No escuro, quem pisca morre
📍 Entrada da favela rival – 03:42 da madrugada
Raíssa
Tudo estava no mudo.
A moto desligada, o rádio no ouvido com volume baixo, e o Matador do meu lado, olhos frios. Eu guiava a moto com ele na garupa, enquanto Relíquia e mais dois seguiam logo atrás em um carro sem placa, faróis apagados. O plano era simples: entrar, pegar a carga escondida no galpão dos "vermelhos" e sair antes da ronda da milícia.
Simples no papel. No morro, nunca é.
Parei a moto perto de um beco. Relíquia encostou o carro e saiu primeiro, olhando ao redor.
— Entrada lateral tá limpa — avisou no rádio. — Bora.
Matador desceu da garupa. Os olhos dele cruzaram com os meus — rápidos, mas intensos.
— Vai pela parte de trás, magrela. Cobre a nossa entrada.
Assenti sem discutir. Eu sabia meu papel, e ele confiava em mim pra segurar as costas deles.
Entrei por uma escadaria m*l iluminada. O lugar fedia a lixo e mijo velho. Um rato passou correndo. Ignorei. Me abaixei atrás de uma pilha de entulho, com a Glock em punho. Consegui avistar dois seguranças dos vermelhos no portão do galpão, distraídos, fumando.
Idiotas.
No fone, a voz de Relíquia veio firme:
— No meu sinal, derruba o da esquerda.
Respirei fundo.
— No três… Um… Dois…
PÁ!
Atirei. Queda limpa. Relíquia acertou o outro. Matador avançou com os dois soldados, rápido e seco. Em segundos, estávamos dentro do galpão. A carga tava escondida atrás de uma pilha de caixas de leite.
— Vinte quilos de fuzil e duas caixas de droga pura — Matador disse, verificando o material. — Missão cumprida.
Só que nunca é tão simples, né?
No momento que a gente começou a se afastar, ouvimos o estalo de uma arma sendo engatilhada.
— p***a! — gritei, me abaixando.
Tiroteio.
Começou com dois tiros e em segundos parecia que o mundo tava caindo. As balas ricocheteavam nas paredes, Relíquia gritava comando, e Matador se esgueirava até o carro com a mochila cheia de carga.
Eu dei cobertura. Atirei sem hesitar. Acertei um, talvez dois. Não dava pra contar. Só dava pra sair viva.
— VAMO! — Matador gritou já no volante do carro, porta aberta.
Corri como se minha vida dependesse disso. Porque dependia.
Entrei no banco de trás, ainda com o dedo no gatilho. Relíquia assumiu a metralhadora montada no teto. Disparou contra quem vinha de moto atrás.
Ratatatatatatá!
As luzes da cidade explodiam em flashes. A adrenalina tava no meu sangue como veneno. Mas a gente conseguiu sair.
Vinte minutos depois, já dentro da Cidade de Deus, a carga foi guardada. Matador saiu do carro, suado, com a camisa rasgada e um corte leve no braço.
— Cê tá bem? — perguntei, aproximando.
Ele sorriu de lado, ainda ofegante.
— Com você do lado, eu sempre tô.
Desviei o olhar, disfarçando o impacto daquelas palavras.
Missão cumprida. Mas dentro de mim, outra coisa começou a pesar:
A vontade de viver sem o fuzil nas costas.