O grito agudo e alto de Marta Edwards preenche toda a vastidão escura onde a mesma se encontra, a mulher se levanta com o corpo completamente molhado de suor, olhando ao seu redor mesmo sem enxergar nada, tentando descobrir onde está, algo estava errado, a morena não consegue se lembrar de nada da noite anterior. Marta tem a sensação de que tinha encontrado com alguém especial, de que tinha ido ver uma pessoa muito querida, mas quem!? Marta não consegue se lembrar, nem sabe onde está ou que aconteceu.
Mesmo no escuro a mulher se levanta e começa a tatear ao seu redor, Marta estava caída no chão frio, provavelmente feito de pedras de alvenaria. A morena se ergue e fica de pé, não é possível ouvir nada, não há nenhuma janela, porta ou fresta de luz, que lugar é esse?! Pensa Marta pondo uma das mãos na cabeça, sentindo a mesma doer como se tivesse levado uma forte pancada.
- Olá? - Diz a morena tentando se encontrar no escuro, talvez alguém estivesse ali, talvez Marta pudesse pedir por ajuda se conseguisse encontrar alguém, o que seria sensato, se não fosse um pensamento tão t**o diante da situação em que se encontra, é evidente que não há uma alma viva além de Marta nesse lugar. - Onde eu estou!? - Diz a mulher para si mesma, quase sussurrando enquanto passar as mãos em seu corpo nu, a mulher franze a testa se perguntando porque está completamente pelada e mais importante, onde está?!
- Marta? - Diz uma voz masculina surgindo no alto da escuridão como se viesse do céu, reverberando por toda a parte de forma fantasmagórica, a morena começa a olhar para cima tentando encontrar a fonte do barulho, porém, em vão. - Marta? Marta acorde! Não me deixe por favor Marta! - Continua a voz insistindo, Marta sente como se alguém estivesse segurando em seus ombros e balançando o seu corpo, no entanto não vê ninguém ali, a voz continua chamando seu nome.
- Olá!? quem está aí? - Grita a mulher pondo as mãos do lado da boca, formando conchas para direcionar sua voz, na tentativa de que quem a estivesse chamando pudesse ouvi-la. Marta sente uma pressão em todo o seu corpo como se algo quisesse lhe esmagar e então, de repente, uma força gigantesca puxa seu corpo para cima.
Marta abre os olhos tossindo ofegante e desesperada, atordoada a mulher olha para os lados tentando descobrir o que estava se passando e onde está agora. Acima do seu corpo com as mãos em seus ombros está Jacques, lhe olhando com preocupação e alívio ao mesmo tempo. – Jacques!? O que está havendo? - Pergunta ao enfim reconhecer seu parceiro, ao redor do rapaz pessoas vestidas de médicos e enfermeiras lhe olham junto com uma multidão que está a alguns metros dali, Marta percebe então que está deitada no chão da estrada. Que estranho! pensa ao sorrir tímida pra Jacques.
- Eu fiquei tão preocupado meu amor, porque você começou a andar daquela forma?! Parecia estar hipnotizada, te chamei várias e várias vezes, tentei te alertar sobre o carro, mas quando você enfim me ouviu já era tarde, graças a Deus que você está bem! - Diz o rapaz simplesmente cuspindo cada palavra com alívio e gratidão em sua voz, Marta o olha confusa, pensando que de alguma forma aquilo não faz sentido.
- É melhor levarmos a senhorita Edwards para a enfermaria, quero fazer alguns exames só para garantir que não haverá sequelas indesejadas! - Diz o homem vestido de médico ao lado de Jaques, Marta o fita com preocupação em seu olhar, confusão toma conta da sua mente, o rosto do homem lhe é muito familiar.
- Eu irei acompanhá-la, doutor! - Diz Jaques olhando o homem atrás de si por cima do ombro, Marta continua em silêncio, apenas observando e tentando ligar as informações para chegar a uma conclusão plausível, a mulher tem certeza de que não havia sido atropelada, sente que outra coisa tinha acontecido, mas não consegue se lembrar o quê. Jaques, Marta, o médico e os enfermeiros partem dali em um transporte destinado ao tratamento de pessoas, seguindo em direção à enfermaria, a sirene do veículo é a última coisa a ser ouvida naquela praça, as pessoas começam a se dispersar e voltam para suas rotinas normais.
