Senti o impacto daquela revelação antes mesmo de compreender a gravidade da situação.
— Marconi? — murmurou.
Meu coração disparou, mas não tive tempo de pensar. Os tiros continuavam vindo, sem parar, sem piedade, estraçalhando a madeira e o reboco das paredes ao nosso redor.
— TIRA TODO MUNDO DAQUI! — Matador rugiu, assumindo o controle imediatamente, como sempre fazia no meio do caos.
Relíquia correu até a janela, disparando de volta para conter o avanço dos invasores.
— São muitos!
— Quantos? — perguntei, tentando manter a voz firme acima do barulho ensurdecedor.
— Mais do que eu gostaria! — Ótima resposta. Péssima notícia.
Me arrastei pelo chão poeirento até onde Caveira estava caído. O sangue continuava escorrendo, tingindo suas roupas e o piso, mas ele ainda respirava. Por pouco.
— Fica comigo — pedi, pressionando o ferimento e segurando a sua mão que já esfriava.
— Raíssa... — a voz dele saiu fraca, um sussurro sufocado.
— Quem é Marconi? — Os olhos dele tentaram focar nos meus, perdidos em meio à névoa da dor.
— Eu...
Outro disparo atingiu a parede logo acima de nossas cabeças, chovendo estilhaços de reboco sobre nós.
— CAVEIRA!
— Ele... — A respiração dele falhou, o peito estagnou e meu coração afundou junto. — Continua!
— Ele não... — E então ele desmaiou.
— MERDA!
Não tinha acabado. Ele não tinha contado tudo, mas tinha contado o suficiente. Porque agora eu tinha um nome: Marconi. E pela forma como Caveira falou, com aquele pavor genuíno nos olhos moribundos, aquele homem era muito mais perigoso do que imaginávamos.
Minutos depois, os atiradores recuaram tão rápido quanto haviam aparecido. O silêncio repentino que se instalou na sala foi quase doloroso. Isso me incomodou. Muito. Porque não parecia um ataque coordenado para matar. Parecia um aviso. E avisos são piores. Muito piores.
Uma hora depois, o cenário ainda era de pura tensão. Caveira estava vivo por milagre; a bala havia atravessado de raspão, mas ele continuava desacordado, e isso me deixava sem respostas. Mais uma vez.
— Já ouviu esse nome? — perguntei, quebrando o silêncio pesado da sala.
Matador ficou imóvel. Imóvel demais. Meu coração acelerou ao notar a rigidez repentina na sua postura.
— Você conhece.
O silêncio dele respondeu primeiro. Depois veio a voz, baixa, perigosa:
— Conheço.
Relíquia virou-se imediatamente, abandonando a vigília na janela.
— Quem é?
Matador fechou o punho com tanta força que as articulações dos dedos ficaram brancas.
— Um fantasma.
Revirei os olhos, com a paciência já no limite.
— Não tô com humor pra enigma.
— Nem eu — ele me encarou, e a frieza no seu olhar me fez dar um passo atrás. — Marconi devia estar morto.
O ar pareceu desaparecer da sala.
— Como assim?
— Porque eu matei ele há oito anos.
Silêncio. Completo. Absoluto.
— O quê?
— Foi a maior guerra que essa favela já viu — confessou Matador. Pela primeira vez desde que o conhecia, ele parecia realmente preocupado. — Eu vi ele cair.
— Então como tá vivo? — Relíquia perguntou.
— Essa é a pergunta.
Meu estômago revirou, porque agora tudo começava a fazer sentido. A prisão, a traição, a operação vazada, os ataques surpresa... tudo. Alguém estava movendo as peças nos bastidores. Alguém inteligente, paciente e extremamente perigoso.
— O que ele quer? — perguntei.
Matador demorou para responder. Tempo demais. Até finalmente dizer:
— Vingança.
Um arrepio violento percorreu a minha espinha.
— Contra você?
Os olhos dele encontraram os meus, carregados de uma promessa sombria.
— Contra todos nós.
Naquele exato momento, um celular começou a tocar. Não era o meu, nem o de Relíquia. Era o celular encontrado na mochila de Caveira. Todos olharam para o aparelho vibrando sobre a mesa, o toque ecoando pela sala como uma contagem regressiva. Uma vez. Duas. Três.
Aproximei-me, peguei o telefone e atendi. Houve silêncio por alguns segundos. Então, uma voz masculina falou. Calma. Fria. Assustadoramente calma.
— Boa noite, Raíssa.
Meu coração disparou contra as costelas.
— Quem é você?
Uma risada baixa, rouca, surgiu do outro lado da linha.
— Finalmente nos conhecemos.
— Marconi?
Outro silêncio torturante. Depois:
— Diz ao Matador que eu voltei para terminar o que ele começou.
Meu sangue gelou instantaneamente.
— Onde você tá?
— Mais perto do que você imagina.
A ligação caiu, deixando apenas o tom de linha ocupada. E quando levantei os olhos, vi algo que nunca tinha visto antes em toda a minha vida: Matador estava com medo. De verdade. E aquilo me assustou muito mais do que a própria ligação.