Eu não quero te machucar

1310 Words
A consciência me chega a conta-gotas, como um fio d'água que insiste em atravessar a rocha. Todo o meu corpo pesa, até as minhas pálpebras. Sinto-me presa num sonho turvo, ainda atordoada pela droga. Uma parte de mim suplica para continuar dormindo, porque nesse estado não há homens em cima de mim, não há mãos frias me usando para seu prazer nem vozes ordenando o meu destino. Nesse estado, pelo menos, não me sinto quebrada. Mas algo mudou. Não é o mesmo lugar. Há passos suaves que se movem pela sala. Alguém está aqui. A respiração fica presa na minha garganta. Se eu ficar quieta, se fingir que ainda estou dormindo, talvez eu consiga pensar com clareza antes que o medo me devore. — Sofia, sei que estás acordada. Diz uma voz que me atravessa como um raio. Eu a reconheço. Essa voz não pertence a um estranho. É o Alex. O meu coração começa a bater desesperadamente. Sem pensar, sento-me de repente na cama. Tudo me dá voltas, mas eu vejo: está ali, na minha frente. E este é... o meu quarto. — Alex... O que estou fazendo aqui? A minha voz sai quebrada, incrédula. — Como cheguei até aqui? Ele para, com os olhos fixos em mim, como se avaliasse cada reação. — Suponho que ainda está sob o efeito da droga, por isso não se lembra. Mas... Ele faz uma pausa, e o silêncio pesa mais do que as suas palavras. — O que você estava fazendo naquele lugar, Sofia? Você tem dívidas de jogo e por isso precisava de um milhão de dólares? O seu tom é uma mistura de acusação e controle. Mordo o lábio, tremendo. Não posso dizer a verdade a ele. Não posso dizer que fui lá porque a minha família me contou uma mentira sobre a minha filha. — Não, Alex, claro que não... eu... A frase me quebra. Ele avança um passo, com aquela calma perigosa que sempre o rodeia. — Aquele lugar é um bar de apostas clandestinas. Se não fosse porque mandei te seguir, agora você estaria sabe-se lá onde. A confissão dela me tira o fôlego. Olho para ele surpresa, e o calor da raiva sobe para o meu rosto. Sim, ele me salvou, mas também me vigiou. Marco já me tinha cercado, eu sei, e sem o Alex talvez eu não estivesse aqui. Mas isso não lhe dá o direito de invadir a minha vida. — Você mandou me seguir? Com que direito, Alex? Espeto, sentindo a adrenalina vencer a tontura. — Com o direito que me dá ser seu marido e a pessoa que te deu um milhão de dólares para pagar as suas supostas apostas. A sua voz soa mais dura, mais cortante. — Não sou jogadora, Alex. Insisto, com uma dor latejante nas têmporas. — Então me explique o que você estava fazendo naquele lugar e quem eram aquelas pessoas. Por um instante seu tom diminui, quase parece preocupado. Mas ele não me engana. Preocupação por mim... ou pelo sobrenome Montenegro? — Que pessoas? Pergunto confusa. Não sei o que ele viu nem quando chegou ao bar. — As que te drogaram e tentavam te tirar de lá. A sua mandíbula se tensa. — Alex... eu... — Você tem que me dizer em que problemas você está metida, Sofia. O seu olhar se endurece. — Lembre-se de quem você é. Você é uma herdeira Montenegro, não pode manchar o sobrenome com assuntos ilegais. Sinto que o meu coração está se partindo em pedaços. Embora eu agradeça o dinheiro e o resgate, sei que ele só fez isso para proteger o seu sobrenome, não por mim. E dói. Dói mais do que deveria. Sou uma idi*ota por ter acreditado, mesmo que por um instante, que eu pudesse importar para ele. — Alex... você não precisa se preocupar. Prometo que não mancharei a reputação da família. Digo, a voz apagada, com um cansaço que me arrasta. — O que dia*bos você está dizendo, Sofia? Os seus olhos me procuram, confusos. — Só quero saber uma coisa... O que aconteceu com aquelas pessoas? Sussurro. — Ficaram presas algumas horas, mas com certeza pagaram a fiança com o dinheiro que você lhes deu. Ele responde. Um nó me sufoca. De novo desapareceram sem me dizer onde está a minha filha. As lágrimas queimam a minha pele antes de cair. Alex me observa, penetrante, mas incapaz de entender. — Sofia... se você não me disser o que está acontecendo, eu não posso... te ajudar. Ele diz finalmente. — Me ajudar? Perguntei, olhando para ele com os olhos mareados. — Alex, você se importa tão pouco com o que acontece comigo, por que agora quer me ajudar? — Você realmente me acha tão cr*uel? Exclama, magoado. — É o que você quer que eu pense de você. Respondo. Ele me olha por um longo tempo, como se algo dentro dele estivesse prestes a quebrar, mas ele se contém. — Está bem, pense o que quiser. Recupere-se, Sofia... e só espero que ninguém tenha conseguido reconhecê-la, porque se colocar a honra da nossa família na boca de todos, farei você pagar muito caro por isso. Diz, e sai do quarto, fechando a porta com um estrondo. Fico tremendo. Talvez eu o tenha irritado, mas é o melhor. Vê-lo compassivo me enfraquece, me faz baixar a guarda. Preciso encontrar a minha filha, mas não posso confiar em Alex. Usará tudo isso para pedir o divórcio ou me deixar sem um dólar. Os dias passam e o desespero me devora. Sem notícias da minha família nem da minha filha, temo que, se a doença dela for real, não chegue a tempo de salvá-la. Não há como contatá-los. Cada chamada sem resposta é mais um golpe. Graças à minha amiga gênio em cibersegurança, consegui recuperar o meu projeto, embora incompleto. A junta decidiu que Alex e eu trabalhemos juntos, para fúria de Helena e Clara. Desde aquele dia, Alex e eu não trocamos uma palavra. Prefiro assim a vê-lo investigando o meu passado. Se quiser saber quem sou, que pesquise, como certamente fez o pai dele. Na volta para casa, dividimos o carro. O silêncio é espesso. De repente, o telefone dela toca. Um número desconhecido. Atenda. Vejo o seu rosto se tensionar enquanto ele escuta. Não pergunto. Eu também tenho os meus segredos. Contratei um detetive particular para encontrar a minha filha. Quando ele desliga, os seus olhos se fixam nos meus, buscando respostas. — Por que você contratou um detetive particular, Sofia? Ele pergunta, com aquela calma perigosa. — Deixe-me em paz, Alex. Não te convém me seguir. Você não quer saber. Exclamo, olhando pela janela, incapaz de sustentar o olhar dele. — Sei que há muitos segredos em você, Sofia... e juro que os descobrirei um por um. Ele ameaça. — E o que você fará quando souber? Vai me botar na rua sem um dólar? Tenho certeza de que você não vê a hora de encontrar algo que lhe permita se divorciar de mim. Atiro, ferida. — Você é assim desconfiada com todo mundo? Ele pergunta com ironia. — Não confio em ninguém... aprendi a fazer isso. Respondo, taxativa. Ele suspira, e a sua voz m*al muda, como um eco que não esperava. — Tomara que um dia você entenda que... eu não quero te machucar. Ele sussurra. Ele se vira para a janela, ignorando-me. Eu fico imóvel, atônita diante dessas palavras. Algum dia eu poderia confiar os meus segredos a ele? Não sei. Talvez fazê-lo seria trair a mim mesma. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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