Ívyna Baranov
O vapor do banho ainda pairava no ar quando saí do banheiro, os cabelos úmidos colando-se às costas até que eu os secasse completamente. Queria me recolher mais cedo, talvez ler um pouco ou simplesmente fingir que aquela casa não era minha prisão dourada. Mas o quarto me esperava com algo diferente quando entrei nele.
No centro da cama, um buquê de peônias. Rosadas, abertas, frescas. As apanhei sem perceber que sorria. Senti o cheiro que me lembrava do jardim na minha casa em Paris. Ao lado, um vestido vermelho de seda, longo, de alças finas e caimento perfeito. Um contraste gritante com minha vontade de desaparecer no anonimato do silêncio. E, ao lado dele, uma pequena caixa preta de veludo, com um cartão dobrado por cima.
Respiro fundo antes de tocar o bilhete. A caligrafia é firme, inclinada, meticulosamente desenhada.
“Vista-se. O carro te buscará às oito.
Não é um pedido.
— V.”
Fecho os olhos por um segundo. Queria não sentir o frio que me percorre a espinha. Viktor e seus convites que nunca soam como opções, e sim como ordens. Mas o vestido… o vestido era belo demais para não ser notado, para não ser usado.
Talvez eu pudesse ir. Apenas para ver o que ele queria. Sim... Apenas para ver o que ele queria, e ir embora.
Ou talvez, também, porque algo em mim — algo pequeno e covarde — queria ser vista por ele.
Abro a caixa e encontro um colar de safiras azuis, pequeno, delicado, feito para cair justo sobre a clavícula. É impossível não admirar o gosto. O homem sabia escolher, e isso me irritava profundamente.
Demoro mais do que deveria me arrumando. Passo o batom com calma, deixo o cabelo solto, ondulado, caindo de lado. Quando me olho no espelho, não vejo a menina assustada que se casou para poupar a vida de seu pai. Vejo uma mulher que tenta entender o inimigo — ou talvez, perigosamente, se deixar entender por ele.
O motorista me espera na porta. O carro é preto, silencioso, e o vidro me devolve apenas o reflexo inquieto dos meus olhos. O caminho parece longo, cheio de curvas. Tento adivinhar onde Viktor quer me levar, e por quê. e de bônus tremo um pouquinho.
Quando o carro para, percebo o lugar, um restaurante chique... Daqueles que eu passaria longe, mesmo tendo grana. Sou encaminhada para dentro do lugar. O ar cheira a jasmim, lagosta e vinho caro. Subo para o que parecia o último andar, e quando chego tenho a certeza. As mesas estão vazias — todas, exceto uma. Um violinista toca ao fundo, o som delicado ecoando entre as velas que dançam ao vento.
Viktor está de pé, esperando... Esperando por mim. O terno preto contrasta com a camisa branca aberta no colarinho, o cabelo penteado para trás com descuido estudado. Ele me olha — e sorri — meu coração acelera.
— Eu temi que não viesse. — A voz dele soa calma, quase doce.
— O bilhete não deixava muita escolha — respondo, tentando esconder o nervosismo — afinal, não era um convite com a******a para uma recusa.
Ele dá um passo à frente, estende a mão, e quando toca a ponta dos meus dedos, sinto o mesmo arrepio que senti no jardim mais cedo.
— Mesmo assim, obrigado por vir. — me olha de cima a baixo, o que me tira o fôlego — Está deslumbrante, Ívyna — ele beija o dorso da minha mão.
— Só vesti o que pediu, de qualquer forma, obrigada pelas flores, pelo vestido... e isso aqui — toco o colar no pescoço, desviando o olhar.
Ele ri baixo.
— Fico feliz que tenha apreciado, minha querida.
Puxa a cadeira para mim, o gesto cortês, e só então percebo a mesa, porcelanas finas, taças altas, pratos pequenos com flores comestíveis e aroma de trufas. Um jantar de quem quer impressionar. El estava negociando meu coração, e estava jogando as melhores cartas desde que cheguei.
— O violinista é um exagero — digo, observando ele servir o vinho na minha taça.
— Não existe exageros, Ívyna... Não quando estou a fim de conquistar algo, uso o que posso, sem moderação.— Ele fala isso sem ironia, e por um instante, o som do violino parece mudar o ar.
Os pratos vêm e vão. Viktor fala pouco, mas cada palavra é escolhida como quem joga xadrez. Como quem deixa claro que sou uma peça, mesmo que a mais valiosa do tabuleiro.
Ele pergunta sobre as flores, sobre o que eu lia quando era mais nova, sobre a casa onde cresci. Fala da Rússia, da neve, de como o frio é insistente, mas ele gosta. Os assuntos eram leves, como se fosse natural... Como um encontro de verdade.
E quando ri, parece humano.
Quero acreditar que não é atuação, mas sei que é. Mesmo assim, há algo reconfortante em fingir que talvez, por um segundo, ele possa ser só um homem tentando se aproximar da esposa. Um homem cortês, cavalheiro, gentil e atencioso.
— Posso confessar algo? — ele pergunta, limpando a borda da taça com o polegar.
— Duvido que consiga não confessar, Viktor. — pareceu mais amargo quando terminei de falar.
