Capítulo 14

574 Words
Não se encosta no que é meu 📍 Cidade de Deus – Quadra da 15 / Viela da 7 Raíssa Voltei do barraco da Júlia com o peito em chamas. Ela não falou. Mas também não precisava. Os olhos dela disseram tudo. O silêncio gritou na minha cara. E se tem uma coisa que eu nunca vou aceitar… É ver a única pessoa que me acolheu nesse mundo sendo quebrada por um macho frouxo. Peguei minha Glock assim que entrei em casa. Troquei o vestido por uma calça larga e um top preto. Trancei o cabelo rápido, amarrei no alto da cabeça e botei o coturno. Não era mais a mulher do baile. Era a Raíssa que o morro aprendeu a temer. Desci a viela da 15 com os passos firmes. O baile ainda tava rolando. O Matador não tava mais no palco — devia estar na laje com os frentes. Mas o Naldo… o Naldo tava exatamente onde eu tinha deixado. Encostado, camisa aberta, bebida na mão, risinho na cara. E uma nova piranhinha do lado. Respirei fundo. Me aproximei em silêncio. Parecia um filme mudo antes da tempestade. Parei em frente a ele. — E aí, Naldo... — chamei, voz seca. Ele virou meio bêbado, tentou soltar aquele charme ridículo. — Opa, Raíssa… não sabia que tu ainda tava por aqui. — Tô. E vim te perguntar de novo. — Tu tá batendo na Júlia, seu merda? Ele riu. Riu. — Ih… começou o show, é? TPM da chefe agora? PÁ! Atirei no chão, a dois dedos da bota dele. Todo mundo congelou. O som parou. A favela parou. E os olhos voltaram pra mim. — Eu falei… TU TÁ BATENDO NA JÚLIA? Ele arregalou os olhos. — Que isso, mulher?! Tá maluca?! Tá atirando no baile, p***a!? — Não me responde com pergunta. Me responde com verdade. — Eu não bati nela! Tá doida!? Fiz mira. E antes que ele pudesse piscar… PÁ! Um tiro certeiro no joelho direito. PÁ! Mais um no esquerdo. Ele gritou. Caiu na hora. O copo voou, o sangue jorrou, a p*****a do lado saiu correndo gritando. Os soldados já tinham formado o cerco, mas ninguém se metia. — Aqui na Cidade de Deus, ninguém encosta em mulher. Ninguém levanta a mão pra quem já vive com o corpo cansado de cuidar dos outros. Tu feriu a Júlia, e agora vai sentir cada passo que ela deu mancando nessa p***a de casa. Me aproximei, abaixei até o rosto dele, que tremia de dor e de medo. — Eu sou o braço do Matador, mas essa justiça aqui foi minha. Quem não sabe ser homem… vai aprender a rastejar. Me levantei, com sangue nas botas, arma na mão e a favela inteira em silêncio. Fiz sinal pro Relíquia. — Leva esse verme pro hospital. Mas deixa claro: se ele voltar pra CDD… Vai sair direto pro caixão. Subi de volta pra laje como quem volta do campo de batalha. O Matador me esperava na beira. — O que foi isso? — perguntou, sério, mas com aquele meio sorriso. — Justiça. — respondi sem piscar. Ele me puxou pela cintura. — Lembrete dado. Agora a favela sabe… que a coroa é dividida com alguém que não treme nem na bala. — A coroa é nossa, Matador. Mas as balas… às vezes são só minhas. E naquele dia, a CDD soube: Quem fere uma rainha… sangra em praça pública.
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