Capítulo 19

507 Words
A paz que não me pertence 📍 Cidade de Deus – Casa da Raíssa, madrugada Raíssa Tava tudo calmo demais. Bruce dormia no sofá, Júlia no quarto. A casa cheirava a lavanda e chá de camomila. Eu estava na cozinha, cortando um pedaço de bolo que uma vizinha tinha trazido mais cedo. Foi aí que meu radinho vibrou. — "Raíssa, Raíssa... atenção. Tua amiga tá na porta do bar do Neném. Tem um homem gritando com ela. Tão dizendo que é o Naldo." O bolo caiu da minha mão antes mesmo do fim da frase. O sangue ferveu. Corri até o quarto, abri o armário com força. Lá estava ela, minha velha companheira: a Glock, carregada e fria. Pesei ela na mão. Olhei pra minha própria imagem no espelho. A mulher que tava tentando mudar... Mas hoje não. Hoje, alguém mexeu com quem eu amo. Cheguei no bar em menos de cinco minutos. O Naldo estava gritando no meio da rua, cambaleando, com a camisa aberta e o dedo apontado pra Júlia, que chorava calada, com o olhar fixo no chão. — É por causa dessa v***a aí que eu perdi tudo! — ele berrava. — Tu achou que ia me tirar do morro, Raíssa? Tu não manda em mim, p***a nenhuma! Eu me aproximei devagar, com a arma escondida na lateral da jaqueta. — Eu te avisei, Naldo — falei com a voz baixa, porém firme. Ele se virou e riu, debochado. — Vai me matar agora, rainhazinha aposentada? — Ainda não — respondi. Mirei no chão. PÁ! Um tiro. Ele deu um pulo, os olhos arregalados. — Responde uma coisa — continuei. — Foi você que bateu nela de novo? Silêncio. Ele não respondeu. PÁ! PÁ! Dois tiros, certeiros, um em cada joelho. O grito dele cortou o silêncio da favela. Os curiosos saíram das janelas. Os soldados, já sabiam: quando a Raíssa saca, alguém sangra. — Isso é pra tu lembrar que o morro tem lei. E que mulher minha, amiga minha, ninguém toca. Ninguém humilha. Ninguém destrói. Tu quer justiça, Naldo? Vai pedir de cadeira de rodas agora. Me virei e estendi a mão pra Júlia, que tremia. — Vem comigo. Acabou. De volta em casa, lavei as mãos manchadas de sangue e me sentei ao lado dela, passando a mão devagar nos cabelos dela. — Por que tu não me contou que ele voltou? Ela chorava baixinho. — Eu... achei que tu tava feliz. Indo atrás de outra vida. Tive medo de atrapalhar. — Júlia — falei firme, com a voz embargada. — Tu nunca vai ser um problema pra mim. Eu só tenho a chance de ser feliz porque você segurou minha mão quando ninguém mais segurava a minha. Ela me abraçou forte, os ombros sacudindo no meu colo. — Tu é minha irmã. E por ti, eu volto pro inferno, quantas vezes for preciso. Naquela noite, deitada com a pistola ao lado da cama, eu entendi: A paz pode ser minha escolha. Mas a guerra, às vezes, escolhe por mim.
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