A primeira carta de Lúcia chegou no outono. Não era um e-mail. Não era uma mensagem. Era uma carta de papel, escrita à mão, com tinta azul desbotada nas bordas. Ela a deixara na mesa da cozinha antes de pegar o trem para a universidade. “Irmã, Hoje atendi minha primeira paciente sozinha. Ela tinha olhos vazios, como eu um dia tive. Mas quando viu as flores no jardim, sorriu. Foi pequeno, mas foi real. Obrigada por me ensinar que curar é também resistir. Com amor, Lúcia.” Dobrei a carta com cuidado e guardei no bolso. Não para reler. Para sentir o peso daquilo que construímos. Mais tarde, Sofia me encontrou no jardim, cavando a terra com uma colher de madeira. — Estou plantando sementes novas — anunciou, séria. — Para a tia Lúcia. Quando ela voltar, vai ter flores frescas.