— Gosto de como se comporta — Ele apoia o queixo na mão. — Atenta, desarmada. Mas dentro do jogo, mesmo não existindo nenhum jogo.
Sinto o sangue subir ao rosto.
— Faço o que preciso fazer para me manter longe de sua manipulação.
Ele se inclina levemente para a frente.
— Nunca disse que era uma manipulação, e não sei o que fazer para mudar seus pensamentos sobre mim, juro, estou ficando sem armas e munições.. Mas também não vou fingir que não admiro a forma como luta.
— Contra o quê?
— Contra mim. — O sorriso dele é um lampejo. — E contra o que sente quando eu me aproximo. Eu vejo, Ívyna... E deixei de perceber o ódio em seus olhos, eles estão dando lugar a outra coisa.
O coração dispara. Quero negar, mas ele não precisa ouvir. Não vai acreditar no que eu disser de qualquer forma.
O violinista muda o tom, e Viktor se levanta, estendendo a mão novamente.
— Dance comigo, Ívyna.
— Viktor…
— É só uma dança. Nenhuma guerra começou por uma valsa. Relaxa, minha querida!
Respiro fundo. Coloco a mão na dele. A pele é quente. O toque firme, mas não agressivo.
Ele me puxa para o centro do terraço, e o violino preenche o espaço entre nós.
Os primeiros passos são hesitantes.Viktor, porém, guia com segurança. O perfume dele mistura-se ao meu, como se combinassem de propósito, ou só a minha capacidade de julgar as coisas tenha diminuido, e de repente, é como se o mundo fosse apenas isso, um giro lento e compassado sob o céu.
Ele fala baixo, perto do meu ouvido:
— Sabe o que percebo em você?
— Imagino que vai me dizer de qualquer forma — ainda desgosto da forma com que sou grosseira.
— Que ainda é uma menina perdida, em busca do que se realmente é... Em busca de algo que a liberte de verdade...
Fecho os olhos, respiro.
— E você acha que pode me libertar?
— Não. Acho que posso te convencer de que a liberdade não existe. Só escolha. E eu te ofereço uma que possa cair como uma luva.
Abro os olhos, encontro os dele. Escuros, firmes, perigosamente sinceros.
— E qual seria essa escolha?
— Deixar de me odiar. Começando por esta noite.
O violino se cala. Ficamos parados, ainda próximos, respirando o mesmo ar. A luz das velas reflete nas safiras do colar e nos olhos dele — e por um instante, sinto que Viktor enxerga algo em mim que nem eu mesma entendo. Ele leva minha mão aos lábios, sem pressa. Um beijo leve, respeitoso, que arde mais pela intenção do que pelo toque.
— Você tem um coração bonito, Ívyna. — murmura. — E pessoas com coração assim, tem dificuldades em confiar em algo, assim como tem dificuldades para abraçar oportunidades, perdendo tempo demais só pensando e analisando. E eu, sou paciente, eu sinto que posso esperar que me escolha.
Eu me perguntava por qual motivo meu coração parecia já ter escolhido. Não era confortável dessa forma. Não era legal sentir que partes de mim o queria, mesmo com todas as provas de que aquilo ali me magoaria profundamente no futuro.
— Viktor... Você...
— Eu?
— Você não precisa se esforçar — tento dizer firme — eu nunca te escolheria — minha voz falha, e meus olhos me denunciam ao estarem perdidos. Meu corpo e minha voz estavam desconectados.
Viktor solta a minha mão, mas só para segurar meu rosto e acariciar.
— Certeza? Não me pareceu sincera, minha querida.
Prendo a respiração quando ele se aproxima, o calor me envolvendo. Os lábios dele depositam um beijo em minha testa.
— Tenho toda a certeza — na verdade eu tinha certeza que deveria calar a boca. Eu estava entregando tudo o que sentia a ele, mesmo dizendo o contrário.
— Minha querida, minha bela flor...
Viktor me abraça, e eu não resisto. Ter problemas com pai, com mãe nos fazia um alvo fácil nas mãos de homens como Viktor. Sentia que tudo o que eu precisava era ele. Eu precisava dele! Do abraço, toque, carinho, palavras... talvez...
— Você é minha esposa, e eu prometi coisas na frente do Padre, não foram da boca para fora — um beijo é depositado na ponta do meu nariz, e eu sinto minhas extremidades adormecerem — prometi amar, respeitar... — ele beija por cima da aliança no meu dedo e olha em meus olhos — te ter como minha prioridade — afasta os cabelos dos meus ombros e deposita um beijo ali, me fazendo suspirar — te admirar como faço com joias raras, pois és preciosa demais — me lembro dos votos, mas desta vez o sentimento acaba sendo outro — te dar o mundo se pedir, ou destruir ele se te magoarem. Te amar como fogo eterno, como chamas que destroem um imperio por inteiro, serás minha dona, e meu coração ati pertencerá... — e talvez o coração já saiba que pertence a ele também, pois bate como se o respondesse — na saúde e na doença, e em toda a extensão de minha riqueza...
Os olhos dele se fixam nos meus, e era como uma hipnoze pois me via perdida... Como se uma chave virasse na minha cabeça... Como se eu estivesse...
— Até que a morte nos separe, Ívyna...
Apaixonada.