Capítulo 16

970 Words
Pegaram o Relíquia — O quê? Minha voz saiu tão alta que até o Matador virou a cabeça rapidamente para trás. O rádio no painel chiou novamente, estático e urgente. — Pegaram o Relíquia! Meu coração despencou no peito como uma pedra caindo num poço fundo. — Como assim pegaram? — A polícia fechou uma das rotas de fuga! Olhei pelo retrovisor. A estrada aberta e vazia ficava cada vez mais para trás. A liberdade estava ali, a poucos quilômetros de distância, dentro da segurança daquele carro. Mas Relíquia não. — Volta. A voz do Matador saiu firme, sem qualquer hesitação. Era uma ordem, clara e direta. Olhei para ele, incrédula. — Tá maluco? — Volta. — Acabei de te tirar da cadeia de segurança máxima! Não vamos voltar agora! — E eu não vou deixar um dos meus para trás. Aquela resposta me pegou totalmente desprevenida. Porque era exatamente o que eu teria dito. Era exatamente o que eu faria. — Caveira! — peguei o rádio com tanta força que meus dedos doeram. — Ele tá vivo? — Tá! — Tem certeza?! — Tenho, chefa! Respirei fundo, aliviada por um milésimo de segundo. Pelo menos isso. — Onde ele tá? — Num bloqueio perto da ponte velha! Meu sangue gelou nas veias. Eu conhecia aquele lugar como a palma da minha mão. Poucas saídas, muros altos de um lado, rio do outro. Um local feito para cercar. Fácil de isolar. Muito difícil de escapar. Matador puxou o carregador da pistola, conferindo as balas com calma assustadora. — Quantos homens com ele? — Dois. — E a polícia? — Muita. Merda. "Muita" nunca era uma boa resposta. — Raíssa. Olhei para Matador. Seus olhos estavam duros, decididos. — O quê? — Você não veio me buscar? — Vim. — Então agora vai buscar ele. Não precisei de mais nada. Pisei no freio com tudo. Os pneus cantaram no asfalto quente, soltando fumaça. A caminhonete derrapou, girando no meio da estrada, até ficar de frente para o caminho de volta de volta para o inferno que tínhamos acabado de deixar. Meu coração batia acelerado, mas não era medo. Era adrenalina. A mesma adrenalina que me fazia sentir viva, que me movia, que sempre me colocou nos piores problemas. — Tem visual! A voz do Caveira surgiu novamente no rádio, gritando. Olhei para frente, além da curva. E vi. Duas viaturas bloqueavam a passagem. Um carro civil atravessado, fechando o caminho completamente. Policiais armados até os dentes, espalhados pelas margens. E no meio de tudo, ajoelhado no chão de terra. Relíquia. Meu coração parou de bater. Havia uma arma apontada diretamente para a cabeça dele. — Filho da mãe... Murmurei, sem perceber se era para a polícia ou para o destino. Relíquia levantou o olhar, varrendo o caos a sua volta. E foi como se ele tivesse sentido a minha presença. Seus olhos encontraram os meus, através do para-brisa, mesmo de longe, mesmo no meio do fogo cruzado que ainda não tinha começado. Ele me viu. Foi quando um dos policiais na linha de frente virou o rosto na nossa direção. — ELES VOLTARAM! Os tiros começaram imediatamente. — ABAIXA! Matador gritou, puxando-me pelo casco para baixo. O vidro do para-brisa explodiu em mil pedaços. Estilhaços voaram para todo lado, cortando a pele e caindo dentro do carro. Mas eu não parei. Pisei no acelerador mais fundo do que eu jamais tinha feito na minha vida. Mais fundo. Mais fundo. — RAÍSSA! É UMA ARMADILHA! Era Caveira gritando no rádio, desesperado. — NÃO FAZ ISSO! Tarde demais. A caminhonete pesada atingiu a lateral de uma das viaturas com a força de um trem. BOOOOM! O impacto sacudiu nossos ossos. Policiais que estavam abrigados atrás do veículo foram lançados para os lados como bonecos de pano. Outros se reagruparam, gritando e atirando sem parar contra nós. Matador abriu a porta do carro antes mesmo de pararmos. Saiu disparando, a arma na mão, cobrindo cada centímetro do nosso caminho. Cobertura total. Eu puxei o freio de mão com tudo. A traseira do carro escorregou, girando bruscamente até parar a poucos metros de onde Relíquia estava caído. — ENTRA! — gritei, abrindo a porta aos pontapés. Relíquia não se mexeu. Meu coração disparou de pânico. — RELÍQUIA! VEM LOGO! Foi então que meus olhos focaram melhor. Ele estava com as mãos para trás das costas. Algemado. — MERDA! Gritei, batendo no volante. Sem pensar, sem calcular o risco, sem ver os tiros que passavam zunindo perto da minha orelha. Abri a porta e corri. Corri debaixo de chuva de chumbo. Debaixo do caos absoluto. Debaixo da maior loucura que eu já tinha feito. — RAÍSSA, VOLTA! Ouvi Matador gritar atrás de mim. Ignorei. Cheguei até ele, me jogando ao seu lado no chão sujo de poeira e sangue. Procurei desesperadamente pelo chão, até ver o que precisava: uma chave pequena, caída ao lado do corpo de um policial que Matador tinha acertado segundos antes. Peguei a chave e comecei a mexer nas fechaduras de aço que prendiam os pulsos dele. — Você é completamente maluca, Raíssa. A voz dele saiu rouca, baixa, ofegante. Mesmo naquela situação. Mesmo com o cano de uma arma quase tocando a sua pele segundos atrás. Ele ainda conseguiu sorrir. — Cala a boca e não se mexe. O clique metálico da algema abrindo foi a coisa mais bonita que eu ouvi em todo o meu maldito dia. Mas antes que eu pudesse puxá-lo para levantar... Um disparo único ecoou. Mais alto, mais forte e mais próximo do que todos os outros. Relíquia arregalou os olhos. O sorriso morreu instantaneamente do seu rosto. E eu senti algo quente e úmido respingar forte contra o meu rosto. Vermelho. Por um segundo que pareceu durar uma eternidade... Eu não soube de quem era.
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