Não se encosta no que é meu
📍 Cidade de Deus – Quadra da 15 / Viela da 7
Raíssa
Voltei do barraco da Júlia com o peito em chamas.
Ela não falou. Mas também não precisava.
Os olhos dela disseram tudo. O silêncio gritou na minha cara.
E se tem uma coisa que eu nunca vou aceitar…
É ver a única pessoa que me acolheu nesse mundo sendo quebrada por um macho frouxo.
Peguei minha Glock assim que entrei em casa. Troquei o vestido por uma calça larga e um top preto. Trancei o cabelo rápido, amarrei no alto da cabeça e botei o coturno.
Não era mais a mulher do baile.
Era a Raíssa que o morro aprendeu a temer.
Desci a viela da 15 com os passos firmes.
O baile ainda tava rolando.
O Matador não tava mais no palco — devia estar na laje com os frentes.
Mas o Naldo… o Naldo tava exatamente onde eu tinha deixado.
Encostado, camisa aberta, bebida na mão, risinho na cara.
E uma nova piranhinha do lado.
Respirei fundo.
Me aproximei em silêncio.
Parecia um filme mudo antes da tempestade.
Parei em frente a ele.
— E aí, Naldo... — chamei, voz seca.
Ele virou meio bêbado, tentou soltar aquele charme ridículo.
— Opa, Raíssa… não sabia que tu ainda tava por aqui.
— Tô. E vim te perguntar de novo.
— Tu tá batendo na Júlia, seu merda?
Ele riu. Riu.
— Ih… começou o show, é? TPM da chefe agora?
PÁ!
Atirei no chão, a dois dedos da bota dele.
Todo mundo congelou.
O som parou. A favela parou.
E os olhos voltaram pra mim.
— Eu falei… TU TÁ BATENDO NA JÚLIA?
Ele arregalou os olhos.
— Que isso, mulher?! Tá maluca?! Tá atirando no baile, p***a!?
— Não me responde com pergunta. Me responde com verdade.
— Eu não bati nela! Tá doida!?
Fiz mira.
E antes que ele pudesse piscar…
PÁ!
Um tiro certeiro no joelho direito.
PÁ!
Mais um no esquerdo.
Ele gritou. Caiu na hora. O copo voou, o sangue jorrou, a p*****a do lado saiu correndo gritando.
Os soldados já tinham formado o cerco, mas ninguém se metia.
— Aqui na Cidade de Deus, ninguém encosta em mulher. Ninguém levanta a mão pra quem já vive com o corpo cansado de cuidar dos outros.
Tu feriu a Júlia, e agora vai sentir cada passo que ela deu mancando nessa p***a de casa.
Me aproximei, abaixei até o rosto dele, que tremia de dor e de medo.
— Eu sou o braço do Matador, mas essa justiça aqui foi minha. Quem não sabe ser homem… vai aprender a rastejar.
Me levantei, com sangue nas botas, arma na mão e a favela inteira em silêncio.
Fiz sinal pro Relíquia.
— Leva esse verme pro hospital.
Mas deixa claro: se ele voltar pra CDD…
Vai sair direto pro caixão.
Subi de volta pra laje como quem volta do campo de batalha.
O Matador me esperava na beira.
— O que foi isso? — perguntou, sério, mas com aquele meio sorriso.
— Justiça. — respondi sem piscar.
Ele me puxou pela cintura.
— Lembrete dado. Agora a favela sabe… que a coroa é dividida com alguém que não treme nem na bala.
— A coroa é nossa, Matador. Mas as balas… às vezes são só minhas.
E naquele dia, a CDD soube:
Quem fere uma rainha… sangra em praça pública.