Lev Antony
— COMO PENSA EM NEGOCIAR ALGO ASSIM?
Odiava gritos, berros desnecessários. Mas não era só eu que odiava... Alexei, mesmo sendo o mais novo da organização, era um dos mais frios e contidos. As histórias que contam sobre ele são, assustadoras, mas particularmente, todos são meio quebrados.
Era Matheus — o brasileiro — que gritava, me causando a p***a de uma dor de cabeça. E a julgar a forma como Alexei me encarou, acredito que ele também estava com a cabeça dolorida.
— Calma, Matheus! — a voz de Xavier me agradava, baixa, contida, mas dominante.
— Você vai fazer parte disso? É sério, Xavier? Tr.áfico humano... Tráf.ico humano!
Alexei olhou para mim, eu sabia que ele não concordava com essa loucura também. Mas eu concordava, quer dizer... Se o rei concorda, assim será.
— Não, não mesmo! Viktor está passando dos limites, com todo o respeito, Alexei.
Senti um rosnado na garganta, odiava quando falavam qualquer coisa do Rei, mas a mão no meu braço me lembrou de que deveria me controlar. Afinal, Xavier não é qualquer um, e Viktor o via como um irmão.
— Perdão, mas... são as condições. Continuamos com os trâmites de lavagem de dinheiro vindo de toda a Europa, e você cria uma nova divisão para cuidar desse tipo de tráfico — o moreno, dono de olhos únicos, um de cada cor, dizia com a voz contida — olha, Xavier. São só algumas garotas, é para uma ilha, festa privada, só famosos... Vai dar dinheiro, esse parceiro é. Bem poderoso.
O rosto de Xavier se contorce, parecia sentir dor com aquela informação. Já para mim não era nada demais.
Matheus estava entrertido, pois não ousou trocar olhares comigo, talvez o pavor do que teria que fazer.
— Não me importa se for o Papa! E olha que sou... — ele olha para Matheus como se lembrasse de algo, o pescoço fica avermelhado — enfim... Isso está fora de cogitação.
— Xavier, não é como se fôssemos matar as garotas, nem muito menos... Fazê- las sofrerem. Garantimos que sejam bem assistidas, remuneradas. Vão viver no conforto... Pense nisso como uma boate, que pague bem melhor.
— Isso é c***l, doente...
— Não estamos falando de estu.pro, pedof.ilia... Estamos dando chance à mulheres que vivem na beira da miséria, para serem alguém. Vamos, Xavier... Você faz coisas piores, e isso não é... Nada, entende?
Xavier parecia repensar, e foi a vez de Matheus ficar vermelho, talvez não acreditando que o ruivo estivesse ponderando sobre.E talvez, fosse minha vez de intervir, já que eu tenho que garantir que todas as vontades do Rei sejam respeitadas.
— Matheus — eu odiava falar, mas minha voz chamou a sua atenção, e eu tive que me segurar para não fazer cara de nojo — que tal se tranquilizar? Alexei explicou que não será bem um tráf.ico humano. Pense nas garotas de onde você veio, essa lindas que moram na favela e se desdobram para não conseguir nem pagar as contas básicas do mês... Elas são o nosso foco, queremos que elas sejam realizadas...
— O QUE VOCÊ SABE SOBRE AS GAROTAS DE COMUNIDADE, PARA FALAR DESSE JEITO?!
Ele grita, e a p***a da mosca faz:
— Zum, zum, zum... — sorrio por baixo da máscara, minha mão busca o cabo da Katana, que infelizmente não estava comigo. Alexei aperta meu braço mais uma vez.
— Matheus, queira se controlar, por favor. Você é meu sub, haja como tal. — Xavier diz firme.
— Não me tirou da favela para me fazer ser conivente com isso, Xavier! As meninas por lá lutam muito, são guerreiras, e não trocariam a realidade, mesmo não sendo tão boa, para virarem bonecas sexuais. Não dá para garantir a segurança delas nessa ilha... Xavier, não faço mais parte da favela, mas continuo carregando em meu peito tudo o que vivi lá. Não serei conivente com isso, e vou me certificar de que Biel saiba disso.
Xavier empalideceu, como se o nome do marido do Argentino fosse um gatilho, algo que o puxe para a realidade moral..
Respirei fundo, tentaria mais uma vez.
— Matheus, por favor, reconsidere...
Disse.
E como uma bala com foco, Matheus marchou até mim, segurou com força no meus pescoço. Perdi o ar. Os olhos dele estavam nos meus, e a por.ra da distorção mental me ataca com tudo.
Ele era um cara bem gostoso, me olhando nos olhos com ódio. Sustentei o olhar. Sorri anasalado com um pouquinho de desdém.
Imaginei como seria ser enforcado enquanto me comia...
— AS MINHAS MENINAS, NÃO! Se concorda com eles, Xavier — ele aperta mais o meu pescoço, vejo quando Xavier e Alexei se aproximam para tirar Matheus de mim, apenas dou um sinal para deixarem as coisas serem assim — se concorda com essa mer.da, mande suas Argentinas!
— As da Penha são mais atraentes... quentes.
