Capítulo 29

468 Words
Ninguém se mexeu. Ninguém respirou. Ninguém falou. Porque a confissão de Relíquia caiu como uma bomba. "Eu me apaixonei por você." Meu coração ainda tentava entender aquilo, mas Matador entendeu na mesma hora. E pela expressão dele, aquilo não era novidade. — Então era isso — a voz de Matador saiu baixa, perigosa. Relíquia sustentou seu olhar. — Não começa. — Não começo? — Matador deu uma risada sem humor. — Você tava apaixonado pela única mulher em quem eu confiava. — Eu nunca fiz nada. — Mentira. Meu coração acelerou porque eu conhecia aquele tom. Conhecia bem. Era o tom que vinha antes de uma guerra. — Chega — falei. Nenhum dos dois me ouviu. — Eu nunca toquei nela — Relíquia respondeu. — Mas quis tocar. O silêncio ficou mortal, porque ninguém teve coragem de negar. Nem mesmo Relíquia. — Que cena linda — a voz de Marconi ecoou pela rua. Todos esqueceram a discussão imediatamente, porque ele ainda estava ali. Assistindo. Provocando. Manipulando. — Dois irmãos brigando por mulher. — Cala a boca — rosnou Matador. Marconi sorriu. — Você continua igualzinho. — Então seus olhos encontraram os meus. — Viu como eu não menti? Meu sangue ferveu. Ele estava conseguindo exatamente o que queria: dividir a gente, destruir a confiança e transformar aliados em inimigos. Foi então que ouvi o som. Motores. Muitos motores. Meu coração disparou. — O que é isso? Caveira foi o primeiro a olhar para o alto da rua e empalideceu. — Matador... — Fala. — Temos companhia. Olhei e senti o sangue gelar. Mais de vinte caminhonetes descendo a rua, armadas, cheias de homens. Marconi abriu os braços, como um rei recebendo seus súditos. — Eu disse que a guerra começou. Merda. Ele não tinha vindo sozinho. — POSIÇÕES! — Matador gritou. O morro inteiro entrou em movimento. Armas apareceram, homens correram, portões foram fechados. Tudo virou caos. Relíquia se aproximou de mim. — Você precisa sair daqui. — Nem pensar. — Raíssa... — Eu não vou fugir. Ele segurou meu braço com força. — Escuta. Os olhos dele encontraram os meus e, pela primeira vez, não havia provocação ou brincadeira. Só preocupação. — Se alguma coisa acontecer... — Não vai acontecer. — Se acontecer... — Relíquia. — Me deixa terminar. Meu coração acelerou porque eu conhecia aquele olhar. Era um olhar de despedida, e eu odiava despedidas. — Eu escolheria você. O mundo parou completamente. Aquelas palavras não eram para ser ditas ali, nem naquela hora. Mas já era tarde, porque Matador ouviu. E quando olhei para ele, vi a fúria pura, crua e perigosa. Naquele instante eu soube: Marconi não precisava destruir o morro. Ele já tinha conseguido destruir algo muito mais importante: a confiança entre nós. Então, o primeiro tiro ecoou, e a guerra finalmente começou.
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