AngelFalls – Nebraska – 2010
A ambulância avança cortando os veículos pela estrada em alta velocidade, sua sirene soa alarmante, no interior da ambulância está Marta Edwards está gravemente ferida com o furo de uma bala calibre 37 em seu ombro esquerdo, a morena havia se envolvido em uma briga de rua após ter seu pedido de comprar os recursos que precisava negados. Marta nunca fora uma mulher de se envolver em brigas diretamente, no entanto, no que se trata de seus vícios a mulher acaba perdendo a razão e parte para a agressividade.
- Qual o quadro geral? - Diz ó motorista da ambulância sem tirar os olhos da estrada.
- A hemorragia está se espalhando, quanto tempo falta para chegarmos ao hospital? - Retruca o enfermeiro segurando a compressa no ombro de Marta que está inconsciente e com seu sangue correndo desenfreadamente.
- Em cinco minutos estaremos lá, não a deixe morrer! - Brada o motorista ao pisar no acelerador, o homem aperta o volante com força, essa mulher não será mais uma vítima das drogas! Pensa o homem. A ambulância para em frente ao hospital geral de AngelFalls, Marta está deitada sobre uma maca e a levada diretamente para a sala de cirurgia, em um banco na sala de espera está Jacques, o rapaz se levanta aflito e preocupado quando vê o corpo desacordado da morena passando com os enfermeiros, o rapaz levanta-se e vai em direção aos mesmos com passos rápidos.
- Com licença, como ela está? - Diz ao puxar o braço de um dos homens, os enfermeiros não diminuem o ritmo com que andam, Jacques tenta acompanhá-los sem hesitar em saber sobre o estado da mulher.
- A hemorragia está se espalhando, precisamos cuidar dela! Daremos notícias assim que ela estiver segura! Agora, aguarde na sala de espera por favor! – Diz um dos enfermeiros de forma resumida e autoritária ao olhar Jacques de relance, sem diminuir o ritmo da caminhada, os enfermeiros entram na sala de cirurgia empurrando a maca com a morena, dentro da sala há uma mulher loira de costas para a porta por onde os enfermeiros entraram; a mesma está trajando um jaleco branco, uma máscara azul tapando sua boca e nariz, ao ouvir os enfermeiros entrarem a loira se vira, fitando-os com preocupação e pressa.
- Coloquem-na sob a cama! - Diz a loira retirando a máscara que está usando, revelando assim seu rosto. – Me diga o quadro geral dela, rápido! - Ordena a cirurgiã indo em direção a cama de operações no centro da sala.
- Doutora Eloísa, a garota levou um tiro no ombro, a hemorragia está se espalhando rapidamente e seu organismo está contaminado por alucinógenos adulterados! - Retruca um dos enfermeiros ao rasgar a roupa de Marta, deixando o ombro da mesma exposto.
- Alucinógenos adulterados?! Bom, será sorte se ela sobreviver! Vamos, tragam meus equipamentos, rápido! - Diz Eloísa ao concluir que Marta está em um quadro crítico, alucinógenos adulterados são o tipo mais perigoso e mais difícil de encontrar entre as drogas que existem em Angel Falls, o organismo de Marta está à beira do colapso, se não fosse operada nesse exato instante estaria morta na próxima uma hora de relógio. Marta balbucia qualquer palavra enquanto sente uma dor alucinante se espalhar pelo seu ombro, percorrendo todo o seu braço, metade do seu corpo está dormente e a outra metade dói de forma insuportável, a morena sente sua cabeça dar mil voltas, seu estômago gela e um enjoo estranho toma conta de si; Marta tenta abrir os olhos para ver o cenário à sua volta, lembrando-se apenas de ter sido socorrida por várias pessoas e então ter sido levada para algum lugar qualquer, Marta olha ao seu redor e percebe estar na sala de cirurgias de um hospital, a morena pisca tentando entender exatamente o que está acontecendo ali, a dor em seu ombro aumenta conforme se movimenta em cima da cama.
