Pegaram o Relíquia
— O quê?
Minha voz saiu tão alta que até o Matador virou a cabeça rapidamente para trás.
O rádio no painel chiou novamente, estático e urgente.
— Pegaram o Relíquia!
Meu coração despencou no peito como uma pedra caindo num poço fundo.
— Como assim pegaram?
— A polícia fechou uma das rotas de fuga!
Olhei pelo retrovisor. A estrada aberta e vazia ficava cada vez mais para trás. A liberdade estava ali, a poucos quilômetros de distância, dentro da segurança daquele carro.
Mas Relíquia não.
— Volta.
A voz do Matador saiu firme, sem qualquer hesitação. Era uma ordem, clara e direta.
Olhei para ele, incrédula.
— Tá maluco?
— Volta.
— Acabei de te tirar da cadeia de segurança máxima! Não vamos voltar agora!
— E eu não vou deixar um dos meus para trás.
Aquela resposta me pegou totalmente desprevenida. Porque era exatamente o que eu teria dito. Era exatamente o que eu faria.
— Caveira! — peguei o rádio com tanta força que meus dedos doeram. — Ele tá vivo?
— Tá!
— Tem certeza?!
— Tenho, chefa!
Respirei fundo, aliviada por um milésimo de segundo. Pelo menos isso.
— Onde ele tá?
— Num bloqueio perto da ponte velha!
Meu sangue gelou nas veias.
Eu conhecia aquele lugar como a palma da minha mão. Poucas saídas, muros altos de um lado, rio do outro. Um local feito para cercar. Fácil de isolar. Muito difícil de escapar.
Matador puxou o carregador da pistola, conferindo as balas com calma assustadora.
— Quantos homens com ele?
— Dois.
— E a polícia?
— Muita.
Merda.
"Muita" nunca era uma boa resposta.
— Raíssa.
Olhei para Matador. Seus olhos estavam duros, decididos.
— O quê?
— Você não veio me buscar?
— Vim.
— Então agora vai buscar ele.
Não precisei de mais nada.
Pisei no freio com tudo. Os pneus cantaram no asfalto quente, soltando fumaça. A caminhonete derrapou, girando no meio da estrada, até ficar de frente para o caminho de volta de volta para o inferno que tínhamos acabado de deixar.
Meu coração batia acelerado, mas não era medo. Era adrenalina. A mesma adrenalina que me fazia sentir viva, que me movia, que sempre me colocou nos piores problemas.
— Tem visual!
A voz do Caveira surgiu novamente no rádio, gritando.
Olhei para frente, além da curva. E vi.
Duas viaturas bloqueavam a passagem.
Um carro civil atravessado, fechando o caminho completamente.
Policiais armados até os dentes, espalhados pelas margens.
E no meio de tudo, ajoelhado no chão de terra.
Relíquia.
Meu coração parou de bater.
Havia uma arma apontada diretamente para a cabeça dele.
— Filho da mãe...
Murmurei, sem perceber se era para a polícia ou para o destino.
Relíquia levantou o olhar, varrendo o caos a sua volta. E foi como se ele tivesse sentido a minha presença. Seus olhos encontraram os meus, através do para-brisa, mesmo de longe, mesmo no meio do fogo cruzado que ainda não tinha começado.
Ele me viu.
Foi quando um dos policiais na linha de frente virou o rosto na nossa direção.
— ELES VOLTARAM!
Os tiros começaram imediatamente.
— ABAIXA!
Matador gritou, puxando-me pelo casco para baixo.
O vidro do para-brisa explodiu em mil pedaços. Estilhaços voaram para todo lado, cortando a pele e caindo dentro do carro.
Mas eu não parei.
Pisei no acelerador mais fundo do que eu jamais tinha feito na minha vida.
Mais fundo.
Mais fundo.
— RAÍSSA! É UMA ARMADILHA!
Era Caveira gritando no rádio, desesperado.
— NÃO FAZ ISSO!
Tarde demais.
A caminhonete pesada atingiu a lateral de uma das viaturas com a força de um trem.
BOOOOM!
O impacto sacudiu nossos ossos. Policiais que estavam abrigados atrás do veículo foram lançados para os lados como bonecos de pano. Outros se reagruparam, gritando e atirando sem parar contra nós.
Matador abriu a porta do carro antes mesmo de pararmos. Saiu disparando, a arma na mão, cobrindo cada centímetro do nosso caminho. Cobertura total.
Eu puxei o freio de mão com tudo. A traseira do carro escorregou, girando bruscamente até parar a poucos metros de onde Relíquia estava caído.
— ENTRA! — gritei, abrindo a porta aos pontapés.
Relíquia não se mexeu.
Meu coração disparou de pânico.
— RELÍQUIA! VEM LOGO!
Foi então que meus olhos focaram melhor.
Ele estava com as mãos para trás das costas.
Algemado.
— MERDA!
Gritei, batendo no volante.
Sem pensar, sem calcular o risco, sem ver os tiros que passavam zunindo perto da minha orelha.
Abri a porta e corri.
Corri debaixo de chuva de chumbo.
Debaixo do caos absoluto.
Debaixo da maior loucura que eu já tinha feito.
— RAÍSSA, VOLTA!
Ouvi Matador gritar atrás de mim.
Ignorei.
Cheguei até ele, me jogando ao seu lado no chão sujo de poeira e sangue.
Procurei desesperadamente pelo chão, até ver o que precisava: uma chave pequena, caída ao lado do corpo de um policial que Matador tinha acertado segundos antes.
Peguei a chave e comecei a mexer nas fechaduras de aço que prendiam os pulsos dele.
— Você é completamente maluca, Raíssa.
A voz dele saiu rouca, baixa, ofegante. Mesmo naquela situação. Mesmo com o cano de uma arma quase tocando a sua pele segundos atrás.
Ele ainda conseguiu sorrir.
— Cala a boca e não se mexe.
O clique metálico da algema abrindo foi a coisa mais bonita que eu ouvi em todo o meu maldito dia.
Mas antes que eu pudesse puxá-lo para levantar...
Um disparo único ecoou.
Mais alto, mais forte e mais próximo do que todos os outros.
Relíquia arregalou os olhos.
O sorriso morreu instantaneamente do seu rosto.
E eu senti algo quente e úmido respingar forte contra o meu rosto.
Vermelho.
Por um segundo que pareceu durar uma eternidade...
Eu não soube de quem era.