Capítulo 05

1463 Words
CAPÍTULO — Mariana Narrado por Mariana Eu estava sentada no meu cantinho preferido da sala, a janela aberta deixando a brisa da tarde entrar, enquanto eu revisava uns relatórios do trabalho. Meu home office sempre foi meu refúgio — organizado, silencioso, cheio de plantinhas que eu mesma escolhi e cuidei. Um contraste gigante com a bagunça mental que às vezes insiste em tomar conta de mim. Mas hoje, apesar do dia cheio, meu coração estava leve. Meu irmão tinha dito que vinha me ver. E quando o assunto é Juninho… eu sempre fico feliz. Eu e ele somos ligados de um jeito que não dá pra explicar com uma frase. Somos irmãos por parte de pai, mas somos mais que isso. Somos o que sobrou um do outro. Somos história, somos lembranças, somos a metade que não deixou a outra se perder totalmente. Quando minha mãe morreu, o mundo ficou meio sem cor. E quando meu pai morreu anos antes, eu senti como se fosse um corte fundo demais, mas que eu consegui costurar aos poucos porque tinha minha mãe comigo. Mas perder ela… foi como se o chão acabasse. E mesmo assim, eu fiquei de pé. Porque tinha o Juninho. E ele tinha a mim. Olhei para o relógio. Ele sempre chegava cedo. Às vezes batia na porta antes mesmo de dar a hora combinada. Outras, subia as escadas do prédio cantando funk baixo só pra eu saber que era ele. Às vezes aparecia de surpresa, dizendo que “tava passando por aqui” quando claramente veio só pra me ver. Esse é meu irmão. Um pé no perigo e outro no meu mundo. Uma vida inteira no morro, mas com o coração dividido entre lá… e aqui. Eu sempre fico preocupada com ele. Não importa quantas vezes ele diga que tá tudo bem, que ele se garante, que o Vitinho tá com ele… eu sei o que aquele mundo cobra. Eu sei porque vivi parte dele quando criança, quando meus pais estavam juntos. Sei pelo olhar dele quando chega cansado. Sei pelo jeito como ele fica mais atento quando está na rua, como se todo movimento fosse um risco. E, mesmo assim, ele sempre faz questão de me trazer leveza. Eu levantei quando ouvi o toque na porta. Ele sempre toca duas vezes, rápidas, e depois dá um chute leve de brincadeira. Quando abri, lá estava ele: sorriso aberto, camisa larga, corrente no pescoço, cabelo alinhado, e aquele jeito de “entrei e já sou da casa”. — E aí, princesa da Zona Sul? — ele brincou, já entrando e beijando meu rosto. — Tá viva? — Tô, né? Diferente de você que parece que vive correndo de tiro — provoquei, fechando a porta. Ele riu alto. — Para de graça, Mari. Cê sabe que eu tô suave. Sentou no meu sofá como se fosse dono da casa, abriu minha geladeira sem pedir, pegou água gelada e voltou. — Você podia, pelo menos uma vez na vida, agir como visita — reclamei fingindo irritação. — Eu sou visita nada. Aqui é minha segunda casa — ele respondeu, batendo no peito. E realmente era. Ele olhou ao redor, como sempre faz, checando se tá tudo certo, se eu tô bem, se tem algo faltando. Ele nunca diz isso em voz alta, mas eu aprendi a ler o silêncio do meu irmão. Ele observa, entende, e age. — Tá com cara de cansada… — ele comentou, me encarando. — Só trabalhei demais hoje. Nada novo. — Cê tem que descansar mais, Mari. Fica nesse computador aí o dia todo, depois fica com dor de cabeça. — Ele me deu aquele olhar de quem quer cuidar, mas sem parecer controlador. — Eu tô bem — garanti. Ele se recostou no sofá e suspirou fundo, e eu já sabia que aquilo significava que ele tinha coisa pra falar. Juninho não fala muito sobre sentimentos. É fechado, aprendeu a vida toda a engolir coisa. Mas comigo… ele fala um pouco mais. Só um pouco. — Vitinho tá pegado lá, os caras tão armando umas parada errada aí. Mas tá tudo sob controle — ele disse, como se fosse uma frase leve, mas não era. — Eu sempre fico com medo, Ju — confessei. — Não de você… mas do que o mundo pode te fazer. Ele ficou em silêncio um tempo. Silêncio