Fuga no Sangue
Raíssa
O motor do carro rugia ferozmente, ecoando pelas ruas estreitas da favela enquanto eu pressionava o acelerador com tudo que tinha. O volante parecia uma extensão das minhas mãos, o carro respondia a cada comando com a precisão de quem conhece aquele caminho como a palma da palma da mão. O suor escorria pela minha testa, misturado com a adrenalina que fervia no meu sangue. Cada segundo que passava podia ser o último.
Quando o Matador entrou no carro, senti o peso da responsabilidade recair sobre mim. Ele confiava em mim pra tirar ele daquele inferno, e eu não podia falhar. Olhei para ele um segundo, ele tentou sorrir, mas seus olhos denunciavam o medo e a pressa — a mesma que eu sentia. Ninguém naquela vida sobrevive sem ter medo, mas a gente não deixa ele ganhar.
Saímos da cadeia como um raio. As vielas da favela são labirintos que só quem nasceu e cresceu aqui sabe navegar. Desviei de carros, de pedestres, de tudo que tentava bloquear nosso caminho. Olhava para os lados pelo retrovisor, vendo os carros da polícia se aproximando, e também os inimigos, aqueles que não queriam me ver viva.
O primeiro tiro estourou atrás da gente, o vidro do carro vibrou com o impacto. Não tive tempo de pensar. Tirei a pistola do banco do passageiro com a mão direita e comecei a atirar, devolvendo o fogo com uma precisão fria. Cada tiro era uma promessa: não iam me pegar viva.
O cheiro de pólvora e borracha queimada invadiu o carro. A tensão era quase palpável. O Matador se abaixava, tentando proteger o rosto, e eu sabia que ele confiava em mim para mantê-lo seguro.
Um carro preto surgiu do nada, tentando nos fechar. Não pensei duas vezes: pisei fundo no freio, puxei o volante de forma brusca, e o carro derrapou, cantando pneus e soltando fumaça. Senti o coração quase sair pela boca, mas sabia que tinha que continuar. O Matador quase caiu, agarrei seu braço para não deixar ele se machucar.
— Segura firme! — gritei, a voz saindo rouca, mas firme.
Os tiros continuavam. Um estilhaço passou raspando pelo meu braço, e um arrepio de dor e raiva percorreu meu corpo. Atirei mais uma vez, acertando um dos perseguidores que se escondia atrás de uma moto.
A rua seguinte era uma viela estreita, quase um túnel entre os barracos. O carro quase raspou nas paredes, rangendo em protesto, mas eu mantive o controle. O perigo era real, e a habilidade precisava ser máxima.
— Aperta o cinto — avisei, mais para mim mesma do que para ele, enquanto o carro balançava violentamente.
Quando um tiro atingiu a lateral do carro, senti o metal tremer, como se ele também estivesse lutando pela vida. Xinguei baixo, os olhos fixos no volante, as mãos firmes. Atirei com uma mão só, enquanto pilotava com a outra, tentando afastar o perigo que se aproximava.
O Matador não dizia nada, mas eu sentia a tensão em cada músculo dele. Mesmo assim, eu sabia que ele confiava em mim — e isso me dava mais força.
A cada curva que fazia, cada freada brusca e aceleração, o medo e a adrenalina se misturavam, formando uma tempestade dentro do meu peito. Eu não podia falhar, não podia vacilar.
— Falta pouco — falei, com a voz firme, olhando para a rua à frente.
Eu sabia que o ponto seguro estava próximo, o lugar onde os aliados esperavam para garantir nossa fuga. Mas a sensação de alívio ainda estava longe. A guerra continuava.
Mais tiros vieram, o som das balas zumbindo perto da gente. Fiz uma manobra arriscada, entrando em contramão para despistar os perseguidores, e acelerei o carro até o limite. O motor urrava, a máquina parecia viva, lutando comigo para escapar daquele inferno.
Quando finalmente chegamos à avenida principal, o barulho das perseguições começou a ficar pra trás, como um fantasma que eu queria deixar morrer no passado.
Olhei para o lado e vi o Matador respirar aliviado. O sorriso dele — cansado, mas vitorioso — foi meu prêmio. Ele abriu os olhos para mim, e naquele momento, tudo que importava era que estávamos vivos.
— Conseguimos — ele disse, a voz rouca e marcada pela tensão.
— Ainda tem muita guerra pela frente — respondi, apertando o volante com força, já preparando minha mente para o que vinha.
Naquele carro, naquela fuga, éramos muito mais do que piloto e passageiro. Éramos parceiros na guerra, soldados contra um mundo que queria nos ver mortos. O fogo nos olhos dele se refletia no meu, e eu sabia que, juntos, íamos além de qualquer perigo.
A favela não era só nosso território. Era nosso campo de batalha, nosso lar. E eu não ia deixar ninguém tirar isso da gente.
A mão dele encontrou a minha por um segundo, firme, dando a força silenciosa que só quem vive esse caos conhece.
Enquanto o carro ganhava velocidade e a noite caía sobre a cidade, eu jurei pra mim mesma que aquela fuga era só o começo — e que com ele do meu lado, nada, absolutamente nada, poderia nos parar.