Meu coração parecia querer explodir. Eu estava parada diante do prédio abandonado, a arma firme na mão, os olhos presos em Marconi.
— Você tá mentindo. — Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria.
Marconi sorriu.
— Eu menti alguma vez?
— O tempo todo.
— Não. — Ele balançou a cabeça. — Eu só contei as verdades na hora errada.
Aquilo me irritou. Muito. Levantei a arma.
— Se isso for mais um jogo...
— Então atira.
O silêncio caiu entre nós. Porque ele sabia que eu não atiraria. Não ainda. Eu precisava saber. Precisava descobrir. Precisava ver com meus próprios olhos.
— Raíssa. — A voz de Matador surgiu atrás de mim. — Não entra aí.
Virei a cabeça.
— Você sabia?
Os olhos dele escureceram.
— Eu nunca quis que você descobrisse assim.
Meu coração apertou.
— Então você sabia.
O silêncio dele respondeu. De novo.
— Chega — Marconi interrompeu. — Ela merece respostas.
— Cala a boca — rosnou Matador.
— Não — Marconi respondeu. — Oito anos escondendo a verdade já foi tempo demais.
Meu sangue fervia. Porque, pela primeira vez, os dois estavam falando como homens que compartilhavam um passado. Um passado do qual eu nunca fiz parte.
Sem dizer nada, comecei a caminhar em direção à porta. Passo por passo. Lentamente. Matador não tentou me impedir. Marconi apenas observou, como se estivesse esperando aquele momento há anos.
Quando entrei no prédio, o cheiro de mofo tomou conta do ambiente. Tudo estava escuro. Silencioso. Velho. Mas havia alguém ali. Eu sentia.
Continuei andando. Corredor. Escada. Mais um corredor. Até encontrar uma porta aberta. Meu coração disparou, porque havia luz vindo lá de dentro.
E então eu vi. Un homem sentado numa cadeira. Cabelos grisalhos. Barba m*l feita. Olhos cansados, mas vivos. Muito vivos. Ele levantou a cabeça e me encarou, como se tivesse esperado por aquele momento a vida inteira.
Por alguns segundos, nenhum de nós falou. Nenhum. Até que os olhos dele se encheram de lágrimas.
— Meu Deus...
Minha respiração falhou, porque havia algo naquele rosto. Algo familiar. Algo que eu via toda vez que me olhava no espelho.
— Raíssa...
Meu coração parou. Porque aquela voz... era a voz de alguém que me conhecia, mesmo sem nunca ter me visto crescer.
— Você ficou parecida com a sua mãe.
As lágrimas queimaram meus olhos, mas eu me recusei a deixá-las cair.
— Você é meu pai?
O homem fechou os olhos, como alguém carregando anos de culpa. Anos de arrependimento. Anos de silêncio. Quando voltou a abri-los, uma lágrima escorreu por seu rosto.
— Sou.
O mundo inteiro desapareceu. E pela primeira vez na vida, eu fiquei sem palavras.