de quem não quer preocupar, mas também não sabe mentir pra mim. — Eu aprendi a me virar — respondeu. — E tenho o Vitinho. Ele não deixa nada acontecer comigo. Eu sabia. E, ao mesmo tempo, aquilo me deixava dividida. Eu tinha medo daquele mundo, mas também tinha gratidão por ele. Porque foi lá que meu irmão encontrou um lugar quando não tinha nenhum. Foi lá que ele virou alguém. Ganhou respeito. Ganhou força. Ganhou família. — Mas chega desse papo — ele disse, mudando de assunto. — E você? Como cê tá? Tá comendo direito? Dormindo? Já saiu de casa ou ainda vive trancada igual freira? — Eu saio sim… às vezes. Ele arqueou a sobrancelha. — Às vezes quando? Semana passada? No ano passado? Revirei os olhos. — Eu trabalho muito, Juninho. E também… eu não tenho muita companhia. Ele ficou sério por um instante. — Mari… você tem que viver. De verdade. A mãe sempre falou isso pra você. Minha vontade de chorar veio, mas engoli. Minha mãe fazia falta em tudo. Nos meus dias bons e nos ruins. Era como se o apartamento ainda tivesse o cheiro dela, mesmo depois de um ano. — Eu sei. Só… ainda dói. Juninho se aproximou e passou o braço por cima dos meus ombros, me puxando pra encostar nele. — Dói em mim também, Marizinha. Mas a gente tá aqui, tá? Sempre vai tá. Eu encostei minha cabeça no ombro dele. Era tão bom ter o Juninho. Ele tinha aquela energia que acalmava. Mesmo vivendo o caos, ele trazia paz. Era estranho, mas real. — Ah, tenho fofoca — ele disse, quebrando o clima pesado. — O que foi agora? — A Layla tá com ciúme de tu. — Ciúme? De mim? — Aham — ele riu. — Disse que eu venho muito aqui e não fico tanto tempo com ela. — Claro que não fica tanto tempo, ela mora no meio do seu corre, Juninho. Ele ficou vermelho. Juninho. Vermelho. Eu arregalei os olhos. — O quê? — perguntei. — O que foi isso? — Nada — ele desviou o olhar. — Juninho… Ele passou a mão no rosto, nervoso. — A Layla é especial, Mariana… mas esquece isso. Não posso nem… — Ele suspirou forte. — O Vitinho matava eu se soubesse que eu penso nela desse jeito. Meu queixo quase caiu. — Então você pensa nela… Ele fechou o olhos, já arrependido de ter falado. — Mari, esquece isso. Sério. É errado. Ela é nova. É irmã do Vitinho. E eu… eu não posso trazer ela pro meu mundo. — Mas você já sente. Silêncio. Um silêncio cheio de verdade. — Eu vou te falar uma coisa — respondi com cuidado. — A Layla sempre gostou de você. Ele travou. Engoliu seco. — Não fala isso, Mariana. Não bota coisa na minha cabeça. — Eu não tô colocando. Só tô dizendo a verdade. Ela sempre teve um brilho diferente quando falava de você. Ele esfregou o rosto. — Isso não pode acontecer. — Mas já acontece, Juninho. Vocês dois só fingem que não. Ele levantou, inquieto, andando pela sala. — Eu não vou complicar a vida dela. A Layla já passou coisa demais. E o Vitinho confia em mim pra c****e. Eu nunca trairia isso. — Amar alguém não é trair — rebati. Ele parou. Me olhou. O olhar de um homem dividido entre a lealdade e o coração. — No nosso mundo… às vezes é. O peso da frase ficou no ar. Eu respirei fundo e decidi mudar o clima. Ele já estava cheio de problema demais pra carregar mais um. — Quer comer o quê? Eu fiz lasanha. Ele abriu um sorriso na hora. — Aí sim, hein! Minha irmã é braba! Rimos juntos. Porque a vida era isso entre a gente: dor, verdade, confusão… e momentos leves. Juninho se jogou na cadeira da mesa como se fosse dele, começou a encher o prato como se não comesse há dias, falando alto, rindo, gesticulando, sendo ele mesmo. A minha casa, por algumas horas, parecia mais viva quando ele estava aqui. Eu olhava pra ele e sabia: Não importa o quanto o mundo mude. Não importa quem entre ou saia das nossas vidas. Não importa os perigos, as escolhas, o destino. Eu e Juninho sempre vamos ter um ao outro. E isso… é tudo pra mim.
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