- Senhorita Edwards... por favor.... tente não se mexer muito! - Diz a doutora Eloísa ao tocar a testa de Marta que ouve a voz da loira soar fantasmagórica, quase demoníaca. A voz que fala com Marta soa grave, reverberando por todo o cômodo, a morena remexe sua cabeça em cima da cama, agonizando pela dor em seu ombro. - Senhorita Edwards... Do que você se lembra? - Pergunta a voz fantasmagórica, a visão de Marta fica turva, tudo ao seu redor está embaçado, o que torna impossível discernir o que é o que. - Morta?.... Marta?... - Completa a voz fazendo perguntas que a morena não compreende, se perguntando o que estava de fato acontecendo ali, novamente a sensação de que algo está errado invade o seu coração, Marta ergue sua cabeça sobre o peito e olha seu corpo. A morena percebe estar completamente nua, mais uma vez tudo fica escuro, o cenário a sua volta é engolido pela escuridão, Marta sente uma força lhe puxar de cima da cama, como se tivesse pegado sua cabeça e a arrastado para longe, não há objetos ou qualquer outra coisa em que possa esbarrar, Marta sente seu corpo suspenso no ar em meio a imensidão escura.
- O que está havendo? - Grita furiosa, Marta acaba de perceber que alguém está brincando consigo, mexendo em sua cabeça, alterando suas lembranças, fazendo-a viver realidades que desconhece. - Quem é você? Mostre-se, maldito covarde! - Brada a mulher ao fechar os punhos com força, ainda deitada suspensa no ar, Marta desisti de tentar ver o que está ao seu redor pois sabe que qualquer coisa que apareça não é real, a única certeza que a morena tem é que aquilo não é real.
Marta solta um grito furioso, sua voz soa estridente, preenchendo toda aquela escuridão vazia, nada acontece, a mulher fora simplesmente ignorada, seja lá o que fosse que estivesse brincando consigo não dava a mínima para qualquer coisa que Marta tenta-se fazer, a mulher chega à conclusão de que está sendo controlada. - Desgraçado filho da p**a! APAREÇA!!! – Grita ainda mais furiosa por ter sido ignorada, a dor em seu ombro desaparece completamente, Marta consegue ver seu corpo, sua pele morena e suas curvas nítidas como se estivesse sob a luz do Sol, a morena franze o cenho ao perceber que não existe luz naquele lugar, se perguntando como é possível estar vendo o próprio corpo se não existe nada ali além de escuridão; a força misteriosa puxa o corpo da mulher novamente, dessa vez para baixo, com força e velocidade, Marta sente como se sua pele fosse ser arrancada de seu corpo, sente a pressão do ar ao ser puxada com força.
Marta começa a gritar em meio ao desespero, a queda parece não ter fim, ainda confusa sente seu corpo colidir com algo sólido e duro, a morena sente seu sangue escorrendo e se espalhando pela coisa na qual havia se chocado. Marta deixa sua cabeça cair para o lado, pisca os olhos e então o cenário muda, toda aquela escuridão desaparece e dar lugar para uma rua movimentada, pessoas estão gritando desesperadamente ao redor de Marta que só então percebe ter caído de um prédio e agora está deitada no asfalto com metade do seu crânio rachado.
A morena geme sentindo dor em sua cabeça, seus neurônios e miolos começam a escorrer junto com metade do seu cérebro, manchando a calçada. Marta olha para cima do prédio de onde caíra, lá no alto ela percebe, a figura de um homem sorrindo maliciosamente, a mulher sente seu peito apertar ao reconhecer a face do homem, é Jacques.
- Porque... - Sussurra a mulher sentindo seus ossos quebrados doerem, fitando o homem lá no alto do prédio, tudo escurece novamente, o silêncio predomina na escuridão, Marta sente como se seu corpo estivesse dormente, a dor já não é mais incomoda.
