Juntos.

1633 Words
Ívyna Baranov A casa parecia mais silenciosa a essa hora, já deveria ser alta madrugada. As velas do banheiro estavam apagadas, Viktor tinha feito questão de acender antes do banho. O ar estava frio agora, e o som dos meus passos molhados no chão de mármore se misturava ao farfalhar distante das cortinas, esqueci de fechar as janelas, mais uma vez. O roupão de linho branco pesava em meus ombros, e eu me senti pequena dentro dele, mesmo acostumada com luxos, aqui tudo era muito mais luxuoso, num nível de assustar. Viktor caminhava logo atrás, e o som de suas passadas calmas soava como uma presença constante, era ameaçador no meu ponto de vista. Me sentia perseguida a todos os instantes, mas o que era estranho, é que ainda assim me sentia um pouco segura. — Deve estar com frio — ele disse, já pegando outra toalha no aparador. — Estou bem. Não precisa... — Eu insisto. Antes que eu protestasse, ele se aproximou, passando a toalha em volta dos meus cabelos, enxugando-os com cuidado. O toque era leve, paciente, e por algum motivo, a gentileza do gesto me desconcertou mais do que qualquer palavra. Quando ele terminou, deixou os dedos descansarem por um instante na base da minha nuca me fazendo arrepiar e soltar um suspiro. — Assim é melhor — murmurou. Meu coração batia rápido demais, e mesmo tentando disfarçar, sei que ele percebeu. O sorriso de canto que surgiu nos lábios dele denunciava. — Tomamos banho juntos não tem nem cinco minutos, e você já parece desconfigurada — ele ria, mas tudo bem. Eu também riria da minha cara em todo o caso. — Às vezes. — Engoli em seco. — Às vezes, você parece dois homens diferentes. E eu por vezes sou duas mulheres diferentes. — Pra você, eu serei esse homem que vê... Claro que tem muito a descobrir ainda. Coisas boas, garanto — ele cruza os braços, e os músculos de seu peitoral se tensionam, eu reparo, mais do que deveria — quero pedir, encarecidamente, que traga de volta a Ívyna de cinco minutos atrás. Riu anasalado e eu dei de ombros, sabia que aquilo ali era descontração, e me deixava mais tranquila. Então passou por mim e foi até a cama, onde o lençol estava bem esticado, e a colcha vermelha dobrada sobre a ponta. Virou-se para mim com uma expressão serena, diferente da habitual. — Tudo o que quiser, e apenas o que quiser, Ívyna... Tentei sustentar o olhar, mas ele tinha essa maneira de me despir sem precisar me tocar. Senti meu estômago gelar. Nos beijamos na banheira, ele estava entre as minhas pernas, senti seu corpo quente cobrir o meu... Ainda assim, tão próximo, ele não tentou forçar nada. E então... Estaria certa em confiar, certo? Abaixei os olhos. — Eu só pedi pra dormirmos juntos, Viktor. Nada mais. — dou de ombros tentando parecer calma. — E é exatamente o que vamos fazer. — O tom dele era firme, sem ironia. — Apenas dormir... Pensei que tinha ficado claro. Só irei até onde permitir. Senti o ar preso no peito se soltar devagar. Ele caminhou até a cabeceira da cama, apagou as luzes mais fortes e deixou apenas o abajur aceso, banhando o quarto com uma luz dourada, cálida. Depois, sentou-se à beira da cama e fez um gesto leve com a mão, como se me convidasse a me aproximar. Demorei. Não por medo dele — não exatamente —, mas por medo do que aquela gentileza podia fazer comigo, já que me deixava confusa.. Quando me aproximei, ele segurou meu pulso, de leve, e começou a traçar círculos com o polegar. Era um gesto simples, quase banal, mas cada volta me deixava mais tensa... Tensa e relaxada, ao mesmo tempo. — Seus pulsos são delicados — comentou, distraído, olhando a pele pálida sob a luz amarelada. — Você repara em tudo. Nunca imaginei que alguém repararia no meu... pulso. — É impossível não reparar em você. Acredite, reparo todos os detalhes, e tudo o que vi até agora... Me agrada, e é uma tortura... Mas eu aguento. O calor subiu às minhas bochechas antes que eu conseguisse evitar, não só as bochechas... Acho que o corpo todo acendeu. Afastei o olhar, mas ele não soltou minha mão. Puxou-a devagar, sentou na cama e me puxou para o colo, e ali me manteve, como se fosse algo frágil demais para se largar. Ou como se eu fosse fugir. E acredite, eu estava a ponto de sair correndo. Viktor estava vestindo a box preta, e eu com um roupão leve, fino... Contatos que nunca tive em toda a vida. — Você se assusta fácil — disse ele — tente se acalmar... — Eu me defendo, apenas isso. — Não precisa se defender de mim, Ívyna. Está parecendo um gatinho arisco — ri perto do meu pescoço, o ar quente batendo na