Falação
📍 Cidade de Deus – Dia seguinte
Raíssa
Acordei com o barulho da rua diferente.
Não era tiroteio, não era sirene — era burburinho.
A favela falando de mim.
De novo.
Levantei da cama e fui direto pra janela. Uma senhora lavava a calçada com a mangueira. Dois moleques de bicicleta passaram cochichando, olhando pra minha porta. Um segurança do Relíquia fez sinal de respeito com a cabeça.
Bruce já tava sentado no sofá, com café na mão e a TV desligada.
— Cê viu, né? — ele soltou, me encarando.
— O quê?
— O Naldo. Já rodou nos grupos do zap. Vídeo dele no chão, gritando, os joelhos sangrando. Voz do povo é só uma:
"Raíssa voltou."
Suspirei, esfregando o rosto. Não era isso que eu queria. Mas também não era como se eu tivesse escolha.
— E tão dizendo o quê? — perguntei, indo até a cozinha.
— Que tu é sangue no olho. Que mexer contigo é pedir caixão. Que o Matador segura o morro, mas quem ainda mete medo é tu.
Ri sem vontade.
— E a Júlia?
— Tá dormindo. Tranquila, pela primeira vez em dias.
Assenti em silêncio.
**
Mais tarde, fui até a padaria.
Não andava nem dois metros sem alguém parar pra comentar.
— “Ô Raíssa, já era hora de botar ordem!”
— “Vi o vídeo, cê é f**a mesmo.”
— “Cadeirante por sua causa! Mulher que mete respeito.”
— “Se fosse comigo, fazia o mesmo, rainha.”
E eu só sorria de canto, agradecia, mas por dentro...
Era como se cada elogio fosse uma corrente me puxando de volta pro trono que eu tentei largar.
**
À tarde, subi pra laje da casa do Relíquia. Ele tava no radinho com um dos vigias, rindo. Quando me viu, desligou.
— Deu bom, hein? — ele disse. — Cê nem precisou falar nada. Tua resposta foi barulho.
— Eu não queria barulho. Só queria proteger a Júlia.
— Aqui não tem como separar uma coisa da outra, Raíssa. Tu pode largar o comando, o fuzil, o radinho...
Mas teu nome, esse ninguém esquece.
Tu é a história viva do morro.
Suspirei, encarando a vista da favela lá embaixo. Crianças jogando bola, mulheres estendendo roupa, uns moleques fazendo rima no portão.
— E se eu quiser só viver? Só isso... viver?
Ele ficou em silêncio por uns segundos, depois respondeu:
— Vai ter que lutar por isso também. Mas dessa vez, é uma guerra diferente.
Mais difícil ainda.
**
Desci a escada com o peso disso nas costas.
Lá embaixo, vi Júlia sentada no degrau, com os cabelos presos e um sorriso leve, como se tivesse começando a respirar.
— O morro todo falando de tu — ela disse, com um brilho nos olhos.
— Que novidade — respondi, sentando ao lado.
Ela pegou minha mão.
— Obrigada por não ter me deixado sozinha.
Apertei os dedos dela.
— Por você, eu volto até pro inferno.
Mas se depender de mim, hoje...
A gente vai ficar aqui.
Na calçada. No silêncio.
Só vivendo.
E pela primeira vez, mesmo com a favela em falação, o que me importava mesmo...
Era quem tava do meu lado.