Capítulo 18

462 Words
A mulher que mora em mim 📍 Cidade de Deus – Casa da Raíssa, 08h da manhã Raíssa. O sol entrou pela fresta da janela e, pela primeira vez em semanas, eu não tampei o rosto. Levantei devagar, sentindo o peso do corpo cansado, mas… diferente. Um tipo de cansaço bom. De quem sobreviveu a mais uma guerra, mas não queria mais outra. Fui até o espelho e me olhei. A maquiagem borrada da noite passada, o cabelo bagunçado, o rosto sério. Mas tinha algo novo ali. Uma vontade de respirar sem olhar por cima do ombro. Na cozinha, Bruce já tava fazendo café, de cueca samba-canção com estampa de super-herói. — Acordou cedo, chefona? — ele brincou, servindo o café. — Não sou mais chefona, Bruce. — falei enquanto sentava à mesa. — Pelo menos… tô tentando não ser. Ele me olhou confuso, mas sem rir. — Tá falando sério? Assenti. — Matador e Relíquia já tão segurando o bonde. Eu vou dar um tempo. Cuidar da Júlia, cuidar de mim. Ir na feira, comprar fruta, sei lá… Ele se encostou na pia, cruzando os braços. — E tu consegue viver sem a adrenalina? Fiquei em silêncio por uns segundos. — Ainda não sei. Mas quero descobrir. ** Mais tarde, saí com a Júlia. Só a gente duas, sem segurança, sem arma na cintura. Fomos até a feira da 18. O cheiro de pastel com caldo de cana, o som das barracas chamando atenção, tudo parecia tão… normal. E eu percebi que fazia anos que não vivia o “normal”. — Tá diferente hoje — ela disse, segurando um maço de couve. — Tô tentando lembrar quem eu era antes de virar o terror da favela — sorri sem mostrar os dentes. Ela riu baixo, com carinho. — Tu sempre foi fogo. Só que agora tá querendo aquecer e não queimar. E aquilo bateu fundo. Mais tarde, deitada no sofá, com uma máscara facial e os pés na água quente, pensei no que eu queria de verdade. Não era um trono. Nem uma coroa. Era paz. Era voltar a dançar sem me preocupar com quem tava vigiando. Era dormir sem o som do rádio no ouvido. Era talvez, só talvez, poder amar alguém sem achar que isso me deixava fraca. Na noite seguinte, fui pra laje ver o movimento. Relíquia tava no rádio. Matador, encostado na parede, só me observando. — Vai aguentar ficar longe da guerra? — ele perguntou, meio sério, meio provocando. — Tô tentando descobrir o que é viver, Matador. Só isso. Ele assentiu. Não insistiu. Não debochou. Apenas olhou pra mim como quem respeita o que vê. Como quem enxerga a mulher antes da lenda. E eu… eu tava finalmente começando a fazer o mesmo.
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