Ninguém se mexeu. Ninguém respirou. Ninguém falou. Porque a confissão de Relíquia caiu como uma bomba.
"Eu me apaixonei por você."
Meu coração ainda tentava entender aquilo, mas Matador entendeu na mesma hora. E pela expressão dele, aquilo não era novidade.
— Então era isso — a voz de Matador saiu baixa, perigosa.
Relíquia sustentou seu olhar.
— Não começa.
— Não começo? — Matador deu uma risada sem humor. — Você tava apaixonado pela única mulher em quem eu confiava.
— Eu nunca fiz nada.
— Mentira.
Meu coração acelerou porque eu conhecia aquele tom. Conhecia bem. Era o tom que vinha antes de uma guerra.
— Chega — falei.
Nenhum dos dois me ouviu.
— Eu nunca toquei nela — Relíquia respondeu.
— Mas quis tocar.
O silêncio ficou mortal, porque ninguém teve coragem de negar. Nem mesmo Relíquia.
— Que cena linda — a voz de Marconi ecoou pela rua.
Todos esqueceram a discussão imediatamente, porque ele ainda estava ali. Assistindo. Provocando. Manipulando.
— Dois irmãos brigando por mulher.
— Cala a boca — rosnou Matador.
Marconi sorriu.
— Você continua igualzinho. — Então seus olhos encontraram os meus. — Viu como eu não menti?
Meu sangue ferveu. Ele estava conseguindo exatamente o que queria: dividir a gente, destruir a confiança e transformar aliados em inimigos.
Foi então que ouvi o som. Motores. Muitos motores. Meu coração disparou.
— O que é isso?
Caveira foi o primeiro a olhar para o alto da rua e empalideceu.
— Matador...
— Fala.
— Temos companhia.
Olhei e senti o sangue gelar. Mais de vinte caminhonetes descendo a rua, armadas, cheias de homens. Marconi abriu os braços, como um rei recebendo seus súditos.
— Eu disse que a guerra começou.
Merda. Ele não tinha vindo sozinho.
— POSIÇÕES! — Matador gritou.
O morro inteiro entrou em movimento. Armas apareceram, homens correram, portões foram fechados. Tudo virou caos.
Relíquia se aproximou de mim.
— Você precisa sair daqui.
— Nem pensar.
— Raíssa...
— Eu não vou fugir.
Ele segurou meu braço com força.
— Escuta.
Os olhos dele encontraram os meus e, pela primeira vez, não havia provocação ou brincadeira. Só preocupação.
— Se alguma coisa acontecer...
— Não vai acontecer.
— Se acontecer...
— Relíquia.
— Me deixa terminar.
Meu coração acelerou porque eu conhecia aquele olhar. Era um olhar de despedida, e eu odiava despedidas.
— Eu escolheria você.
O mundo parou completamente. Aquelas palavras não eram para ser ditas ali, nem naquela hora. Mas já era tarde, porque Matador ouviu. E quando olhei para ele, vi a fúria pura, crua e perigosa.
Naquele instante eu soube: Marconi não precisava destruir o morro. Ele já tinha conseguido destruir algo muito mais importante: a confiança entre nós.
Então, o primeiro tiro ecoou, e a guerra finalmente começou.