Capítulo 15

701 Words
O silêncio que dói 📍 Cidade de Deus Raíssa A porta fechou com um estalo suave atrás de mim, o cheiro de álcool, dor e silêncio preenchia o ar. Júlia estava sentada no sofá, o rosto ainda marcado pelas lágrimas, o corpo cansado, as mãos trêmulas segurando um copo d’água. Me aproximei devagar, sem pressa. Ela não precisava de pressa. Ela precisava de alguém que ficasse ali, firme, sem julgar, sem pressão. — Senta aqui — falei, puxando a ela para perto do meu colo. Ela se encolheu, como quem teme quebrar, mas não resistiu. — Por que tu não falou nada pra mim? — perguntei baixo, quase um sussurro. Júlia desviou o olhar. A vergonha, o medo, o orgulho escondidos nos olhos dela. — Eu não queria que tu... se preocupasse demais. — A voz dela era um fio, quase sumindo. — Eu me preocupo, Júlia. Desde o dia que a gente se conheceu. — minha voz firme, cheia de verdade. — Mas não só isso. Eu tô aqui pra tu quando tu não consegue falar. Ela engoliu a seco, respirou fundo. — Achei que ia ser só uma fase. Que ele ia mudar. Que a gente ia conseguir. Eu tava sozinha demais, Raíssa. A gente sempre foi só nós duas. E eu não queria perder isso. — Mas perder a vida ou o respeito é pior, Júlia. Ela fechou os olhos. Um soluço escapou. Eu abracei ela com força. — Tu não tá sozinha — prometi. — Eu vou cuidar de ti. Vou fazer esse filho de vocês nascer num lugar seguro. Tu vai ver. Júlia se apoiou no meu peito, e eu senti, pela primeira vez, a fortaleza daquela mulher frágil pedindo socorro. — Me desculpa por não ter falado... por não ter te pedido ajuda. — murmurou. — Ninguém perde por pedir ajuda, Júlia. — sorri com o coração apertado. — E ninguém aqui vai te deixar cair. Naquela noite, ali no meu pequeno refúgio no meio da Cidade de Deus, duas mulheres fortes aprenderam que até a gente que manda no morro pode precisar ser cuidada. E que a verdadeira força é também saber pedir socorro. A noite já caía devagar lá fora, as luzes da favela piscando como estrelas. Dentro de casa, o clima era diferente — um pequeno refúgio longe da correria, da tensão, da guerra constante. Júlia estava sentada no sofá, o rosto mais tranquilo, com a perna apoiada numa almofada e uma bolsa de gelo cuidadosamente enrolada com um pano. Eu ajeitava a almofada enquanto Bruce preparava dois copos de chá na cozinha improvisada que tinha montado no cantinho da sala. — Esse chá aqui é fogo — Bruce brincou, puxando uma careta engraçada ao provar o líquido quente. — É pra fortalecer — falei sorrindo, entregando um copo pra Júlia. Ela pegou com as duas mãos, quase como se fosse um presente. Sentamos juntos, em silêncio confortável, só ouvindo o barulho distante da favela. De vez em quando, Júlia lançava um olhar para mim, como se quisesse dizer algo, mas faltasse coragem. — Obrigada — ela falou, baixinho. — Por estar aqui. Por não me deixar cair. — Nunca vou deixar — respondi firme. — A gente é parceira até o fim. Bruce deu um sorriso sincero. — Vocês duas são fogo. Se uma cair, a outra segura. Eu olhei pros dois, sentindo um calor estranho no peito. Era bom ter esse momento, essa paz entre a tempestade. — Sabe o que eu acho? — comecei, meio brincando. — Que a gente devia fazer um churrasquinho qualquer dia desses. Sem baile, sem missão, só a gente. — Quero! — Júlia sorriu pela primeira vez em dias. — E sem tiro, né? Só risada. Bruce concordou. — Comida boa e amizade, isso sim é luxo. A gente riu juntos, o som mais gostoso daquela noite. Porque no meio do caos da Cidade de Deus, esses momentos simples eram o que mantinham a gente de pé. E ali, no sofá pequeno, com o chá esquentando as mãos da Júlia, e a presença firme do Bruce, eu senti que a gente ia sair dessa. Não importa o que viesse. A gente ia sair junto.
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