Tudo O Que Quiser, Minha Querida...

1599 Words
Ívyna Baranov A porta se fecha atrás de mim com um clique suave. O som parece ecoar por mais tempo do que deveria, mas não leva a minha atenção de meus pensamentos. O quarto está mergulhado em meia-luz, assim como deixei, as cortinas abertas o bastante para que a lua escorra pelos lençóis como um lenço de prata charmoso. Sento na beira da cama, ainda com o vestido vermelho, os saltos pendendo das pontas dos dedos. O colar de safiras pesa sobre o peito, frio como um lembrete do bom gosto do meu... Marido. Não sei dizer se foi o vinho ou o olhar dele que me deixou assim, atenta demais a cada lembrança da noite. Viktor dançando comigo sob o som do violino, o jeito como segurava minha cintura sem força, apenas jeito, e uma firmeza representando posse. O que mais me assustava não era a ideia de amá-lo, e sim a de começar a não odiá-lo. Fico ali parada, olhando para as próprias mãos, até ouvir passos atrás da porta. Suaves, lentos. Reconheço o som antes que a sombra se forme no espelho. — Posso entrar? — a voz dele surge do outro lado da porta, contida. — Já entrou — respondo, sem força para fingir indiferença. Ele abre só o bastante para passar. Está sem o paletó, sem a gravata, o rosto cansado, mas há algo nos olhos dele que me prende. Traz nas mãos uma pequena garrafa de vinho e dois copos. — Achei que precisássemos de um último brinde. — Ele sorri de canto. — Pela coragem de aguentar minha companhia por uma noite inteira. — Não sei se coragem é a palavra certa — digo, e o sorriso dele cresce um pouco. Viktor se aproxima e pousa a garrafa sobre o mármore da penteadeira, com calma, como quem tem todo o tempo do mundo para estar aqui, me alugando. Sento-me ereta, tentando manter distância, mas ele puxa a cadeira da penteadeira e se senta diante de mim, sem pressa. Há uma serenidade estudada em cada gesto. Viktor sempre parece saber o que faz, e isso é o que mais me desarma. — O jantar foi… agradável — digo, quebrando o silêncio. — Foi. Acho que conseguimos sobreviver um ao outro — ele ri enquanto passeava com os olhos em mim — aos poucos... acho que aos poucos vamos nos entender. Não sei se ele fala de mim ou de si mesmo. O olhar dele desce para minhas mãos, e percebo que ainda tremo levemente. — Está cansada — ele diz, baixo. — Posso te ajudar a relaxar? Penso em recusar, mas há algo na voz dele que soa diferente. Não há ordem ali, só um convite. Um convite muito tentador. — Se for inofensivo… — murmuro, meio irônica. — Prometo que é. — Ele se levanta, tira os próprios sapatos, percebo que faz por onde ficar confortável — Posso? Assinto, sem saber ao certo por que confio. Ele se ajoelha diante de mim, desalinhado, e mesmo assim, não perdendo a postura de poderoso. Toca meus pés com cuidado, apenas o suficiente para tirar os saltos. O gesto é absurdamente normal, e eu acabo gemendo de alívio, baixo mas ele escutou. Escutou e sorriu. — Quando foi a última vez que alguém cuidou de você sem pedir nada em troca? — ele pergunta, a voz baixa demais. Penso. O silêncio é resposta suficiente. — Eu imaginei... Eu realmente só quero cuidar de você. Você merece — suspira e o ar quente toca minha pele, próximo ao tornozelo — mandei que investigassem tudo sobre a sua família, antes mesmo de seu pai fechar negócios. Sei que não era... amada. Meu estômago se contorce com a verdade. A linha tênue entre o odiar por dizer isso, ou gostar por estar me confortando de alguma forma, me deixava zonza. Seus dedos massageiam toda a extenção dos meus pés. Ele beija, acaricia, aperta pontos específicos e então sobe para os tornozelos, não muito, mas o suficiente para me deixar quente, ansiosa. Ele se levanta, e por um instante, estamos próximos demais. Sinto o cheiro do vinho, o calor da pele, e a intensidade do olhar sob mim. Ele me observa com atenção, não como quem deseja, mas como quem tenta decifrar um enigma. E por algum motivo muito estranho sinto vontade de ser desejada por ele. — Ainda com medo de mim, Ívyna? A pergunta é simples, mas o mundo parece se contrair ao redor dela. — Tenho. — A palavra sai sem hesitar. — Seria tolice não ter. Ele concorda com um aceno lento, os olhos ainda presos nos meus. — E ainda assim, me deixa ficar tão perto de você, coragem ou tolice? — Engulo em seco. — Tolice, faço o tipo de quem