A paz que não me pertence
📍 Cidade de Deus – Casa da Raíssa, madrugada
Raíssa
Tava tudo calmo demais.
Bruce dormia no sofá, Júlia no quarto. A casa cheirava a lavanda e chá de camomila. Eu estava na cozinha, cortando um pedaço de bolo que uma vizinha tinha trazido mais cedo.
Foi aí que meu radinho vibrou.
— "Raíssa, Raíssa... atenção. Tua amiga tá na porta do bar do Neném. Tem um homem gritando com ela. Tão dizendo que é o Naldo."
O bolo caiu da minha mão antes mesmo do fim da frase.
O sangue ferveu.
Corri até o quarto, abri o armário com força. Lá estava ela, minha velha companheira:
a Glock, carregada e fria.
Pesei ela na mão. Olhei pra minha própria imagem no espelho.
A mulher que tava tentando mudar...
Mas hoje não.
Hoje, alguém mexeu com quem eu amo.
Cheguei no bar em menos de cinco minutos. O Naldo estava gritando no meio da rua, cambaleando, com a camisa aberta e o dedo apontado pra Júlia, que chorava calada, com o olhar fixo no chão.
— É por causa dessa v***a aí que eu perdi tudo! — ele berrava. — Tu achou que ia me tirar do morro, Raíssa? Tu não manda em mim, p***a nenhuma!
Eu me aproximei devagar, com a arma escondida na lateral da jaqueta.
— Eu te avisei, Naldo — falei com a voz baixa, porém firme.
Ele se virou e riu, debochado.
— Vai me matar agora, rainhazinha aposentada?
— Ainda não — respondi.
Mirei no chão.
PÁ!
Um tiro. Ele deu um pulo, os olhos arregalados.
— Responde uma coisa — continuei. — Foi você que bateu nela de novo?
Silêncio.
Ele não respondeu.
PÁ! PÁ!
Dois tiros, certeiros, um em cada joelho.
O grito dele cortou o silêncio da favela. Os curiosos saíram das janelas. Os soldados, já sabiam: quando a Raíssa saca, alguém sangra.
— Isso é pra tu lembrar que o morro tem lei. E que mulher minha, amiga minha, ninguém toca. Ninguém humilha. Ninguém destrói.
Tu quer justiça, Naldo? Vai pedir de cadeira de rodas agora.
Me virei e estendi a mão pra Júlia, que tremia.
— Vem comigo. Acabou.
De volta em casa, lavei as mãos manchadas de sangue e me sentei ao lado dela, passando a mão devagar nos cabelos dela.
— Por que tu não me contou que ele voltou?
Ela chorava baixinho.
— Eu... achei que tu tava feliz. Indo atrás de outra vida. Tive medo de atrapalhar.
— Júlia — falei firme, com a voz embargada. — Tu nunca vai ser um problema pra mim. Eu só tenho a chance de ser feliz porque você segurou minha mão quando ninguém mais segurava a minha.
Ela me abraçou forte, os ombros sacudindo no meu colo.
— Tu é minha irmã. E por ti, eu volto pro inferno, quantas vezes for preciso.
Naquela noite, deitada com a pistola ao lado da cama, eu entendi:
A paz pode ser minha escolha.
Mas a guerra, às vezes, escolhe por mim.