposa para os soldados! ― Deixou as palavras sairem suavemente de seus lábios. ― Mandei um informante ao meu pai que a princesa de nossa pátria chegou, ele virá conhecê-la amanhã e aproveitaremos para realizar a festa, será simplória, mas se lhe aprouver depois da guerra faremos algo mais elegante. ― Uma festa simples é perfeita. ― Hoje você pode dormir na minha barraca se quiser. ― Sugeriu Iker trocando um olhar profundo com ela. ― Eu e você? ― A voz de pânico dela o divertiu. ― Eu dormirei na de Sir Kalahan. ― Sua gentileza num momento como esse realmente é um fator impressionante. ― Ela suspirou atordoada permitindo que sua mão repousasse no ombro dele. Demetria moveu um pouco o rosto para frente o avaliando e invadindo o espaço pessoal dele tentando entender aquela bipolaridade. Os olhos de ambos se encontraram e de novo a profunda conexão e compreensão de eras conjunto de um desespero e urgência que nenhum deles entendia ao certo que seus corpos tinham de ficar perto. ― Nós dois somos da realeza. ― Justificou-se Iker sem se alterar pela proximidade dela como da primeira vez. ― Eu sei como devo tratar alguém de sangue nobre. Apesar de nossas divergências no nosso primeiro contato e da sua audácia inoportuna. ― Peço perdão pelo modo que o toquei imprudentemente. ― Pediu-o. As bochechas dela coraram, desviou o olhar para um baú qualquer afastando a mão da dele. ― É que só vi pessoas como você num lugar que parecia um cenário de sonho. Eu tive que tocá-lo para saber que era palpável. ― Explicou assim já que supôs que ele não sabia o que seriam filmes. Iker arqueou a sobrancelha e riu achando certa graça. ― Compreendo. Mas agora que conhece as regras, sabe que não pode tocar assim em alguém que não é nada seu. ― Bronqueou. ― É inapropriado e podem pensar m*l de vossa majestade. ― Sim, eu sei, alteza. Iker a estudou, ela parecia muito tenra agora. ― Esse vestido combinou com você. ― Sua amiga especial deixou bem claro que ele pertencia a irmã mais nova dela e ela ainda era uma criança.... Iker deu um meio sorriso. ― Não a leve a m*l. Poucas rainhas parecem tão frágeis e amáveis quanto você. ― Eu não sou amável. Disse isso só por que eu sou baixa, não é? ― Com essa altura e vestida assim vossa majestade até que engana bem nesse quesito. ― Admitiu ele. ― Os soldados tendem a querer proteger aquilo que eles consideram delicado. E quando souberem que é a rainha que foi injustiçada se sentirão ainda mais inclinados a lutar por nós. ― Compreendo. Você é bem estrategista. ― Vindo de você devo considerar isso um elogio? ― Inquiriu-a. Demetria parou e pensou por um tempo. Então confirmou com a cabeça abrindo um gigante sorriso. ― Venha comigo. ― Pediu-a Iker, estendendo-a a mão que foi pega com ligeira insegurança. ― Há alguém que quero que conheça, majestade. ― Saíram juntos. Demetria trocou um olhar com Kalahan que fazia a guarda e o rapaz apenas assentiu com a cabeça. O nariz dela ardia por cada respiração dada com dificuldade ficando vermelho. Ouvia-se o som de algo se esmagando à medida que andavam pela neve aglomerada no chão e deixavam pegadas para trás. Caminharam pelas barracas enquanto eram reverenciados. Adentraram uma trilha pela floresta cheia de arvores com troncos escuros e sem folhas e chegaram a uma clareira embranquecida com um lago congelado. Demetria prendeu o fôlego quando seus olhos captaram a gigante criatura que repousava. ― Aquele é Fedrer! Podemos olhá-lo daqui se estiver com medo de se aproximar. Demetria abriu um sorriso surpreso, os olhos dela se arregalaram captando o máximo de detalhes que pudesse e brilharam. Ele tinha trinta metros certamente. Não, podia ser maior. Tomava boa parte da clareira que estavam. Antes que Iker a desse uma resposta ela começou a caminhar sozinha até o ser que repousava. ― Eu posso tocar nele? Ele parece