morreria por uma tolice — ele ri. — Ou talvez — ele diz, um passo à frente — porque algo em você reconhece o que existe em mim. A vontade de entender o que assusta. As mãos dele sobem até meu rosto, devagar, pedindo permissão em silêncio. E eu deixo. A pele quente roça a minha, e por um instante tudo é só isso... calor, respiração, a pausa antes do inevitável. Ele se inclina, o toque tão leve que parece mais imaginação do que realidade. Mas o olhar dele — firme, sereno, quase triste — me prende. — Nunca fez isso antes, não é? Nem beijos, nem toque, ne além... Sinto o coração vacilar. — Como sabe? — Reconheço a pureza quando a vejo... Porque ainda procura entender se deve fugir ou ficar aqui. O riso que escapa de mim é nervoso, mas verdadeiro. — E o que você faria se eu fugisse? — Esperaria que voltasse por conta própria, que voltasse para mim... As palavras pairam no ar, e então o tempo parece parar quando toca com gentileza os meus cabelos. O primeiro toque dos lábios dele é quase nada, é delicado, é convidativo. Depois, uma pressão delicada, como quem teme quebrar algo de muito valor. Meu corpo não entende o que fazer, mas o coração, esse, parece aprender na hora. Me sinto trêmula quando a língua toca a minha, quando aprece provar o meu gosto, eu sinto o dele. Canela, vinho... tabaco... é o que sinto na língua quando a dele encosta, dança, luta... vence. É um beijo sem urgência, cheio de cuidado, e talvez por isso me desarme mais do que qualquer violência poderia me desarmar. Diferente de tudo o que imaginei que viria dele. Diferente de quando pensei que perderia aquilo que mais guardo para quem eu amo de forma abrupta. Viktor estava carimbando em mim a sua setença de forma doce, me fazendo cair em suas armadilhas e gostar de cair. Quando ele se afasta, há um silêncio que pesa e flutua ao mesmo tempo. Tinha imaginado que tentaria algo a mais, que me jogaria na cama e me tomaria, assim como assisti em um filme de romance, mas... Ele apenas se afasta um pouco, e me olha como se procurasse algum sinal de que não estava bem. — Isso… — começo, mas a voz falha. — Não precisa dizer nada. — Ele passa o polegar no canto da minha boca, um gesto de ternura ensaiada. — Eu só queria que soubesse que posso ser gentil com você... — Gentileza não apaga o que você é, Viktor. — Não. Mas talvez mostre o que eu posso ser para você. A sinceridade inesperada me atinge como um golpe. Não sei se ele acredita no que diz, mas há algo na forma como fala, uma fadiga escondida, que me faz querer acreditar por ele... e ao mesmo tempo me causa medo de pensar que ele pode desistir. — Eu... eu nãos sei, ainda não acredito em você... — Tudo bem, isso não muda o fato de que sou apaixonado por você, desde a primeira vez que te vi. — Ele sorri, mas os olhos não acompanham. — Isso é o bastante, e é tudo que quero que saiba. Ficamos ali, em silêncio. A lua se reflete no colar que ele me deu, e Viktor o toca com um cuidado que me surpreende. — Gosto de te ver usando as coisas que dou. Gosto mais ainda quando percebo que te agrado — meu marido sorri e beija a minha testa — descanse, amanhã temos um passeio para fazer. Ele se levanta, fazendo menção a ir embora. Mas meu corpo me trai, agindo por conta própria. Seguro em seu pulso e ele me lança um olhar enviesado, curioso e por fim gentil. — Faltou alguma coisa? — Não... Eu só... Viktor... Você, deveria ficar. Percebo o sorriso, mesmo sem dentes. Como se conteve para não saltitar em comemoração. — Certeza disso? Assinto, um tanto desesperada. Solto o braço dele e suspiro. Percebendo a loucura que acabei de cometer. — Eu vou... Vou tomar um banho e já volto. Você deveria fazer o mesmo. Eu me odeio, odeio ao ponto de perder o auto controle, odeio ao ponto de ter ficado molenga depois de um beijo... E não qualquer beijo... Foi perfeito, para uma primeira vez, foi como beijar um príncipe. E então, me levanto ficando de frente para ele. Seguro o rosto entre as minhas mãos, e pela primeira vez o acaricio. Seus olhos se fecham, aproveitando o contato. — Podemos... ficar na banheira, outra vez... juntos. Não tinha tanta certeza assim, mas, decidi deixar meu corpo dominar minha mente. Viktor pega minha mão e leva até os lábios, depositando um beijo. — Tudo o que quiser, minha querida...
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