Capítulo: Silêncio Onde Devia Ter Presença
📍 Cidade de Deus – Baile na 15 / Rua da 7 / Casa da Júlia
Raíssa
A batida do funk ainda rolava solta. Os fogos tinham parado, mas a quebrada ainda vibrava. Mas nem toda festa disfarça o que falta.
Estava encostada num canto da laje onde ficava o camarote improvisado quando vi o Bruce se aproximando com um copo na mão e aquele sorriso torto de quem já tava meio calibrado.
— Tá sumido, hein? — comentei, pegando o copo da mão dele.
— Quem sumiu foi tu, né, princesa? Desde que o Matador voltou tu virou sombra dele.
— Deixa de graça, Bruce — ri sem graça, mas no fundo, ele tinha um pouco de razão.
— Mas é sério. Tu não dança mais com a gente, não aparece no bar da Sandra, nem fala da Júlia.
Júlia.
A única amiga que me conhecia de verdade.
Que sabia da Raíssa antes da arma, antes da missão, antes de virar braço do morro.
Senti um aperto no peito.
Olhei ao redor e vi Naldo, o marido dela, encostado perto do palco. Camisa aberta, corrente balançando e rodeado de duas meninas que não sabiam nem esconder o riso falso. Uma delas passou a unha no peito dele. Ele nem disfarçou.
— Que p***a é essa? — murmurei, largando o copo.
— Não sei, mas tá desde cedo aí cercado de p*****a — Bruce falou olhando também. — E ela?
— Pois é — cortei ele e já fui andando na direção.
Cheguei com a postura erguida, a cara fechada e o olhar afiado.
— Cadê a Júlia? — perguntei direto, encarando o Naldo que disfarçava m*l.
— Ficou em casa. Disse que não quis vir.
— Não quis vir? — arqueei a sobrancelha.
Ele riu sem graça.
— Disse que tava com dor de cabeça, TPM, sei lá… tu sabe como é mulher.
Me aproximei mais um passo.
— Tu me acha com cara de otária?
As meninas recuaram. Naldo engoliu seco. Eu podia não ser a primeira-dama oficial, mas todo mundo ali sabia que quando eu encarava, não era só papo.
— Vai ver então o que ela tem — murmurei pra mim mesma e virei as costas.
Subi na garupa da moto do Bruce.
— Me deixa na rua da 7. Agora.
— Tá com essa cara porque sentiu, né?
— Senti.
O trajeto foi rápido. A Cidade de Deus não era grande, mas de noite, tudo parece mais apertado. Mais sombrio. A casa da Júlia ficava perto da laje onde ela fazia as unhas da comunidade. Portão trancado, luz apagada. Estranho. Muito estranho pra uma mulher que sempre foi de estar na pista.
Bati duas vezes. Ninguém.
— Júlia! — chamei mais alto.
Nada.
— Júlia sou eu, p***a! Abre essa merda! — minha voz saiu dura.
Ouvi um barulho lá dentro. Depois de um tempo, passos arrastados. A porta abriu só um pedacinho, revelando o rosto dela... inchado. Olheira funda. Cara de quem não dormia há dias.
— c*****o, mulher… — murmurei. — O que aconteceu contigo?
Ela não respondeu. Só tentou sorrir, mas os olhos diziam tudo: dor, cansaço, medo.
— Entra — foi tudo que ela disse.
Entrei. O cheiro da casa era de abafado e lágrima seca. Vi um prato com comida intocado, copo quebrado no canto da pia. E uma mulher quebrada diante de mim.
— Tu tá apanhando? — disparei de cara.
Ela tremeu os lábios, mas não respondeu.
— Ele tá te fazendo m*l, não tá? — insisti, mais uma vez.
Ela abaixou a cabeça.
O sangue me ferveu. As mãos fecharam em punho.
— Júlia… me fala agora. Porque se for, eu juro pelo nome que carrego no morro… ele não passa de amanhã.
Ela levantou o olhar, cheio d’água. Ainda não respondeu, mas naquele olhar… eu já tinha a resposta.
E o baile lá na favela? Que se f**a o baile.
Agora a guerra era outra.