RAÍSSA
Eu odiava cadeia. O cheiro de concreto úmido, as grades frias, os olhares pesados de quem vigiava e de quem era vigiado. Tudo naquele lugar parecia cirurgicamente feito para lembrar quem realmente mandava e quem obedecia. Passei pela revista detalhada sem reclamar; não porque gostava da humilhação, mas porque tinha um objetivo inabalável, e ninguém cruzaria o meu caminho.
Quando os agentes finalmente me conduziram até a área de visitas, encontrei Matador sentado do outro lado do vidro reforçado. Pela primeira vez em anos, ele parecia de fato preso não pelas grades de ferro, mas por uma raiva contida que quase dava para tocar. Seus olhos escuros e afiados fixaram-se em mim no mesmo instante em que puxei a cadeira. Sentei-me e peguei o interfone.
— Tá com uma cara de merda — disparei.
Ele soltou uma risada curta, aquele som rouco que eu conhecia tão bem.
— E você continua sem filtro nenhum, Raíssa.
— Alguém precisa falar a verdade aqui dentro.
Por alguns segundos, ficamos apenas nos encarando através do reflexo do vidro. Era uma sensação perturbadora vê-lo ali. Matador sempre foi uma figura monumental, maior do que qualquer problema, maior do que qualquer polícia ou inimigo que ousasse cruzar a Cidade de Deus. Mas, naquele momento exato, ele reduzia-se a apenas um homem comum trancado numa sala fria.
— O que aconteceu? — perguntei, direto ao ponto.
— Vacilei — ele respondeu de forma simples.
Franzi a testa, insatisfeita com a resposta.
— Só isso, Matador?
— Só isso.
— Eu não acredito.
Ele apoiou o cotovelo na mesa de concreto, aproximando-se do vidro.
— Nem tudo é conspiração, garota.
— E nem tudo é um mero acidente.
O canto da boca dele se ergueu de leve. Eu o conhecia bem demais, e ele sabia que mentir para mim seria inútil. Mudando de assunto, ele mudou a postura.
— O morro tá tranquilo? — questionou.
— Tá sob controle.
— E os homens?
— Todos na linha.
— E o Relíquia?
— Trabalhando duro.
Matador assentiu devagar, digerindo cada palavra, como se estivesse pacientemente montando as peças de um quebra-cabeça complexo dentro da sua cabeça.
— Sabia que você daria conta do recado — afirmou.
Não respondi. Ouvir aquilo vindo dele mexia comigo muito mais do que eu jamais admitiria em voz alta. Desde que me entendia por gente, eu lutava diariamente para provar meu valor naquele mundo, e Matador era uma das raras pessoas cuja opinião realmente importava para mim. Olhei firmemente em seus olhos.
— Eu vou te tirar daqui — prometi.
Ele me sustentou o olhar, sem hesitar.
— Eu sei.
— Não tô brincando, chefe.
— Eu também não estou, Raíssa.
A confiança cega que ele depositava em mim às vezes me irritava, porque parecia que ele acreditava na minha força mais do que eu mesma em meus momentos de dúvida.
— Fica esperto lá dentro — avisei.
— Sempre fico.
— Sua fuga tá mais perto do que você imagina.
Os olhos dele brilharam intensamente. Não era surpresa, era pura expectativa sanguinária, como se ele já soubesse que eu estava arquitetando algo grande.
— Toma cuidado lá fora — ele disse, o tom de voz mudando drasticamente.
— Com a polícia?
— Não.
A firmeza daquela única palavra me fez congelar na cadeira.
— Então com quem? — perguntei, sentindo um arrepio espesso na espinha.
Matador me encarou por longos segundos, um silêncio pesado o suficiente para me deixar profundamente desconfortável.
— Com quem estiver perto demais de você.
Franzi a testa, confusa.
— O que isso quer dizer?
Mas ele apenas exibiu aquele seu sorriso misterioso que eu tanto detestava. Antes que eu pudesse insistir na pergunta, um agente prisional bateu no vidro, avisando que o tempo de visita havia acabado. Que merda. Levantei-me da cadeira contrariada.
— Aguenta mais um pouco — pediu.
— Sempre aguento.
— Eu vou buscar você — afirmei antes de colocar o fone no gancho.
— Eu sei que vai.
Desliguei o fone. E, pela primeira vez desde que coloquei os pés naquela prisão, senti um peso estranho e sufocante esmagar meu peito. Não era pelas grades, nem pelo plano arriscado de fuga, mas sim pelas últimas palavras enigmáticas dele.
Quando finalmente saí para o estacionamento abafado, encontrei Relíquia encostado na lateral de uma caminhonete preta. Ele estava de braços cruzados, com os óculos escuros escondendo completamente suas expressões.
— E aí? — ele perguntou assim que me aproximei.
Abri a porta, entrei no carro e a bati com força antes de responder.
— Ele tá bem.
— Falou alguma coisa importante?
Olhei fixamente pela janela por alguns instantes, revivendo a conversa na mente.
— Falou.
— E o que foi?
Voltei meu olhar devagar para ele.
— Que eu preciso tomar cuidado.
Relíquia soltou uma risada genuína, balançando a cabeça.
— Isso vindo do Matador chega a ser engraçado.
— Por quê?
— Porque, normalmente, é você quem representa o perigo para os outros.
Pela primeira vez naquele dia tenso, um sorriso genuíno surgiu nos meus lábios. No entanto, por algum motivo obscuro, aquela sensação estranha e incômoda continuou me acompanhando no banco do carona. Como um aviso silencioso. Como se algo terrível estivesse prestes a quebrar o horizonte, e eu ainda fosse incapaz de enxergar o quê.