minha pele — temo que vá mostrar as garras e me arranhar a qualquer momento. — Sabe... Ainda não confio em você o suficiente, então sim, posso mostrar as garras. Ele sorriu de leve. — Então me deixa provar que pode confiar em mim... me deixe te fazer, sentir muitas coisas... Viktor levou minha mão até o rosto dele, e encostou os lábios no dorso, devagar, sem pressa. Um beijo simples que, na minha concepção não deveria ter mexido tanto assim comigo. Mas mexeu... E naquele toque, havia algo que parecia mais perigoso do que qualquer ameaça, ternura sempre pareceu algo perigoso aos meus olhos. Afastei a mão, rápido demais, e ele não insistiu. Apenas olhou, com aquele olhar silencioso que sempre dizia mais do que deveria. — Desculpe — ele murmurou. — Eu não deveria ter... — Não é isso… — comecei, mas parei. Como explicar o que nem eu entendia? A verdade é que não era medo, nem repulsa. Era outra coisa. Era o vazio no estômago, a respiração curta, o corpo respondendo por conta própria a algo que eu não deveria sentir, não por ele. — Só estou tentando entender o que eu quero... — E o que seria? — perguntou, curioso. Olhei para ele. O rosto bonito, os olhos claros demais para um homem com tantos segredos sujos. — Quero te afastar, quero correr para longe, quero me esconder de você! Você é perigoso, não só parece, sei que é... Não é saudável desejar estar aqui, nos seus braços, como se fosse um anjo da guarda. Ele riu, baixo, como quem se diverte com uma ironia amarga. — Eu sou perigoso, Ívyna. Nunca finjo não ser. — Então por que parece tentar ser bom comigo? Ele pensou por um instante antes de responder: — Você é minha esposa, Ívyna... se existe alguém que merece o melhor de mim, esse alguém é você. Aquela frase ficou flutuando no ar entre nós, como o vapor que escapava da banheira enquanto tomamos banho... enquanto nos beijamos... E antes que eu percebesse, ele já estava se inclinando, aproximando-se devagar. O toque veio primeiro no meu rosto, um dedo só, traçando a linha do meu maxilar até o queixo. Depois, o olhar... um olhar intenso que parecia querer me afogar. E então, a distância entre nós desapareceu. O beijo foi suave, um roçar de lábios para testar os limites. Viktor testava os meus limites. Estudava o quão longe poderia ir, e por algum motivo que ainda não entendi, meu corpo parecia querer isso, ir além... O coração acelerou, o corpo inteiro ficou leve. Viktor seria o primeiro. O primeiro homem da minha vida. E era inevitável, era como um roteiro que não dava para fugir. Não tinha nada de violento ou urgente, apenas uma calma inquietante, como se ele soubesse que aquele instante bastava pra me desarmar por inteiro. Quando ele se afastou, os olhos ainda estavam fixos nos meus, atentos. — Minha esposa… — ele sussurrou. — tudo o que quiser... apenas o que quiser de mim, prometo. Sempre... — Eu sei... — respondi, quase sem voz — obrigada. Ele respirou fundo, como se precisasse se controlar, era nítido. Ele queria mais de mim, mas era cavalheiro o suficiente para entender os meus limites. Segurou meu rosto entre as mãos, o polegar deslizando de leve sobre minha bochecha. — Eu juro que, você me deixa louco, só de te olhar eu... Po.rra... te ver entrando na igreja, toda de branco... te ver na banheira... te ver, Ívyna... — disse, baixinho. — Você tem sido o meu maior desafio, o espinho mais c***l, fincado na minha carne. Fechei os olhos. Não quis responder. Mas o toque dele estava ali, quente, firme, sincero, contido, como se quisesse trilhar meu corpo sem amarras, e eu, juro que queria dar isso a ele. — Vem. — me puxou para a cama. Deitei ao lado dele, mantendo uma pequena distância. Ele passou o braço por cima de mim, com cuidado, como se tivesse medo de me quebrar, me puxou para perto, me fazendo encostar as costas no peitoral quente dele. O silêncio do quarto nos envolveu, e a respiração dele tocava a minha nuca, me arrepiando. —Se sente segura agora? — perguntou. — Um pouco. — Então dorme, vou estar aqui quando acordar. O calor do corpo dele atrás do meu era confortável demais. Fechei os olhos, e por um instante, esqueci quem ele era. Apenas senti segurança. O som do vento batendo na janela, o cheiro da pele dele, o ritmo constante da respiração e do coração batendo. E quando o sono começou a me tomar, percebi que algo dentro de mim se partia em dois — a parte que ainda lutava contra ele, e a parte que, sem querer, começava a se render. Entre o medo e o toque, eu estava me perdendo, completamente.
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