Capítulo 01

560 Words
RAÍSSA O morro nunca fica em silêncio. Sempre tem um som vindo de algum lugar: um baile acontecendo, uma moto cortando as vielas ou alguém gritando na rua. Mas naquela noite o barulho era diferente. Era o barulho do medo. Matador tinha sido preso. Eu estava parada na varanda da casa dele, observando as luzes espalhadas pela Cidade de Deus. Parecia mentira. O homem que comandava tudo, o homem que nunca errava, agora estava atrás das grades. Apertei os dentes. Aquilo não fazia o menor sentido. — Como ele foi pego? — perguntei. Os homens reunidos na sala ficaram calados. Ninguém me respondeu. — Eu fiz uma pergunta. — Foi uma blitz... — alguém falou, finalmente. Soltei uma risada seca, amarga. — Matador não cai em blitz. E não caía mesmo. Eu conhecia aquele homem há anos. Ele era cuidadoso demais para cometer um erro daqueles. Mas eu não tinha tempo para ficar procurando respostas agora; primeiro eu precisava resolver o problema. Cruzei os braços e encarei cada um deles. — Escutem bem. Enquanto Matador estiver preso, ninguém faz nada sem passar por mim. Vi alguns olhares atravessados, os mesmos olhares que eu conhecia desde a adolescência. Homens que não aceitavam receber ordens de uma mulher. Que pena, porque eu não estava pedindo a opinião de ninguém ali. — Tem alguém contra? — perguntei, desafiadora. Ninguém abriu a boca. Ótimo. Comecei a andar pela sala, impondo minha presença. — A carga chega amanhã. Os pontos continuam funcionando normalmente. E se alguém achar que pode aproveitar a ausência do chefe pra fazer gracinha, eu mesma resolvo. O silêncio absoluto respondeu por eles. Exatamente como eu queria. Pouco depois a reunião acabou. Os homens foram embora e eu finalmente fiquei sozinha ou pelo menos achei que estava. — Tá pensando demais — uma voz ecoou atrás de mim. Revirei os olhos antes mesmo de me virar. Eu conhecia perfeitamente aquela voz. — E você tá me observando demais, Relíquia. Ele deu um sorriso torto, aquele sorriso irritante que parecia nascer grudado na cara dele. — Alguém precisa ficar de olho em você. — Eu sei me cuidar. — É justamente isso que me preocupa. Balancei a cabeça e voltou a olhar a paisagem. Por alguns segundos, nenhum de nós falou nada. — O pessoal tá nervoso — ele comentou, quebrando o gelo. — Eu também estaria. — E qual é o plano? Finalmente uma pergunta útil. Me virei de frente para ele. — Tirar o Matador da prisão. Relíquia arqueou a sobrancelha, surpreso. — Simples assim? — Simples assim. — E como você pretende fazer isso? Um sorriso surgiu no canto da minha boca. — Amanhã eu vou visitar ele. — Na cadeia? — Quero ouvir da boca dele o que aconteceu. Relíquia ficou me observando em silêncio. — E depois? Olhei diretamente nos olhos dele. — Depois eu vou trazer meu chefe pra casa. Pela primeira vez, ele não retrucou. Talvez porque soubesse que eu estava falando sério, ou talvez porque conhecesse bem aquele olhar o olhar que eu assumia toda vez que colocava uma ideia maluca na cabeça. A verdade é que eu não sabia exatamente como faria aquilo, mas uma coisa era certa: Matador não ficaria preso. Não enquanto eu estivesse respirando. Eu devia minha vida àquele homem, e lealdade era uma das poucas coisas que eu nunca traía.
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