Capítulo 04

1213 Words
- Onde.... Onde, você. - Elizeu apontou para a porta do quarto. - Eu? - Nadine o sentou na cama. - Eu tenho de sair. - Não! - A voz dele saiu misturada a saliva excessiva. - Você... não. Nadine estava cansada de um dia inteiro de trabalho com ele, e ainda tinha de ir para a faculdade de noite. Ia desconversar, até sentir o beliscão no braço. Elizeu fazia tanta força que o rosto estava vermelho. Ela podia apenas se soltar, e deixá-lo nas mãos do pessoal da igreja, que vinha ajudando durante aquele ano. A verdade é que Nadine estava tão amargurada que espalmou a mão no rosto do pai. A recolheu rapidamente. Era tarde, não podia voltar atrás. Rafael tomou chá de sumiço, e ela estava bem feliz com isso. Ficar apanhando do pai a vida toda não era um dos planos dela. - Escuta aqui, - Ela aproximou o rosto dele. - Nunca mais vai me bater. Eu não sou a minha mãe que apanhou a vida toda. Pensa que eu não sei que matou a minha mãe de tanto surra-la? Ferrou com a mente dela até que Cristina morreu, louca e depressiva. Eu não sou ela. Então começa a me respeitar. Afinal, o inferno aceita velhos também, e eu posso muito bem errar a quantidade de remédios. Nadine o deixou sentado na cama e saiu do quarto, tinhas os olhos cheios de lágrimas por falar o que sabia sobre a mãe depois de tantos anos. O pior de tudo, foi que ela não se sentia culpada por estapear o pai. Na verdade, sentia um alívio enorme e uma vontade louca de rir. (***) Jà era o segundo ano de faculdade, Nadine nunca mais levou um beliscão sequer do pai, mas não ficou impune. Sempre que podia, Elizeu dava um jeito de arremessar alguma coisa nela. Principalmente o que estivesse comendo. Para o desespero dela, ele também conseguiu recuperar a fala e começava a se mover pela casa com a ajuda de um andador. - Fui mandada embora. - Nadine respirou fundo, tentando conter os olhos que ameaçavam transbordar. - Mas a Kelly dizia que você era uma funcionária ótima. - Eu sei. - Ela respondeu a amiga. - É que ela vai embora do Brasil. O consultório vai ficar muito tempo fechado. Não sei como vou custear a faculdade, Amanda. - Seu pai tem parte com d***o. Deve ter cochichado no ouvido da sua patroa. - Devem ser irmãos. - Nadine diminuiu os passos ao dobrar a rua de casa. - Queria que você estivesse aqui. - Eu também, Na. Na verdade, queria que você estivesse aqui, é tão satisfatório ajudar o próximo. Ia adorar as crianças Africanas. - Um dia, quem sabe. Bem, cheguei em casa, tem um carro estranho parado aqui, deve ser algum enfermeiro novo, ou sei lá, alguém da igreja. Se cuida, Amanda. Me manda fotos. - Pode deixar. Se cuida você também. Amanda havia largado a faculdade, disse para Nadine que embarcaria em uma missão. E lá estava ela, vivendo. -"Todo mundo vive, menos eu." - Nadine pensou, com desgosto. Nadine encerrou a ligação, jogou o celular na bolsa e passou pelo portão. Estava cansada e já era um tanto tarde, e não era ninguém conhecido. Talvez o pai estivesse morrendo de vez, ou só fosse um m*l-estar, de vários outros. Ou fosse somente uma visita. Nadine passou pelo pátio ouvindo vozes, a porta da frente estava meio aberta, e pela pouca visão, ela sentiu o peito afundar. Reconhecia a mulher sentada na poltrona, calada e diminuta como sempre. Empurrou a porta com a respiração presa. - Rafael? O que faz aqui? Rafael se levantou, naqueles poucos anos havia mudado um pouco. O corte de cabelo, a magreza que já não era a mesma, e o estilo dos óculos. Parecia até mais bonito, como se isso fosse possível. Ele também paralisou, percorreu todo o corpo dela e parou no olhar que sempre achou marcante. Nadine estava bem mais encorpada, séria e não desviou o olhar, manteve o queixo erguido. O cabelo ainda era enorme e brilhoso. Se ele não fosse apaixonado por ela no passado, agora se via louco. - Na. - Foi tudo o que disse. - Voltamos. - È. - Ela concordou. - Estou vendo. - Deslizou os olhos para vê-lo também sem a aliança. - Veio visitar meu pai? - Sim. - Ele sorriu, sem graça. - Mas eu também queria falar com você. - Na boa, Rafael, estou cansada para discutir o que já não temos mais. Pode voltar amanhã. - Mas.... - Deixa ela, filho. - Maria segurou o ombro do filho. - Está tarde, precisamos descansar. Acredito que a irmã Nadine vai precisar de um tempo. Amanhã você volta só, e conversa com ela. - Obrigada, Maria. - Nadine sentiu o olhar carinhoso da mulher. - Me desculpa pela forma como foram tratados, voltem amanhã, preparo um almoço e depois vejo o que o Rafael tem a dizer. Rafael concordou, embora tenha usado a voz calma a macia, havia algo novo nos olhos dele que deixava Nadine inquieta. Rafael era calculista, não dava um passo em falso. A família se foi, e Nadine lembrou que ele tinha uma irmã mais nova. Como todas as noites, ajudou o pai a se trocar, medicou e o colocou na cama. - Boa noite, pai. - Nadine o ajeitou sob a coberta. - Nadine. - Elizeu proferiu, com a voz embolada. - - Boa noite, pai. - Ela o encarou. Elizeu manteve o olhar frio na filha, a mão trêmula apertava próximo ao pulso. - O que foi? Rafael quer alguma coisa? Ele somente negou, se acomodou na cama e fechou os olhos. Nadine pouco dormiu, teve sonhos estranhos envolvendo o irmão, polícia, e por fim, sonhou com Rafael na frente da igreja, sorrindo para as chamas altas que a envolviam. Acordou antes da sete, se levantou e se ocupou com a casa. Enquanto preparava o almoço pensou em tudo o que Rafael já fez, ou o que nunca fez. Quando deu por si, estava sentada na sala, ouvindo Maria contar sobre a morte de Durval, sustentando a mesma mentira do câncer. - Não vi a sua outra filha. Onde ela está? - Bem, a Bruna. - Ela deu um olhar estranho para o filho. - Está estudando fora. Sabe como é. - Eu sei. - Nadine sorriu. Não acreditava naquela conversa. Almoçaram ouvindo o testemunho de Elizeu, sobre como venceu a morte e pretendia voltar a liderar a igreja. - Depois que o Durval se foi, fiquei responsável pelo grupo de jovens. - Elizeu disse. - Com o seu retorno, entendi como um sinal. Veja bem, você é jovem, e voltou com uma bagagem grande de experiências boas. Se concordar, passará a liderar os jovens, como o seu pai fazia. - Eu... - Rafael abaixou os olhos. - Nem sei o que dizer. É uma honra, e uma responsabilidade. Preciso acertar algumas coisas antes, se tudo for como desejei todo esse tempo, posso me preparar para isso. - Tome o tempo que precisar. Após o almoço chegou o momento em que Nadine tanto temeu. - Vamos conversar longe daqui, Na. Tenho algumas coisas para te contar. Pode ser? - Claro.
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