feito de ouro, uma estátua. Tão lindo! ― Acalme-se. Me espera! Majestade, não está com medo?! ― Seguiu-a apressando o passo. ― Ele não é seu? ― Questionou-o, vislumbrada e continuando em frente. Iker meneou a cabeça num sim. ― Então quer dizer que te obedece, não é? ― Quando ele quer.... ― Resmungou o príncipe. ― Por favor, me deixe tocar nele! ― Ele pode se ofender e te machucar. ― Iker avisou-a. Ela começou a correr como uma criança fascinada. ― Demetria, espera! Iker apenas correu também e a alcançou, segurando-a pelo pulso e a parando. Sorriu ligeiramente pela imprudência dela, pararam bem perto onde a criatura repousava. Não vendo o temor que todos os seus súditos tinham nela, ele ficou realmente muito surpreso que mesmo contemplando uma b***a ela não a temesse e estivesse tão empolgada. Se aproximaram de Fedrer cautelosamente que abriu os gigantes olhos amarelos com íris que lembravam as de uma cobra. A menina ficou tímida de repente perante o olhar do ser. ― Olá, senhor Fedrer. Eu sou Demetria. ― Fez uma reverência desajeitada ao dragão e teria escorregado não fosse a mão em seu pulso a segurando. Fedrer ergueu-se, deixando evidente todo o seu tamanho e magnanimidade, Demetria não deu sequer um passo para trás, e curvou o pescoço a reverenciando de volta respeitoso. Iker que os assistia ficou ligeiramente sem fala quando seu melhor amigo encostou o focinho na mão de Demetria pedindo carinho e ela o fez sorridente como se acariciasse um cachorrinho. ― Quem é bom o dragão, quem é? Tão fofinho. ― Demetria soltou sem se conter, acariciou o nariz pequeno no dele sentindo a couraça da criatura em sua mão. Iker quis dizer “por favor, não o trate como uma criaturinha fofinha. Ele cospe fogo e é o temor da noite." Mas vendo a dinâmica apenas deixou para lá. Sempre que alguém além dele se aproximava de Fedrer o dragão ficava m*l-humorado. A voz imponente do dragão ressoou na cabeça de Iker: "Diga a rainha de Tretagon que ela pode montar em mim se quiser." "Como sabe que é ela? " "O anel no seu dedo está brilhando, alteza. Eu vi quando Dramer o forjou com o sangue de Adam junto a joia real. " "Ela é inconsequente. " "Coragem é a palavra que busca, senhor. Ela será sua futura esposa, o mesmo respeito para com sua linhagem terei para com ela." Demetria abraçou uma das patas dianteiras gigantescas de Fedrer que tinha quatro e aconchegou-se nele sentindo o rosto esquentar. ― Você é tão quentinho, Fedrer. Está tão frio. Você não fica com frio estando aqui fora sozinho? Fedrer apenas a olhou e então a seu mestre e Iker revirou os olhos. ― Agora que vocês já estão apresentados, vamos embora majestade. KAI Quando era primavera, aquela floresta era traiçoeira e parecia doente, apesar de verde. Mesmo durante o dia e que o sol fosse escaldante parecia sempre noite. Era só algo no modo que as arvores gigantes se fechavam entre si, colidindo com os galhos umas nas outras, sem trilhas. As toxinas da vegetação causavam alucinações aos humanos ousados que se atreviam a adentrá-la. As camadas geladas do inverno sobre o solo só a davam um aspecto ainda mais mórbido agora. E a lua de sangue trazia um foco de luz rubro entre os feches das árvores. No centro da floresta, havia um castelo de pedras escuras, este reino apesar de se erguer imponente, durante o dia mantinha-se vazio tirando os humanos que lá haviam. Ali viviam os deuses da carnificina. Eles eram descendentes de Magda e como ela foram amaldiçoados a vagar eternamente pela terra. Havia sacrifícios a eles para que deixassem os outros reinos em paz. Escravos de sangue eram ofertados a cada lua cheia. Era divertido se sentir deslocado em meio aos seus. Kai da Fortaleza das sombras, não sabia bem o porquê, contudo, mesmo sendo o rei, era como uma piada interna muito sádica que só ele entendia sentir-se desperto. Suas