A mulher que mora em mim
📍 Cidade de Deus – Casa da Raíssa, 08h da manhã
Raíssa.
O sol entrou pela fresta da janela e, pela primeira vez em semanas, eu não tampei o rosto.
Levantei devagar, sentindo o peso do corpo cansado, mas… diferente.
Um tipo de cansaço bom.
De quem sobreviveu a mais uma guerra, mas não queria mais outra.
Fui até o espelho e me olhei.
A maquiagem borrada da noite passada, o cabelo bagunçado, o rosto sério.
Mas tinha algo novo ali.
Uma vontade de respirar sem olhar por cima do ombro.
Na cozinha, Bruce já tava fazendo café, de cueca samba-canção com estampa de super-herói.
— Acordou cedo, chefona? — ele brincou, servindo o café.
— Não sou mais chefona, Bruce. — falei enquanto sentava à mesa. — Pelo menos… tô tentando não ser.
Ele me olhou confuso, mas sem rir.
— Tá falando sério?
Assenti.
— Matador e Relíquia já tão segurando o bonde. Eu vou dar um tempo. Cuidar da Júlia, cuidar de mim. Ir na feira, comprar fruta, sei lá…
Ele se encostou na pia, cruzando os braços.
— E tu consegue viver sem a adrenalina?
Fiquei em silêncio por uns segundos.
— Ainda não sei. Mas quero descobrir.
**
Mais tarde, saí com a Júlia. Só a gente duas, sem segurança, sem arma na cintura.
Fomos até a feira da 18. O cheiro de pastel com caldo de cana, o som das barracas chamando atenção, tudo parecia tão… normal.
E eu percebi que fazia anos que não vivia o “normal”.
— Tá diferente hoje — ela disse, segurando um maço de couve.
— Tô tentando lembrar quem eu era antes de virar o terror da favela — sorri sem mostrar os dentes.
Ela riu baixo, com carinho.
— Tu sempre foi fogo. Só que agora tá querendo aquecer e não queimar.
E aquilo bateu fundo.
Mais tarde, deitada no sofá, com uma máscara facial e os pés na água quente, pensei no que eu queria de verdade.
Não era um trono. Nem uma coroa.
Era paz.
Era voltar a dançar sem me preocupar com quem tava vigiando.
Era dormir sem o som do rádio no ouvido.
Era talvez, só talvez, poder amar alguém sem achar que isso me deixava fraca.
Na noite seguinte, fui pra laje ver o movimento. Relíquia tava no rádio. Matador, encostado na parede, só me observando.
— Vai aguentar ficar longe da guerra? — ele perguntou, meio sério, meio provocando.
— Tô tentando descobrir o que é viver, Matador.
Só isso.
Ele assentiu. Não insistiu. Não debochou.
Apenas olhou pra mim como quem respeita o que vê.
Como quem enxerga a mulher antes da lenda.
E eu… eu tava finalmente começando a fazer o mesmo.