Fuga no Sangue
Matador
O ar na cela estava pesado, quase sufocante. O tempo parecia escorrer lento demais, e cada segundo ali dentro parecia uma eternidade. Mas eu sabia que a hora estava chegando. Meu corpo inteiro se preparava pra explosão que seria a fuga. Era questão de minutos. A mente estava afiada, os sentidos no limite. Eu não podia errar.
Quando a porta se abriu, um estalo seco no silêncio, meu corpo congelou por um instante. Aquele era o sinal. Passos rápidos, vozes baixas que ecoavam pelo corredor. A tensão era palpável. Eu me levantei devagar, controlando a respiração, tentando não fazer barulho. Cada músculo estava pronto pra agir.
O corredor escuro parecia uma armadilha, mas eu conhecia o caminho de cor. Avancei com cuidado até o pátio dos fundos, onde o carro preto me esperava. A visão daquela máquina blindada me deu um alívio momentâneo — minha passagem para fora daquele inferno.
No banco do motorista, estava ela: Raíssa. O rosto fechado, a expressão dura, olhos de aço. Nem um sorriso, nem uma palavra além de um gesto para eu entrar rápido. Entrei. A porta se fechou atrás de mim, e o ronco do motor tomou conta do espaço.
Ela arrancou com uma precisão que só quem vive na guerra tem. A rua apertada da favela virou um campo de batalha em segundos. No retrovisor, vi o reflexo das primeiras motos da polícia já se aproximando. E não eram só eles. Outros inimigos, da facção rival e até traidores, estavam na cola.
O som dos primeiros tiros me fez prender a respiração. A perseguição começou.
Enquanto ela acelerava, desviando com maestria entre carros, barracos e curvas quase impossíveis, meu coração batia forte, mas a mente precisava se manter fria.
— Segura firme — gritei.
Um carro preto surgiu do nada tentando fechar a gente. Ela pisou fundo no freio, fazendo o carro derrapar e escapar por um triz. Eu quase perdi o equilíbrio, mas me segurei.
— Tô com a mira travada — ela avisou, sacando a pistola e atirando pela janela.
O tiroteio explodiu no ar. Estilhaços voavam, o carro tremia a cada bala que acertava a lataria. Eu me abaixava, tentando me proteger, enquanto ela revidava com precisão cirúrgica.
Um tiro passou raspando no banco do meu lado. O susto me cortou a pele, mas a adrenalina queimava mais forte.
— Cuidado! — gritei, sentindo a urgência tomar conta.
Ela entrou numa rua escura e estreita, onde outros inimigos já tentavam bloquear o caminho. O carro quase encostou nas paredes dos barracos, o motor rugindo. Eu agarrei firme o banco.
— Aperta o cinto — ela avisou, firme.
No momento seguinte, um tiro acertou a lateral do carro com um som metálico que parecia gritar perigo. Ela xingou baixo, mas não perdeu o controle, enquanto atirava e pilotava com uma mão só.
Eu nunca tinha visto alguém tão fria em meio a uma tempestade de balas. Era como se o perigo só fizesse ela ficar mais viva.
— Falta pouco — ela disse, apontando à frente.
Precisávamos chegar ao ponto seguro, onde os aliados estavam prontos para nos cobrir. A tensão era insuportável.
Mais tiros vieram. Ela desviou, acelerou, deu ré e virou na contramão em um lance ousado. Eu quase não conseguia acompanhar os movimentos, mas confiava nela cegamente.
Quando finalmente saímos da favela e entramos numa avenida mais larga, senti o peso da perseguição começar a ficar pra trás.
O silêncio dentro do carro foi quase um choque. O cheiro de pólvora ainda estava no ar, os corpos ainda tremiam, mas por um momento, eu respirei.
— Conseguimos — falei, a voz rouca, quase sem acreditar.
Ela me olhou e soltou um sorriso cansado, mas satisfeito.
— Hoje a gente venceu — respondeu.
Naquele instante, entre o cheiro de fumaça, a adrenalina pulsando nas veias e o som distante das sirenes, entendi que sem ela eu não teria passado por tudo aquilo. Raíssa não era só braço direito, nem só uma aliada. Ela era a minha âncora, meu porto seguro.
E enquanto o carro acelerava em direção à nossa liberdade — mesmo sabendo que o pior ainda estava por vir — eu sentia uma certeza: juntos, podíamos enfrentar qualquer coisa.