presas se evidenciaram no sorriso amargurado que deu. Tochas se faziam presentes na arena de pedras posicionadas em ganchos de madeira. Escravos acorrentados estavam expostos e nus como mercadoria ao frio e a uma penumbra laranja. Mantinha-se quieto observando os outros se banquetearem como animais selvagens dando mordidas horrendas nas servas e servos de sangue. O cheiro de sangue humano impregnou suas narinas como um aroma de comida boa a alguém esfomeado. Estava com uma taça de sangue de uma serpente em mãos, bebericando-a assentado ao seu trono que parecia feito de espinhos. A neve caia lindamente para seus olhos privilegiados que captavam cada detalhe de um floco chegando ao chão desligando ou distraindo assim os sentidos predadores e acalmando o monstro em si. Era só uma inquietação como uma unha diminuta cutucando seu coração que não mais batia. Uma sensação poderosa às vezes de remorso que o fazia implorar por misericórdia, a quem, bem, ele não sabia ao certo. Escutou o som da flauta pela milésima vez como um lembrete a quem pertencia e apesar de sua herança amaldiçoada pelo pacto da maldita Magda, mandou o dono da melodia ir se ferrar e sorriu bebendo de vez todo o sangue da taça. Essa coragem de dizer não aquele que foi seu senhor era originada por estar evitando tomar sangue humano. Essa abstinência dava essa sensação de clareza, de que tinha alguma chance de salvação apesar de ainda matar animais para sobreviver.... Patético! Quer dizer, era possível que alguém que se autoproclamava um deus da carnificina estivesse começando a ficar melancólico? Usava uma jaqueta de couro escura aberta até o meio do peito onde havia uma marca de nascença em forma de dragão, calças também de couro e um par de botas. Seu cabelo escuro como as asas de um corvo era curto e arrepiado jogado para trás e havia uma coroa de bronze sobre seus fios. Olheiras gigantes abaixo de seus olhos o davam um aspecto apático. Sua pele era pálida, entretanto, não um pálido normal, era um uma falta de cor onde o sangue não percorria nenhuma veia deixando-o tão branco que parecia um pedaço de gelo esculpido e as veias ficavam ainda mais em evidência. Seus olhos eram violetas e cheios de desesperança. Sua pele ao toque era tão gélida quanto o inverno. Sua figura era alta, imponente, esguia ao mesmo tempo que forte, fascinante para atrair a presa e seduzi-la. Apesar de por fora ser o caçador perfeito, por dentro algo dele se remoía. Aquela orgia sanguinolenta que presenciava o deixava enojado. Nem sempre foi assim, antes participava dela contaminando corpo e alma. Porém, essa sensação gritante de algo errado estava se aflorando em seu peito e instalando-se com algo maricas chamado esperança. Mas esperança de quê? Tinha um evento acontecendo entre a terra e o céu como o que presenciou há muito! Ele com seus instintos aprimorados podia sentir no cheiro da floresta uma purificação, no ar, na terra, na água e até mesmo dentro de si. Alguém recrutando, porém, não de forma invasiva como a flauta que dopava os sentidos e fazia você se sentir impuro, era como se fosse um convite à mudança. Esse algo tão bonito que o fazia querer chorar por tudo de horroroso que já havia feito o estava chamando também! Essa coisa que o fez parar de sentir ânsia de matar e começar a honrar até os animais que ceifava a vida para se saciar. Passou abominar à noite sua amante eterna e a desejar caminhar pelo sol novamente. Era muita audácia, não era? Achar que tinha o direito? "Minha natureza sempre foi a morte desde que aceitei a dádiva das trevas.... o que está acontecendo comigo? É como quando eu vi Adam." Um mover de lábios se manifestou novamente apesar de nunca chegar de fato a seus olhos sombrosos. "Essa esperança. Eu quero ser tocado por ela."
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