capítulo
Eu sempre fui um homem completamente apaixonado pela minha mulher.
Meu nome é Ryan. Eu e Jennifer construímos nossa vida juntos. Foram dezoito anos de casamento, de cumplicidade, de risadas, de sonhos realizados. Ela foi o amor da minha juventude, da minha vida adulta... e eu tinha certeza de que seria também o amor da minha velhice.
Sempre fui um homem louco pela minha família.
Jennifer era uma mulher maravilhosa. Magrinha, dona de longos cabelos lisos castanhos e de um sorriso capaz de iluminar qualquer dia r**m. Formada em Design, ela fazia tudo com delicadeza. Eu, por outro lado, escolhi viver no perigo. Sou bombeiro, especialista em resgate. Piloto aviões, helicópteros, lanchas... e sempre fui reconhecido como um dos melhores da minha área.
Mas nenhum resgate, nenhuma medalha e nenhuma missão significavam mais para mim do que voltar para casa.
Nossa família era meu maior orgulho.
Clarisse, minha primogênita, meu xodó de quatorze anos.
Letícia, minha menina grudenta, com treze anos, que nunca perdia a chance de me abraçar.
E Diego, meu caçula de apenas nove anos, meu parceiro para todas as aventuras.
Todo dia era igual... e eu amava essa rotina.
Assim que eu estacionava o carro, a porta se abria antes mesmo de eu colocar a chave na fechadura.
— Papai!
Os três corriam em minha direção, me abraçando ao mesmo tempo. Eu ria alto enquanto distribuía beijos em cada um deles.
E então meus olhos encontravam ela.
Jennifer.
Parada na cozinha, sorrindo para mim como se ainda estivéssemos no primeiro ano de namoro.
Eu caminhava até ela sem pensar duas vezes, segurava sua cintura e a puxava para perto.
Depositava um beijo apaixonado em seus lábios.
Ela sorria entre o beijo e sussurrava no meu ouvido:
— Ryan... desse jeito você vai acabar sendo pai de novo.
Eu ria.
— Não é uma má ideia, sabia?
Ela dava um tapinha no meu peito e balançava a cabeça.
— Você é um bobo. Vai tomar banho. O jantar já está quase pronto.
Eu apenas sorria, roubava mais um beijo e seguia para o banheiro.
Atrás de nós, as crianças observavam tudo.
Clarisse ria.
— O papai é completamente apaixonado pela mamãe.
Eu voltava alguns passos, abraçava Jennifer por trás e apoiava o queixo em seu ombro.
— Ryan... — ela dizia, rindo.
Eu beijava seu pescoço com carinho e olhava para os nossos filhos.
— Nunca se esqueçam de uma coisa... A mãe de vocês e vocês três são a minha vida. Tudo o que eu faço é por esta família.
Naquele momento, eu realmente acreditava que nada seria capaz de destruir a felicidade que construímos.
Eu estava completamente errado.
Naquela noite, como em tantas outras, descemos juntos para jantar.
Jennifer havia preparado a comida favorita das crianças. A mesa estava cheia de risadas, conversas e brincadeiras.
— Papai, amanhã você vai estar em casa? — Diego perguntou enquanto tentava cortar o bife sozinho.
Sorri para ele.
— Se não aparecer nenhuma emergência, vou estar. Prometo que a gente joga bola no quintal.
— Promessa de bombeiro? — ele perguntou, estendendo o dedinho.
Eu ri e entrelacei meu dedo no dele.
— Promessa de bombeiro.
Clarisse revirou os olhos, divertida.
— Vocês dois são iguais.
Letícia apoiou o rosto nas mãos.
— Papai, sábado você pode me levar para comprar um vestido? Vai ter a festa da escola.
— Claro que posso, princesa.
Jennifer me observava em silêncio, com aquele sorriso calmo que só ela tinha.
Depois que as crianças terminaram de comer, correram para a sala.
Ela começou a recolher os pratos, mas segurei sua mão.
— Deixa isso para depois.
— Ryan...
— Vem cá.
Aproximei-a novamente e beijei sua testa.
— Obrigada por cuidar da nossa família enquanto eu estou trabalhando.
Ela acariciou meu rosto.
— E obrigada por sempre voltar para casa.
Sorri.
— Sempre vou voltar.
Ela me olhou por alguns segundos, como se quisesse guardar aquele momento para sempre.
— Promete?
Segurei seu rosto entre as mãos.
— Eu prometo.
Naquela mesma hora, meu celular tocou.
O sorriso desapareceu do meu rosto ao ver o visor.
Central de Resgate.
Atendi imediatamente.
— Capitão Ryan falando.
Do outro lado da linha, a voz do operador saiu rápida e tensa.
— Acidente de grandes proporções na BR. Ônibus de passageiros e caminhão-tanque. Há vítimas presas nas ferragens e risco de explosão. Precisamos da equipe aérea imediatamente.
Fechei os olhos por um instante.
O dever me chamava outra vez.
Jennifer já sabia. Só pelo meu olhar, ela entendeu.
Aproximou-se, ajeitou a gola da minha farda e sorriu, mesmo preocupada.
— Vai salvar mais vidas.
Assenti.
Beijei sua testa.
Depois beijei cada um dos nossos filhos, que correram para me abraçar antes que eu saísse.
— Eu amo vocês.
— Também te amamos, papai! — responderam os três ao mesmo tempo.
Antes de fechar a porta, olhei mais uma vez para minha família.
Jennifer estava cercada pelas crianças, acenando para mim.
Sorri de volta.
Sem imaginar que aquele seria o último momento em que veria minha família reunida e feliz.