AngelFalls - Nebraska – Ano de 1506
O Sol escaldante ilumina toda a cidade de Poente, Marta Edwards está cavalgando com seu belo cavalo de pelagem cinza, marchando em direção à cidade de Gálatas. A mulher sente o suor escorrer por sua face morena, havia sido um dia difícil e trabalhoso, cuidar do rebanho de gado o dia inteiro e ainda correr atrás de bandidos é demais para uma única pessoa, mas ainda assim Marta tinha que o fazer; a cavalgada continua a passos normais, tanto Marta quanto seu cavalo parecem um tanto desanimados e exaustos, ambos tiveram um dia altamente cansativo, a mulher está trajando uma calça de couro na cor azul escuro, um chapéu Montana marrom claro, um par de botas quase prateadas com detalhes em preto, uma camisa branca e por cima da mesma um colete de couro de tamanho médio, na cor marrom claro.
- Céus... - Esbraveja a morena usando sua mão para tapar um pouco da luz enquanto fita o horizonte, ainda haviam quase 190 km de estrada para percorrer. - Venha Arthur, vamos dar uma parada! - Diz ao puxar seu cavalo em direção a uma árvore típica da região, solitária ali naquele imenso planalto, Marta amarra seu cavalo na árvore, pega sua mochila e retira um vaso de ferro com água; a morena pega uma tigela na mochila e despeje um pouco de água na mesma, ponto o recipiente no chão perto do cavalo para que o mesmo beba a água.
Marta bebe um pouco da água do vaso, após dar um gole a mulher fita o horizonte ensolarado, a estrada de terra parecia se mexer como se fosse uma miragem pelo calor, o caminho até Gálatas é longo. - Já é meio-dia! - Diz a mulher erguendo o olhar e vendo que o Sol está no centro do céu, brilhando forte e fervente; O cavalo de Marta deitasse no chão coberto pela sombra da árvore, tentando descansar o máximo possível antes de continuar a jornada, a morena olha a cena e acaba fazendo o mesmo, deitando-se próximo ao seu cavalo, aproveitando a fresca que passa ali embaixo da árvore.
A mulher olha para cima, por entre as folhas dos galhos da árvore, apesar de ser um dia quente muitas nuvens se exibem no céu, o mesmo está tão azul quanto o mar. O mar! pensa Marta, algo nessa frase a faz sentir como se estivesse experienciando nostalgia; agora parando para pensar, Marta nunca havia visto o mar, apenas ouvido histórias sobre o mesmo, uma grande imensidão azul sem fim. Essa ideia lhe conforta, Marta sente a brisa fresca que sua mente cria ao imaginar a imensidão azul, seria altamente refrescante se o mar estivesse ali perto, especialmente em dias como este.
Alguns corvos cantam ao sobrevoarem o local onde Marta está, uma leve brisa passa pela árvore, a morena respira profundamente ao relutar em se levantar e continuar sua jornada, segurando-se a cada segundo para continuar ali; seu corpo cansado e enfadado do calor apenas quer descansar, mas, a noite é perigosa nessa estrada, querendo ou não Marta tem que se apressar para chegar a Gálatas o quanto antes.
- É, não temos escolha meu amigo, vamos ter que continuar nossa cavalgada até Gálatas! - Diz a morena antes de se levantar, dando um leve tapinha na barriga do seu cavalo, o mesmo bufa em indignação, deixando bem claro que sua vontade é continuar ali, descansando e aproveitando a sombra deliciosa da árvore. Marta e seu cavalo se levantam depois de muito relutar, a morena sobe nas costas do mesmo e então a cavalgada começa, desta vez, o cavalo de Marta galopa com velocidade, levantando poeira por onde passa. Poucos minutos depois de saírem de debaixo da árvore, a morena percebe já estar há uma distância considerável da mesma, nesse ritmo chegariam à cidade de Gálatas no pôr do sol.
O Sol começa a se pôr no horizonte, Marta e seu cavalo trotam a passos lentos pelas ruas de Gálatas, finalmente haviam chegado, agora sua missão é encontrar um lugar onde possam passar à noite, no dia seguinte poderiam resolver o assunto pela qual vieram. A morena guia seu cavalo andam até um estabelecimento com tetos altos e triangulares, na frente do mesmo várias pessoas conversando e bebendo, cadeiras e mesas estão espalhadas pela calçada na frente do lugar, na parede uma placa com o nome “Pensão Alvorada”.
