- Meu pai dizia ter uma missão. Resgatava meninas das drogas e prostituição. Minha mãe o admirava por isso.
- Sem saber a verdade. - Nadine cruzou os braços na frente do corpo. - Não minta para mim, Rafael. Eu ouvi a conversa do meu pai.
- Eu sei. - Ele concordou. - Meu pai estava envolvido com elas. Acho até que ganhava um dinheiro com isso. Acabou se envolvendo carnalmente e deu no que deu. Fiquei em São Paulo depois que a Bruna teve um surto.
- Surtou porque descobriu a safadeza do seu pai?
- Não, Nadine. Isso era evidente. Ela surtou quando a nossa mãe descobriu que também foi infectada. Ficamos todo esse tempo correndo com todos os tipos de tratamentos para ela, e para a Bruna, procuramos ajuda psicológica. Descobri a minha vocação. Estudei sobre tudo, curei as minhas feridas internas, e agora estou aqui, de volta para você.
- Você é um homem maduro, ficamos esses anos sem nos ver. Nem achei mais que te veria.
- Poderia ter voltado e exigido o nosso namoro de volta, mas me diz? Quando foi que te obriguei a algo? No começo, achei que estava cumprindo meu papel no acordo dos nossos pais. Passei a te respeitar, e quando me disse que queria estudar, lhe dei espaço. - Nadine nada disse. Rafael nunca passou em cima de alguma decisão dela. Embora tivesse os olhos de rapina. - Eu vim refazer a nossa relação. Como dois adultos.
- Eu não sei. - Ela o encarou. - Agora eu tenho o direito de escolher o que quero.
- E escolheu ficar cuidando do seu pai, sem se relacionar com outros homens. Está estampado na sua face. Vamos, Na. Amor a gente conquista com o tempo.
Nadine não aceitou de imediato. Voltou para a casa, pensativa. Nos dias que se passaram acompanhou o pai até a igreja, frequentou as aulas da faculdade e ligou para a amiga. Nas noites ligava o celular, e mesmo prometendo que nunca mais o ligaria, lá estava ela, esperando pela resposta do irmão. Que nunca veio.
Rafael se aproximou aos poucos. Primeiro, veio orar por Elizeu, depois, passou a levá-lo para a igreja, e em reuniões em que ele frequentava. Também era paciente com Nadine. Ajudava com os deveres da casa. Maria, nunca mais deu as caras.
Era um final de tarde. Elizeu acabou dormindo na sala, enquanto assistia a uma entrevista. Nadine foi até a cozinha e começou a organizar a louça.
- Ele está piorando. - Rafael parou ao lado dela. - Hoje me confundiu com meu pai.
- Ele tem altos e baixos. Por isso tento evitar que apresente o culto. - Ela deu de ombros. Não sentia absolutamente nada. Nem mesmo pena.
- Na. - Rafael pousou a mão em cima da mão dela, obrigando-a a parar com a tarefa de lavar os pratos. - Em todos esses anos nunca deixei de pensar em você. Usei a aliança e dizia que tinha uma noiva linda.
- E vai me fazer acreditar? Não tenho mais quinze anos. E também não fico presa em casa. - Ela o encarou.
- Eu sei. Para mim ainda é a mesma Nadine. - Rafael ergueu a mão e tocou a nuca dela. - Não tenho motivos para mentir. Olha, começamos de uma forma torta, e a verdade é que precisei de um tempo longe, para descobrir o que quero.
- E o que você quer?
- Você. Quero me casar com você.
- Rafael, não posso. - Ela desviou os olhos dele. - Agora estou a um passo de acabar a faculdade. Tenho um emprego legal, e, sonhos.
- Eu também tenho, Na. Quanto a isso não se preocupe, vai poder ter a sua carreira, e tudo o que desejar. Só peço que me aceite de volta. Por sua conta própria.
Nadine o olhou nos olhos novamente, não podia dizer que não sentia nada. Sentia carinho, e pela experiência nula, achou que amor começava assim. Não viu a aparência dele, ou os olhos estranhamente frios. Soltou a buchinha que segurava e aceitou de bom grado o beijo.
O primeiro beijo que deu em alguém. Rafael enfiou a língua na boca dela e a puxou para si, apertando-a contra o m****o rígido. Nadine tentou se afastar, mas ele continuou, apertando-a contra si, movendo o quadril no ventre dela.
- Rafael, não. - Nadine se afastou minimamente.
- Somos adultos. - Ele cravou os olhos estranhos nela.
- É errado. - Nadine espalmou as mãos no peito dele. - Ainda vou a igreja em todos os finais de semana. Isso é errado.
Rafael a soltou, andou pela cozinha e parou de costas para ela, controlava a respiração.
- Me desculpa. Você tem razão. É uma mulher coerente. Eu é que me deixei levar pelo momento. Me desculpa mesmo, é que sempre sonhei com esse dia. Em que sentisse a sua entrega. Sou um homem.... Bom, vou embora. Por favor não desista de mim.
(***)
Elizeu piorou ainda mais a forma de tratá-la em casa. Voltou a berrar xingamentos contra ela, a mãe e Luciano. Gritava tanto em casa que os vizinhos chegaram a chamar a polícia. Nadine poderia ter saído de casa, trabalhava, tinha um salário que dava para custear um apartamento de um quarto. Mas estava tão quebrada, que se segurava nas migalhas de atenção que recebia do pai.
Todas as noites orava pela alma da mãe, e também de Luciano, seja lá onde estivesse. Ou pela redenção do pai, enquanto houvesse tempo. Voltou a receber as visitas de Rafael, e passou a ser mais compassiva também.
As conversas, renderam alguns beijos, ou carícias. E no fim de alguns meses, ela aceitou recomeçar o relacionamento.
Rafael não ganhava muito mais, e Nadine estudava bastante.
Acabou a faculdade e mais uma vez não teve a tão sonhada festa de formatura. Na volta para casa descobriu que Rafael havia planejado uma festa de noivado. Outra vez deslizou a aliança de ouro pelos dedos. E outra vez sentiu aquele mesmo vazio engoli-la.
Enquanto Nadine conversava com algumas pessoas da igreja, Rafael se aproximou sorrateiramente do futuro sogro.
- Quanto tempo ainda tenho?
- Não sei. Dias, semanas, até anos. Você precisa fazê-la casar o quanto antes, para assinar os papéis. Antes que aquele bastardo conte a novidade, e a verdade.
- Vamos nos casar, Elizeu. E você vai cumprir a sua parte do acordo.
- O terreno onde a igreja está construída, as duas casas e o dinheiro que aquele infeliz deixou para ela. Tudo será seu. Quer mais o que?
- Ela. Eu quero ela. - Apontou com o queixo para Nadine.