Capítulo 11

1222 Words
O Rei Pisou no Solo Matador 📍 Cidade de Deus – acesso pela Edgar Werneck O pneu da Blazer blindada passou pela entrada da favela e, naquele instante, o mundo pareceu parar por um segundo. A rua tava vazia como se o morro soubesse que quem tava chegando ali não era qualquer um. Era eu. O Matador. Respirei fundo e encostei o corpo pra frente, vendo pela janela o cenário que eu conhecia melhor do que qualquer cela fria. O beco da 17 ainda tinha as mesmas pichações, o boteco da esquina ainda com a porta metálica pela metade. Só uma coisa era diferente: o clima. Um ar denso de expectativa. Todo mundo sabia que eu tava voltando. A moto da frente reduziu, sinal de que o bonde ia parar. Raíssa no volante, olhos alertas, mão na pistola. Ela manja do jogo, sabe o que tá fazendo. Do meu lado, Relíquia e Menor. O primeiro calado, firme. O segundo, com aquela cara de quem queria ser eu — mas não teve peito quando teve chance. Desci do carro devagar, minha Glock presa na cintura, o fuzil atravessado nas costas. Os moleques da contenção me olharam. Dois abaixaram a cabeça. Um terceiro tentou bancar o marrento, mas bastou eu erguer o queixo pra ele desviar o olhar. — Então é isso? — perguntei no seco, pro geral. — Favela sem comando, com meia dúzia de verme se achando rei? Ninguém respondeu. Caminhei até o centro da rua, a bota batendo forte no chão de terra e asfalto quebrado. Parecia que cada passo meu fazia ecoar o nome que eles tentaram apagar. — Fui preso. Fui traído. Fiquei calado. E agora... — olhei ao redor, girando devagar. — Voltei. Raíssa desceu logo atrás, já com a mão na cintura. O povo começava a sair de casa, curioso. Mães de sandália no pé, crianças espiando pelas janelas. Soldado de fuzil na mão tentando parecer calmo. — Quem é de verdade vai continuar — eu disse, alto. — Quem se vendeu, quem se escondeu, quem me virou as costas… vai cair. Um silêncio cortou o ar como navalha. — Quem manda nessa p***a agora? — perguntei, encarando Menor direto. Ele hesitou. Raíssa cruzou os braços e esperou. — Tu sabe que a boca ficou comigo enquanto cê tava fora… — começou ele. — Então desocupa — cortei seco. — Porque eu tô de volta. E quem tá comigo… sobe. Quem não tá, desce. Relíquia soltou um risinho discreto. Sabia que essa hora ia chegar. Caminhei até a viela da 15. Entrei. O cheiro do morro, da terra molhada, da carne assada em alguma laje, me bateu forte no peito. Eu cresci ali. Sangrei ali. Matei e quase morri ali. E agora tava de volta. Diferente. Mais frio. Mais calculista. Na subida pro alto do morro, vi as janelas abrindo devagar. Gente olhando. Gente reconhecendo. Gente sussurrando: > — É o Matador. — Ele voltou. — Agora o bagulho vai virar. Parei numa laje, respirei fundo e olhei lá de cima. A Cidade de Deus era minha outra pele. E agora eu tava vestindo ela de novo. Olhei pra Raíssa. Ela encostou do meu lado. — Vai segurar o trono comigo? — perguntei. — Já tô sentada no braço da cadeira, né? — respondeu, com aquele sorriso debochado dela. Sorri também. Pela primeira vez desde que saí da cadeia. Agora era oficial. O rei tava em casa. E quem não ajoelhar, vai cair de cara no chão. Perfeito. Agora vamos com um capítulo intenso e direto, no ponto de vista do Matador, mostrando o confronto com um dos traidores que se aproveitou da ausência dele pra subir no morro. Clima pesado, ameaça, presença — e sangue, se for necessário. 📍 Cidade de Deus – Viela da 18 O cheiro da tarde era o mesmo de sempre: suor, barro quente e perigo. A favela tava se ajustando à minha presença. Alguns fingiam que não viram, outros tentavam puxar papo como se nada tivesse acontecido. Mas o que ninguém sabia é que eu já tinha a lista dos que cuspiram no meu nome enquanto eu comia pão mofado na cela. E o primeiro da fila era Jefão — ex-correria, virou dono de ponto enquanto eu tava trancado. Traidor covarde. Nunca teve coragem de ser frente quando era comigo, mas bastou eu cair pra ele abrir o peito e se chamar de patrão. — É aqui? — perguntei pro Relíquia, parando em frente à biqueira da 18. — É. O maluco tá no terraço desde meio-dia, ostentando com dinheiro que não é dele. Assenti. Subi as escadas devagar, cada passo meu ecoando como sentença. Raíssa ficou lá embaixo com o rádio. Ela sabia que, nesse tipo de momento, eu precisava ir sozinho. Era pessoal. Cheguei no terraço e vi o desgraçado rindo, com um copo de uísque na mão e uma correntona de ouro no pescoço. A arma dele largada na mesa, como se o morro fosse todo dele agora. Quando me viu, congelou. O sorriso escorreu da cara como cachaça no chão rachado. — Matador… eu não sabia que tu… — ele gaguejou. — Que eu ia voltar? — completei, caminhando até ele. — Ninguém sabia, né? Por isso tu se achou no direito de meter o nome no que não é teu. — Eu só segurei o ponto, mano. Tava tudo largado… alguém tinha que manter o controle. — Tu manteve? Ou tu meteu o louco e usou meu nome pra se engrandecer? Ele hesitou. Abaixou o olhar. Errado. Muito errado. — Eu juro que nunca falei m*l de tu… — Mas falou de mim, né? — interrompi, tirando a Glock da cintura e colocando em cima da mesa com calma. — Disse que eu não voltava. Que virei memória. Que tu era o novo rei da 18. Ele engoliu seco. Tentou pegar o copo, mas tremia tanto que derramou metade. — Olha só… — falei, aproximando o rosto do dele. — Tu se acha tão brabo, mas tá aí, borrado, na minha frente. Não tem moral pra sustentar nem tua palavra, quanto mais esse morro. — Irmão, vamo resolver isso no papo, na moral… não precisa disso. — Na moral? — dei uma risada seca. — A única moral aqui é a minha. Peguei a arma, destravei, e mirei direto no joelho dele. — Matador, pelo amor de Deus… — ele implorou. — Relaxa — falei calmo. — Eu não vou te matar. Eu quero que tu ande mancando por esse morro pra todo mundo lembrar o que acontece com traidor. Puxei o gatilho. PÁ. O grito dele ecoou pela laje e desceu como trovão nos becos da CDD. Sangue escorria, a correntona de ouro caiu com o impacto do corpo no chão. Desci as escadas com calma. Raíssa tava me esperando no beco. — Fez o que precisava? — perguntou, sem rodeios. — Um foi. Faltam dois — respondi, limpando a mão suja de sangue no pano que ela me entregou. Ela só assentiu. Não precisávamos dizer muito. Na favela, justiça se faz com atitude, não com discurso. — O recado tá dado — ela falou, olhando pra cima, onde o grito ainda ecoava. — Hoje a Cidade de Deus lembrou quem manda aqui. Sorri de canto. — E amanhã, quem esquecer... vai sangrar de novo.
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