Marta desce de seu cavalo e o amarra em um suporte de madeira na frente do local, em seguida se direciona para dentro do estabelecimento, caminhando diretamente até o balcão de recepção, no mesmo há uma mulher de corpo acima do peso, cabelos grisalhos, expressões flácidas e desgastadas pelo tempo, usando um vestido longo feito de renda azul e branca.
- Boa noite senhorita, em que posso ajudá-la? - Diz a mulher com sua voz soando cansada, porém, com gentileza e doçura o suficiente para agradar todo e qualquer viajante que aparecesse por ali.
- Boa noite, poderia me dizer quanto custa por um quarto para uma noite? – Diz Marta ao apoiar os braços no balcão, fitando a mulher com o mesmo nível de cansaço, ao que parece ambas tiveram um dia exaustivo e altamente cansativo.
- Duas moedas de prata se forem duas pessoas, no seu caso uma moeda de prata será o suficiente! - Diz a mulher gentilmente ao pegar um caderno com capa feita de couro na cor marrom claro, em seguida pega uma caneta. - Então senhorita, ficará com o quarto? – Completa, perguntando com certa animação em sua voz, ao que parece Marta lhe agradou aos olhos, a cansada e velha mulher grisalha parece um pouco mais animada com a chegada da morena.
- Sim Senhora, vou ficar com o quarto! - Diz Marta sorrindo gentilmente para a mulher. - Só mais uma coisa, eu tenho um cavalo lá fora, quero saber se será preciso pagar alguma taxa de acomodação para ele? - Completa ao pegar a caneta que a mulher grisalha lhe oferecera para que assinasse o caderno.
- Nesse caso a senhorita terá que pagar mais uma moeda de prata pela estadia do vosso cavalo! - Retruca a mulher com um pouco de receio em sua voz, parecia não querer perder sua cliente, o local estava cheio, ao que parece é uma pensão respeitável e seu interior é muito bem decorado, com um cenário confortável e aconchegante, o lugar perfeito para descansar depois de uma longa viagem.
- Sem problemas, aqui está! – Retruca a morena ao tirar duas moedas de prata de sua bolsa e colocá-las sob o balcão, a mulher grisalha pega as moedas e se vira para pegar uma chave que está pendurada na parede, a chave está amarrada a um pequeno pingente quadrado com o número quatro gravado no mesmo.
- Quarto número quatro, senhorita! - Diz a mulher ao se virar e entregar a chave para Marta que a pega ao sorrir para a mesma em agradecimento, a morena vira-se e se direciona à escadaria do outro lado do cômodo, cortando passagem entre os hóspedes que ali estão, em seguida sobe as escadas e anda pelo corredor no andar de cima, parando em frente ao quarto com o número quatro gravado na porta. A morena põe a chave na fechadura e abre a mesma, entrando no cômodo em seguida, o quarto não é muito grande, mas tem uma janela, o que o torna bem ventilado, apesar de pequeno é bem arrumado e confortável.
– Que ótimo! - Diz a morena ao perceber que o quarto não vem com suíte, constatando assim que terá que descer para poder tomar um banho, suas pernas tremem só de imaginar a fila que deve estar na entrada do banheiro. É a coisa mais irritante nessas estalagens! pensa Marta; alguns minutos depois a morena desce as escadas, cruza o salão cheio de pessoas e se aproxima do balcão de recepção, o local possui paredes decoradas cobertas por um papel de parede listrado nas cores azul claro e escuro, iluminado por velas e castiçais. – Com licença, pode me informar onde fica o banheiro feminino? – Diz, chamando a atenção da mulher de mais cedo, a mesma se vira e encara a morena com um pouco de preocupação nos olhos, claramente não vinha notícia boa.
- Veja, o corredor passando pela porta abaixo da escada por onde você veio leva até os banheiros, mas já aviso que a fila está grande! - Retruca a mulher fazendo Marta constatar o quão óbvio foi seu pensamento a alguns minutos antes de descer a escada, já era de se esperar, Gálatas é uma das cidades mais movimentadas em Nebraska, é óbvio que as estalagens estão sempre cheias.
- Muito obrigada! - Fala ao sorrir calorosamente para a mulher, em seguida se vira e vai em direção ao corredor indicado, agonia e cansaço tomam conta de Marta, é possível ver a fila dali mesmo do salão principal, a mulher sente o suor escorrer pela lateral de seu rosto, teria que travar mais uma jornada até seu objetivo para poder enfim descansar.
