Capítulo 16

638 Words
Fogo contido 📍 Cidade de Deus – Laje do Matador Raíssa O sol já começava a se esconder atrás dos morros, pintando o céu de laranja e roxo. Eu estava encostada no parapeito da laje, observando o movimento lá embaixo, o vai e vem dos soldados, o burburinho da favela. Ele apareceu por trás, o Matador, com aquela caminhada segura que fazia o chão tremer. — Tá pensando em quê? — perguntou, voz rouca e baixa, quase um sussurro. — No mesmo que tu — respondi, sem me virar. Ele chegou perto, tão perto que podia sentir o calor do corpo dele. Um silêncio carregado tomou o espaço entre a gente. O tipo de silêncio que fala mais que mil palavras. — Essa missão vai ser pesada — disse ele, sem tirar os olhos dos meus. — Eu sei — falei, e não pude evitar o sorriso desafiador. — Mas eu tô pronta. Ele deu um passo mais perto, inclinou o rosto como se fosse me provocar, e parou a poucos centímetros. — Pronta pra quê, magrela? — Pra tudo que vem com você. — A voz saiu firme, mesmo com o coração acelerado. Ele riu baixo, um som grave que me arrepiou. Passou a mão no cabelo, depois cruzou os braços. — Gosto desse fogo em você. — E eu gosto do perigo que você representa — retruquei. Ficamos ali, os olhos se falando, o ar carregado de desejo e desafio, mas nenhuma palavra ou gesto que ultrapassasse a linha. Porque essa história era de tensão, de espera, de provocações. Ele se afastou devagar, com aquele sorriso torto que só ele sabe fazer. — Se cuida, Raíssa. A favela não perdoa — disse. — Eu sei — respondi. — Mas também não perdoo fácil. Ele piscou e desceu as escadas, deixando o silêncio e a promessa no ar. Eu fiquei ali, sentindo a pele formigar e o coração bater forte. Era só o começo. A noite já tinha caído pesada na Cidade de Deus quando cheguei ao QG. O cheiro de pólvora, suor e adrenalina já anunciava que a madrugada seria longa. O Matador estava lá, de pé, analisando mapas espalhados na mesa improvisada, com aquele olhar de quem sabe que o jogo virou. — Chegou — ele falou baixo, sem me olhar. — Cheguei — respondi, cruzando os braços e observando a equipe reunida. Fui direto ao ponto: — Qual a missão? Ele finalmente virou para mim, olhos fixos nos meus, como se buscasse ler minha alma. — Entrar no território rival, pegar a carga e sair sem deixar rastros. — Fácil falar — provoquei, dando um sorriso torto. — Mas a gente sabe que nunca é. Ele riu baixo, a voz grave: — Por isso preciso de você do meu lado, magrela. O jeito como ele falou aquilo fez meu peito acelerar. Era mais que uma missão — era um pacto silencioso, uma declaração velada. Nos preparativos, organizei as armas, conferi munições e revirei as informações no celular. Ele ficou do meu lado o tempo todo, às vezes passando a mão no queixo, às vezes lançando olhares rápidos, carregados, que me faziam desviar o olhar. Quando cheguei perto pra ajustar a bolsa no meu ombro, ele não se afastou. — Tá pronta? — perguntou, a voz quase um sussurro. — Nunca estive mais pronta — respondi, o tom firme, mas por dentro, o fogo crescia. A tensão entre a gente era quase palpável, como um fio esticado prestes a arrebentar, mas ninguém dava o primeiro passo. — Vamos — disse ele, e eu segui, cada passo cheio daquele desejo contido. Na favela, a noite prometia guerra, mas ali no QG, a verdadeira batalha era entre dois corpos que falavam sem palavras. E a missão? Essa era só a desculpa perfeita para se aproximar ainda mais.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD