Saí da prisão sem sentir minhas pernas. As palavras do Matador ecoavam dentro da minha cabeça: “Tem gente muito acima de nós. A guerra já começou.”
Aquilo não fazia sentido. Ou talvez fizesse, e eu estivesse me recusando a enxergar.
Quando cheguei ao estacionamento, fiquei alguns segundos parada ao lado do carro. Tentando respirar. Tentando pensar. Tentando entender por que o homem que sempre me ensinou a encarar os problemas estava agora tentando me afastar deles.
Meu celular vibrou. Era Relíquia. Ignorei.
Vibrou de novo. Ignorei.
Na terceira vez, atendi.
— O quê?
— Onde você tá?
— Ocupada.
— Você foi ver o Matador — não era uma pergunta. Era uma afirmação.
— E se eu fui?
— O que ele disse?
Entrei no carro e bati a porta com força.
— Que a prisão foi planejada.
Do outro lado da linha, o silêncio foi imediato.
— Relíquia?
— Tô aqui.
— Você sabia?
— Não dessa parte.
Fechei os olhos, encostando a cabeça no volante. Eu queria acreditar nele, mas estava ficando difícil acreditar em qualquer pessoa.
Quando cheguei ao morro, encontrei Caveira me esperando na subida. E, pela cara dele, a notícia era péssima.
— O que aconteceu agora? — perguntei, antes mesmo de desligar o motor.
— Temos visita.
— Quem?
— Eles não disseram.
Meu coração acelerou.
— Quantos?
— Quatro carros.
Armei o corpo na mesma hora. Ninguém aparecia com quatro carros no nosso território sem um motivo muito sério.
Os veículos estavam parados perto da quadra. Homens armados, todos vestindo preto e com feições completamente desconhecidas. Aquilo, por si só, já era uma declaração de problema.
Quando desci do carro, um deles deu um passo à frente, destacando-se do grupo.
— Você é a Raíssa?
— Depende.
— Depende de quê?
— De quem tá perguntando.
O homem sorriu. Mas não foi um sorriso amigável; era o sorriso de quem guarda uma carta na manga.
— Então é você.
Cruzei os braços, sustentando o olhar.
— Vai falar logo ou vai ficar apenas me encarando?
Ele meteu a mão no bolso interno da jaqueta, tirou um envelope pardo e estendeu na minha direção.
— Mandaram entregar isso pra você.
— Quem?
— Eu não faço perguntas, garota. Só cumpro ordens.
Olhei para o envelope. Era pesado, denso. Abri devagar, sentindo um pressentimento r**m me apertar o peito. Meu estômago afundou instantaneamente.
Dentro dele havia uma fotografia. Antiga. Muito antiga. Uma menina magra, assustada, com cerca de onze anos, sentada na beira de uma calçada esburacada. Sozinha.
Meu coração parou por um segundo. Aquela menina era eu.
Minhas mãos começaram a tremer. Não de medo, mas pelo choque puro daquela imagem. Eu nunca tinha visto aquela foto na vida. Nunca ninguém deveria ter um registro daquele dia.
— Onde conseguiu isso?
O homem deu de ombros, indiferente ao meu impacto.
— Não fui eu.
Virei o pedaço de papel fotográfico desgastado. Havia algo escrito no verso com uma caligrafia firme. Uma frase. Apenas uma:
“Você não fugiu por acaso.”
O mundo pareceu desaparecer ao meu redor, silenciando o barulho do morro. Aquela frase mexia diretamente com a única parte da minha vida que eu jamais permitia que ninguém tocasse. Minha infância. Meu passado. A minha fuga.
— Quem mandou isso?! — Minha voz saiu fria, cortante como uma lâmina.
O homem me encarou fixamente, sem se abalar com a minha reação.
— Disseram que você faria exatamente essa pergunta.
— Então responde.
— Também mandaram te entregar outra mensagem de voz.
Meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvi-lo nos meus ouvidos.
— Qual?
Ele deu mais um passo à frente, aproximando-se o suficiente para que o tom de sua voz fosse audível apenas para mim.
— A guerra começou no dia em que você fugiu de casa.
Senti o sangue desaparecer completamente do meu rosto, deixando minhas extremidades frias. Porque, pela primeira vez desde que toda essa confusão estourou... aquela história não parecia mais ser sobre o Matador. Não parecia mais ser sobre a facção, sobre a prisão ou sobre o traidor.
Parecia ser sobre mim. E isso era infinitamente mais assustador.