***
O Sol começa a nascer no horizonte, os raios de luz entram pela janela do quarto de Marta, fazendo com que a mesma desperte lentamente. Marta pisca um pouco confusa, estranhando o local onde acordara, alguns minutos de confusão se passam enquanto a morena está deitada na cama, Marta remexe seu cabelo raspado ao enfim se lembrar de que está na estalagem, na cidade de Gálatas.
- Céus... - Murmura ao se obrigar a levantar, a garota vai até sua bolsa e pega uma toalha, mais uma vez está na hora de enfrentar a fila para tomar um banho, frustrada a morena apenas sai do quarto e segue pelo corredor. Como havia previsto, a fila está tão grande que vem dobrando o corredor, chegando bem perto do balcão de recepção, Marta suspira cansada e se vira para a mulher grisalha atrás do balcão. - Qual será o café da manhã hoje? - Pergunta conformada com o fato de que aquela fila não diminuiria tão cedo.
- Hoje teremos sopa de coelho rasteiro temperado com ervas típicas de Gálatas, ovos mexidos com bacon, suco de laranja ou café se preferir! - Retruca a mulher apontando em direção à cantina, Marta nem sequer pensa que precisa escovar os dentes, apenas se direciona cantina com a toalha ainda pendurada em seus ombros. A morena entra no cômodo, várias mesas com cadeiras estão dispersas no local, uma grande quantidade de pessoas está ali presente, Marta se pergunta o quão grande é a estalagem ao se direcionar à uma a******a arqueada como se fosse uma janela na parede do cômodo, atrás dessa a******a existe uma mulher que serve as pessoas.
- Me veja um prato completo com a refeição atual da casa! - Declara ao se abaixar para poder ver a mulher por meio da a******a, a mesma é grande o suficiente para que as comidas possam ser entregues sem que haja muito contato entre a cozinheira e os clientes.
- Um instante bonitinha! - Responde a mulher do outro lado, sua voz soa um tanto quanto irritante e debochada, Marta pisca pensando que aquela seria uma mulher insuportável. Uma hora se passa, após fazer sua refeição Marta retornar ao seu quarto para pegar suas coisas e se arrumar, está na hora de partir rumo ao assunto que lhe trouxera a Gálatas. A morena acena para a mulher grisalha do outro lado do balcão da recepção ao passar pelo mesmo, saí do estabelecimento e vai em direção ao seu cavalo no estábulo reservado especificamente para as montarias dos viajantes. Marta parte em retirada cavalgando com velocidade, cruzando as ruas da cidade, sob o lombo de seu cavalo Marta começa a se questionar sobre o que viera fazer em Gálatas, a morena puxa o cabresto de seu cavalo abruptamente, como é possível que tenha esquecido o propósito de ter vindo a essa cidade?! Pensa ao piscar confusa.
- Como assim?! – Diz quase sussurrando para si mesma, sentada sobre as costas de seu cavalo, parados em meio a rua, a morena acabara de perceber que algo não faz sentido, existe algo faltando, uma informação crucial que poderia determinar o propósito de sua jornada até Gálatas, mas, o que seria?! A morena segura o cabresto com força, apertando os olhos na tentativa de se lembrar o porquê de ter cruzado 200 km de estrada sob o sol quente. - Como é possível que eu não consiga me lembrar?! - Diz para si mesma, seu cavalo bufa em indignação, percebendo que algo está errado com sua amazona. Marta pisca ao perceber que acabara de se lembrar de algo que complementa sua teoria de que nada faz sentido ali, a mulher se lembra vividamente de quando caiu de um prédio e teve seu crânio partido ao meio, se lembra do seu encontro com Jacques, sua conversa com Heloísa. - Meu Deus, o que está acontecendo? - Sussurra para si mesma ao arregalar suas orbes e apertar o cabresto de seu cavalo com mais força, Marta havia finalmente se lembrado. Olhando ao seu redor a morena percebe estar na velha Gálatas, mas em que ano? como é possível que o mundo ao seu redor mude de uma época para outra tão rápido assim? Marta observa as pessoas passando ao seu redor, sorrindo e conversando como se não estivessem percebendo que alguém está brincando com suas vidas e suas realidades, as pessoas não faziam ideia do que estava acontecendo, pensa a morena ao guiar seu cavalo de volta para o estabelecimento onde estava hospedada.
