DIEGO NARRANDO
Acordei com o som abafado de alguma música pop vindo do quarto ao lado.
Provavelmente o Henrique.
Meu irmão mais novo acredita que ouvir música no último volume às sete da manhã é uma forma aceitável de existir. E como minha casa ainda não ficou pronta, estou de volta ao meu antigo quarto, na casa dos meus pais. Com 30 anos nas costas, dois diplomas, uma clínica particular a caminho de crescer… e dividindo banheiro com dois adolescentes. Ótimo começo.
— Diego, o café tá pronto! — gritou minha mãe lá da cozinha.
Levantei devagar, ainda sentindo a tensão nos ombros. Meu corpo está bem, mas minha cabeça… ela carrega peso demais ultimamente.
Vesti minha polo branca, calça jeans escura e passei a mão pelo cabelo. Olhei no espelho e ajeitei os óculos no rosto. Não é vaidade, é instinto profissional: um médico sempre precisa parecer em paz, mesmo quando está um caos por dentro.
Desci as escadas tentando não tropeçar em nada — com dois irmãos adolescentes, nunca se sabe o que pode estar no caminho.
— Dormiu bem, filho? — perguntou meu pai, sem tirar os olhos do celular.
— Dormi. Dentro do possível.
— Vai direto pra clínica ou pro posto?
— Hoje fico no posto até o fim da tarde. A Dra. Cláudia me passou todos os exames acumulados do feriado. Tô ferrado.
Minha mãe colocou uma caneca de café na minha frente. Eu agradeci com um sorriso.
— E depois do posto? — ela perguntou, como quem já sabe a resposta.
— Cristian me chamou pra um churrasco. Disse que vai ter bastante gente.
— Gente ou alguém?
Revirei os olhos. Essa mania das pessoas acharem que todo homem recém-separado tá desesperado por um novo amor.
— Mãe… é só um churrasco. Com amigos. Relaxa.
— Eu só acho que você precisa se distrair. A vida não acaba porque alguém te machucou.
Meu pai ergueu os olhos do celular por um segundo. Parecia querer concordar, mas preferiu manter a neutralidade. Como sempre.
Terminei o café em silêncio. Peguei minhas coisas e saí. No caminho até o posto de saúde, passei por alguns rostos conhecidos. Jardins é assim: cidade pequena com ar de cidade média. Trinta mil habitantes e a sensação de que todo mundo conhece todo mundo.
Estacionei ao lado do prédio principal e caminhei até a entrada do Posto Central.
Logo ao lado da esquina, havia um salão charmoso, com fachada de vidro e letreiro delicado em tons de rosa e branco. "Elena Martins | Estética Avançada".
Já tinha reparado ali antes, mas hoje… algo me fez olhar mais demoradamente.
Vi uma mulher de costas, cabelo longo e liso, r**o de cavalo bem preso no alto. Jaleco rosa claro marcando a cintura fina. Ela falava com outra moça, sorria… com calma.
Não sei por quê, mas houve algo naquela imagem que me prendeu.
Uma mulher firme. Profissional. Bonita.
Mas era mais do que isso.
— Diego! — ouvi meu nome e me virei.
Era Fernanda, enfermeira-chefe do setor. Me aguardava com a prancheta na mão e uma expressão de leve pânico.
— Tá tudo bem? — perguntei, ajustando a pasta no ombro.
— Temos vinte e seis exames agendados até as quatro da tarde. Três grávidas já chegaram nervosas.
— Maravilha. Vamos lá então.
Entrei com ela, tentando afastar a imagem da mulher da esquina da minha mente. Mas era como tentar apagar um perfume que ficou grudado na memória sem nem saber de onde veio.
Passei a manhã inteira em atendimento. Ultrassons abdominais, obstétricos, de tireoide… todos os tipos. Os pacientes se revezavam. As histórias também. Umas tocantes, outras pesadas. Algumas, absurdas. Mas é assim que é o SUS. Quem tá aqui… é porque precisa.
Por volta das 13h30, entrei na pequena copa do posto pra um café rápido. Meu celular vibrava com mensagens no grupo dos “Sobreviventes do Fim de Relacionamento” — nome que Cristian criou depois do meu término.
Cristian: “Hoje tem vinho, picanha e mulher bonita.”
Cristian: “Aliás, bonita não. Elena.”
Cristian: “Já agradeceu por eu ser seu amigo?”
Eu: “Elena?”
Cristian: “Você vai entender quando vir. Só não estraga tudo com esse seu ar de médico traumatizado.”
Suspirei. Claro. Ele estava planejando isso desde o começo.
Voltei ao trabalho tentando focar nos exames e não na expectativa estranha que crescia no meu peito.
No fim da tarde, quando me despedi da equipe e saí do posto, a luz dourada do pôr do sol batia de frente na fachada do salão da esquina. Lá estava ela de novo, agora em pé na porta, conversando com outra cliente.
Ela cruzou os braços, riu de algo, e virou de leve o rosto para o lado.
Quase me viu. Quase.
Mas eu desviei o olhar antes.
Por quê, eu não sei. Talvez por orgulho.
Ou medo de descobrir que essa mulher da esquina…
Vai acabar mexendo com algo em mim que eu ainda não estou pronto pra sentir.
___Capítulo 3 – ELENA narrando: Ela se preparando para o churrasco na casa de Marina e Cristian… ainda sem saber quem é o tal "Diego" que vai estar presente.