De volta Pro Trono
Raíssa
📍 Local: Casarão abandonado na Zona Oeste — base provisória do bonde
O relógio batia três e meia da manhã. A fumaça dos cigarros misturada com o cheiro de graxa, pólvora e gasolina tomava conta da sala abafada. As paredes do casarão estavam descascadas, janelas cobertas por cobertores velhos, e a única iluminação vinha de um abajur com luz vermelha improvisada.
No centro, uma mesa de madeira com o mapa da Cidade de Deus estendido. Tinha risco de caneta pra todo lado: entradas principais, pontos de controle da polícia, e os territórios que tavam sob domínio de outras bocas. O Matador tava ali, de pé, com os punhos apoiados na mesa e os olhos cravados naquele pedaço de papel como se fosse um campo de guerra.
— A gente vai entrar pelo acesso da Edgar Werneck, tá limpo desde a última batida — falei, apontando com o dedo. — Só tem que ser antes das cinco, porque depois a UPP troca a ronda e fecha tudo.
Relíquia assentiu. Menor, como sempre, com a cara fechada, só observava. Ele nunca engoliu que Matador tinha voltado direto pro topo. Mas problema dele. A favela conhece a história, e quem construiu o nome ali não foi ele.
Matador levantou os olhos, calmo, mas com aquele brilho de quem tá pronto pra matar se for preciso.
— Eu quero subir sem alarde, mas com presença. Nada de carreata chamando atenção. Quero três motos na frente, duas atrás. Carro do meio blindado, comigo e com a Raíssa. Relíquia no comando das pontas.
— Fechou — respondi firme. — E se os gambé pararem a gente?
Ele olhou pra mim como quem não precisava de palavras.
— A gente conversa com bala.
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Mais tarde, na garagem improvisada, os carros estavam sendo revisados. Armas sendo limpas, carregadores abastecidos. Eu ajeitava minha Glock na cintura quando ele se aproximou por trás.
— Tá pronta pra voltar pra casa? — a voz dele veio baixa, rouca, bem perto da minha nuca.
— Eu nunca saí — respondi, encarando o carro escuro à frente.
— Vai ser diferente agora. Muita gente mudou de lado, outros cresceram no vácuo. Mas quem lembra de verdade... vai se curvar quando me ver.
Virei de frente pra ele.
— Você quer respeito ou quer guerra?
Ele sorriu de canto.
— Os dois.
Fiquei em silêncio por um instante. Aquele era o Matador que a Cidade de Deus conhecia — frio, direto, dominante. Mas eu sabia ler nos olhos dele o que os outros não viam. Ele tinha fome de controle, mas também precisava de lealdade. E por mais que não admitisse, ele confiava em mim mais do que em qualquer outro.
— A gente vai subir. Mas se tiver alguém na contenção que ousar reagir… — pausei, colocando a pistola no coldre. — Vai cair.
Ele assentiu e passou a mão no meu rosto, mas foi só por um segundo.
— Lá em cima, quem comanda é nós — ele falou. — E quem trair, vai sangrar.
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Quinze minutos depois, o comboio tava formado. Motos posicionadas, fuzis nos bancos de trás, rádios ligados em frequência segura. Os pneus começaram a girar devagar, saindo da zona oeste em direção ao coração da CDD.
Eu e ele no banco da frente. Silêncio no carro, só o som da estrada e da minha respiração presa.
— Você acha que ainda tem lugar pra você lá? — perguntei de repente.
Ele não respondeu logo. Só depois de uma curva fechada:
— O lugar nunca deixou de ser meu. Só ficou vazio esperando eu voltar.
Olhei pra frente. O sol ainda não tinha nascido, mas a Cidade de Deus já tava acordando. E a gente tava chegando com o nome no grito, com a alma no aço e o dedo no gatilho.
O rei tava voltando pro trono.
E eu… era o braço que ele precisava pra manter a coroa firme.