A morena galopa lentamente de volta para o estabelecimento, atraindo os olhares à sua volta que se perguntam por que a garota voltou do meio do caminho; Marta está confusa, embora consiga compreender agora, alguma coisa está fazendo um joguinho psicológico consigo, a mulher sente que precisa entender que jogo é esse para poder vencê-lo e recuperar sua verdadeira vida.
Marta adentra o estabelecimento de hospedagem, paga mais uma vez por sua estadia e sobe para o seu quarto, uma vez no mesmo a mulher fecha todas as entradas do cômodo, o lugar fica iluminado somente por uma vela em cima da cômoda ao lado da cama. A morena se senta na cama e começa a pensar, suas orbes inquietas percorrem todo o cômodo enquanto o faz, de que maneira poderia sair dessa falsa realidade? Na verdade, a morena se pergunta, se aqui não é Gálatas, onde é? – Eu não entendo. - Diz a morena pondo as mãos na cabeça e apoiando os seus cotovelos nas coxas ao inclinar seu corpo para frente, se apoiando sob as mesmas. - Todas essas lembranças, todas essas vidas... parecem tão reais e eu realmente as vivi! - Diz para si mesma em um tom quase doentio, duvidando da sua sanidade e da sua noção de realidade. – Se eu realmente vivi tudo isso, como vou encontrar a ilusão?! Será que mais alguém sabe?! - Completa ao passar a mão em sua cabeça raspada, seu peito aperta, uma sensação de solidão se instala, Marta sabe que seria uma longa jornada até descobrir o que é verdade e o que é ilusão. A chama da vela parece titubear balançando por uns instantes, chamando a atenção da morena para a cômoda ao lado da cama, Marta fita a chama da vela que dança graciosamente; o fogo da vela se torna branco repentinamente, Marta recua ao ver o fenômeno diante de seus olhos, um barulho alto similar ao barulho que se produz ao se chocar dois pedaços de ferro começa a preencher o cômodo, parecendo vir da vela. Marta fica de pé e se afasta da cama sem dar as costas para a vela, a luz da chama da vela começa a aumentar iluminando mais e mais o cômodo, a morena teme, pois, sabe que já vira isso antes, toda vez que uma luz branca surge suas memórias são apagadas e sua realidade modificada, a mulher cerra os dentes e aperta os punhos. - Desta vez não! - Brada ao sair correndo do cômodo, derrubando a porta em sua frente e descendo rapidamente a escadaria.
- Senhorita Edwards?! O que está havendo? - Indaga a mulher grisalha de trás do balcão da recepção, inclinando seu corpo flácido para a frente e se apoiando sob o mesmo ao ver Marta passar correndo desesperadamente, com pressa e medo do que está para acontecer, a morena simplesmente ignora o comentário preocupado da mulher; Marta vai até o estábulo, pega seu cavalo e atiça o mesmo que começa a correr em alta velocidade pela estrada de terra em meio a Gálatas, por cima do ombro a morena pode ver que a janela do quarto onde estava foi completamente tomada pela luz branca, a mesma aumenta com intensidade e força junto com o barulho, em poucos instantes a luz engole completamente o estabelecimento e começa a se espalhar por Gálatas.
- Mais rápido garoto! - Diz ao atiçar o cabresto de seu cavalo, o mesmo aumenta os passos, levantando poeira por onde passa, cortando caminho entre a multidão que anda pela rua. Marta olha para as pessoas com expressões confusas por não entender o motivo de as mesmas estarem tão calmas diante daquela luz que se espalha engolindo a cidade. - Droga, estão dormindo! - Sussurra para si mesma ao atiçar o cabresto mais uma vez, a morena acabara de concluir que as pessoas ao seu redor continuam dormente na ilusão, Marta percebe então, a cidade de Gálatas e essa época são a ilusão, a morena cerra os olhos e atiça seu cavalo para correr ainda mais rápido....