Capítulo 12

604 Words
A Favela Voltou a Ter Dono 📍 Cidade de Deus Matador No dia seguinte ao tiro no Jefão, a favela amanheceu diferente. O ar parecia mais pesado, como se o próprio chão tivesse entendido que o Matador tava de volta. Subi na laje da antiga base — minha base. A mesma onde planejei minhas primeiras operações, onde sentei com minha primeira Glock, onde mandei meu primeiro aviso pra quem ousava bater de frente comigo. A vista dali não mudou: as vielas apertadas, a fumaça subindo de alguma laje com feijão no fogo, criança correndo de chinelo arrebentado. Mas tudo tava mais... silencioso. Mais atento. — Já espalhou? — perguntei pro Relíquia que tava do meu lado, vigiando o beco com um fuzil encostado na perna. — Já. Falei pra geral o que aconteceu com o Jefão. Teve um que já sumiu com a família inteira. Outro tá escondido lá na 11. — Manda buscar os dois. Um hoje. Outro amanhã. Quero um por vez. Se correr, vai morrer cansado. Ele assentiu. — E a boca da 13? — Já voltou pro nosso comando. Os moleques tavam dividindo lucro com miliciano de fora. Quando souberam que cê voltou, rasgaram a bandeira e pediram desculpa. Dei um sorriso cínico. A favela tem memória curta, mas medo longo. Desci da laje e fui caminhando. Era isso que eu queria: ser visto. Ser lembrado. Que cada passo meu ecoasse como aviso. As crianças paravam de correr quando me viam. As mulheres cochichavam nas portas. Os soldados faziam sinal de respeito. Raíssa me alcançou no caminho, toda vestida no preto, Glock na cintura, o olhar mais atento que nunca. — Tá satisfeito? — ela perguntou sem rodeio. — Ainda não. Mas tô no caminho. Ela respirou fundo. — O bonde voltou a rodar. Os radinho já falam teu nome como lenda. Mas tu sabe que isso aqui não se sustenta só com medo, né? — Eu sustento com presença. E com a pessoa certa do lado. Ela me olhou como quem sabe onde eu queria chegar, mas não respondeu. Deixou no ar. ** No final da tarde, reuni os frentes antigos. Os que ficaram quietos. Os que sumiram quando a PM estourou o morro. Os que tentaram sentar na minha cadeira. — Quem tiver do meu lado, senta aqui. Quem não tiver, pode ir embora agora. Mas vai deixar tudo: ponto, arma, lucro. Sai pelado. Um silêncio de cemitério caiu no barraco. Um a um, foram se sentando. Uns com cara de arrependimento. Outros de medo. Só um hesitou. — E tu? — perguntei. — Eu só... só queria manter a paz no morro. — Paz sem rei é desordem. E agora tem rei de novo. Vai sair, ou vai ajoelhar? Ele abaixou a cabeça. — Ajoelho. — Então começa agora. Vai pra laje, faz a contenção. E mostra que tu sabe ser útil. ** Mais tarde, na laje com Raíssa, a gente observava o morro. Os radinhos falavam baixo, mas eu ouvia. > — O Matador tá de volta. — Já mandou dois pro inferno. — A Cidade de Deus agora tem dono outra vez. Ela fumava devagar, encostada no parapeito. — Tu sempre foi feito disso, né? De comando. De imposição. De rua. — E você? — Eu sou feita de sobrevivência. E agora, talvez… poder. — Tu quer dividir comigo? — Já tô dividindo. Fiquei em silêncio. O céu escurecia devagar, mas a favela... tava acesa. A paz que voltou era frágil, mas era minha. O respeito não foi dado. Foi tomado. E agora, quem quisesse falar meu nome… ia precisar de permissão. Ou de coragem.
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