Fogo contido
📍 Cidade de Deus – Laje do Matador
Raíssa
O sol já começava a se esconder atrás dos morros, pintando o céu de laranja e roxo. Eu estava encostada no parapeito da laje, observando o movimento lá embaixo, o vai e vem dos soldados, o burburinho da favela. Ele apareceu por trás, o Matador, com aquela caminhada segura que fazia o chão tremer.
— Tá pensando em quê? — perguntou, voz rouca e baixa, quase um sussurro.
— No mesmo que tu — respondi, sem me virar.
Ele chegou perto, tão perto que podia sentir o calor do corpo dele. Um silêncio carregado tomou o espaço entre a gente. O tipo de silêncio que fala mais que mil palavras.
— Essa missão vai ser pesada — disse ele, sem tirar os olhos dos meus.
— Eu sei — falei, e não pude evitar o sorriso desafiador. — Mas eu tô pronta.
Ele deu um passo mais perto, inclinou o rosto como se fosse me provocar, e parou a poucos centímetros.
— Pronta pra quê, magrela?
— Pra tudo que vem com você. — A voz saiu firme, mesmo com o coração acelerado.
Ele riu baixo, um som grave que me arrepiou. Passou a mão no cabelo, depois cruzou os braços.
— Gosto desse fogo em você.
— E eu gosto do perigo que você representa — retruquei.
Ficamos ali, os olhos se falando, o ar carregado de desejo e desafio, mas nenhuma palavra ou gesto que ultrapassasse a linha. Porque essa história era de tensão, de espera, de provocações.
Ele se afastou devagar, com aquele sorriso torto que só ele sabe fazer.
— Se cuida, Raíssa. A favela não perdoa — disse.
— Eu sei — respondi. — Mas também não perdoo fácil.
Ele piscou e desceu as escadas, deixando o silêncio e a promessa no ar.
Eu fiquei ali, sentindo a pele formigar e o coração bater forte.
Era só o começo.
A noite já tinha caído pesada na Cidade de Deus quando cheguei ao QG. O cheiro de pólvora, suor e adrenalina já anunciava que a madrugada seria longa. O Matador estava lá, de pé, analisando mapas espalhados na mesa improvisada, com aquele olhar de quem sabe que o jogo virou.
— Chegou — ele falou baixo, sem me olhar.
— Cheguei — respondi, cruzando os braços e observando a equipe reunida.
Fui direto ao ponto:
— Qual a missão?
Ele finalmente virou para mim, olhos fixos nos meus, como se buscasse ler minha alma.
— Entrar no território rival, pegar a carga e sair sem deixar rastros.
— Fácil falar — provoquei, dando um sorriso torto. — Mas a gente sabe que nunca é.
Ele riu baixo, a voz grave:
— Por isso preciso de você do meu lado, magrela.
O jeito como ele falou aquilo fez meu peito acelerar. Era mais que uma missão — era um pacto silencioso, uma declaração velada.
Nos preparativos, organizei as armas, conferi munições e revirei as informações no celular. Ele ficou do meu lado o tempo todo, às vezes passando a mão no queixo, às vezes lançando olhares rápidos, carregados, que me faziam desviar o olhar.
Quando cheguei perto pra ajustar a bolsa no meu ombro, ele não se afastou.
— Tá pronta? — perguntou, a voz quase um sussurro.
— Nunca estive mais pronta — respondi, o tom firme, mas por dentro, o fogo crescia.
A tensão entre a gente era quase palpável, como um fio esticado prestes a arrebentar, mas ninguém dava o primeiro passo.
— Vamos — disse ele, e eu segui, cada passo cheio daquele desejo contido.
Na favela, a noite prometia guerra, mas ali no QG, a verdadeira batalha era entre dois corpos que falavam sem palavras.
E a missão? Essa era só a desculpa perfeita para se aproximar ainda mais.