Matheus apertou mais forte, eu precisava provocar. Queria saber seus limites.
— Não ouse falar-
— Chega, Matheus, solta ele... e eu sei exatamente o que está fazendo, Lev.
Com custo, Matheus me solta, mas aperta uma última vez antes.
E sim, odiava esse moleque!
Alexei...
Na primeira oportunidade que eu tivesse, arrancaria sua cabeça fora.
— Olhem, eu prefiro conversar com Viktor pessoalmente — Xavier se colocou entre mim e os outros dois — encontrarei um meio termo, de chefe para chefe.
— Viktor está curtindo a lua de mel.
Digo, sentindo o gosto do amargo... Achava injusto ele ter se casado, e a atenção ser dividida com aquela va.dia.
— Eu espero — Xavier rebate — afinal, ele vai querer me ver, temos assuntos a tratar.
— Direi a ele, Xavier.
Reviro os olhos, Alexei soava tão cortês e educado... E era por isso que todos gostavam desse mascote...
— Agradeço, vamos, Matheus.
O moreno olha para mim com o maxilar tenso, estava com raiva, e eu sabia exatamente o remédio para essa raiva. E estava a fim mesmo de ter algo desse tipo.
Xavier acena e sai da sala, mas Matheus não se move, parecia paralisado, e eu sentia o ódio que vinha dele. Era excitante, mortal... Sentia o cheiro do sangue correndo rápido nas veias dele. Se estivesse armado, com toda a certeza me daria um tiro, ou dois... Eu imploraria por três, quatro... Sustento o olhar, mas algo no dele vacila, talvez eu tenha mostrado mais do que o necessário, mas gostava da ideia dele saber que estava mexendo comigo.
— Tô vazando, Lev — nem sequer olhei quando Alexei se despediu.
O silêncio pairou ali, e a raiva de Matheus parecia diminuir a medida que tentava me decifrar. Sou complexo demais para ele, e não sinto medo. O brasileiro me olhava como se visse uma outra pessoa em mim, e eu me perguntava quem mais não demonstrava medo perante essa personalidade explosiva que ele tem.
— Por quanto tempo mais vai me fuzilar com os olhos?
Pergunto dando alguns passos para trás e sentando na mesa, as pernas abertas o suficiente, para que ele soubesse que é muito bem vindo.
Matheus me olhou de cima a baixo, me analisando, ou ponderando... Eu sabia que, ir embora não era algo que ele quisesse naquele momento.
— Não vou com a sua cara, seu doente.
Ele estava certo.
E então dei uma gargalhada bem alta. Ele não demonstrava medo, como a maioria faria, tão doente quanto eu.
— O que mudou, pareceu me querer na festa... Já sei, está apaixonado pelo Nikolai.
As narinas dele se expandem, ele estava respirando fundo.
— Nikolai é... não faz muito o meu tipo. Ele é doce, se passa de... Enfim.
— Me arrependo de ter cogitado a ideia de dar em cima de você — ele cospe as palavras com nojo.
Dou uma risada amarga.
Levo os dedos até os botões da camisa social que usava, desabotoo um a um. Matheus acompanha com os olhos, percebo o pomo de Adão descer e subir, um gesto meio nervoso. Eu gostei do que vi.
— Ou, ao invés de se arrepender, poderia vir até aqui... me enforcar... Olha, estou falando, mais do que já falei com qualquer cara que quis tre.par... — dou de ombros e jogo a camisa no chão, os olhos dele vão direto para as jóias que tenho nos m*****s — se eu fosse você, entendia logo que, o que eu disse foi apenas para te provocar, gostei da sua mão no meu pescoço, se não fosse mórbido, arrancaria ela e usaria de acessório, mas seria meio bizonho, concorda?
— Você é bizonho, por completo...
— Uh, geralmente se elogia quando quer flertar, não acredito que te dispensei ontem, não coloquei fé no brasileiro.
— Não estou flertando com você — ele diz ríspido.
E então, como a cobra ardilosa que sou, me levanto da mesa aonde estava sentado, os olhos dele agora batem na jóia no umbigo, e as tatuagens que tenho espalhadas. Me aproximo dele, o suficiente para sentir a respiração quente em meu rosto. Para sentir o aroma cítrico do perfume que usava. Matheus não parece pensar muito quando segura firme na minha nuca, exponho o pescoço pois não sou burro. Ele morde, forte. Observo quando a mão vem de encontro a máscara. Dou um tapa na mão dele.
— Não quero que tire ela!
JAMAIS.
NUNCA
NUNCA E JAMAIS!
Ele ri, meio incrédulo.
— Como faço pra te beijar? — ele franze o cenho.
— Simples, não faz... Use meu corpo como quiser, do pescoço para baixo.
Matheus assobia.
— Olha, dou muito valor a um pu.ta beijo de língua, fico com o pa.u duro na hora. Não sei se essa parada de... sem beijo, vai funcionar.
Respiro fundo para manter a sanidade, já queria ver ele decapt.ado.
— Eu faço funcionar, está em mãos experientes, brasileiro.
E sim, ele estava.