Meu coração estava disparado. Olhei a foto de novo. E de novo. E de novo. Mas ela não mudava.
Alguém realmente tinha estado na laje da minha casa. Alguém realmente tinha me observado. E esse alguém queria que eu soubesse.
— Quando você recebeu isso? — perguntei para Caveira.
— Agora.
— Quem enviou?
— Número desconhecido.
Claro. Sempre um número desconhecido. Sempre um jogo. Mas aquela brincadeira tinha acabado.
— Reúne os homens.
Relíquia levantou da cadeira, sobressaltado.
— Raíssa...
— Agora — minha voz saiu fria. Perigosa. Porque eu estava cansada. Cansada de correr atrás. Chegou a hora de fazer alguém correr de mim.
Menos de vinte minutos depois, o morro inteiro estava em alerta. Homens armados ocupavam becos, lajes, entradas e saídas. Tudo. Se Marconi estava ali, eu ia encontrá-lo. Nem que precisasse virar a favela do avesso.
Foi Matador quem segurou meu braço quando eu estava saindo.
— Você tá agindo com raiva.
— E?
— É quando você mais erra.
Soltei uma risada sem humor.
— Eu não erro.
— Todo mundo erra.
Olhei bem para ele.
— Você errou há oito anos.
O silêncio caiu entre nós. Porque nós dois sabíamos do que eu estava falando. Marconi. Matador soltou meu braço lentamente.
— Só toma cuidado.
Assenti, mas não prometi nada.
Duas horas depois, nada. Nenhum sinal, nenhuma pista, nenhuma sombra. Como se Marconi tivesse evaporado. O que só me deixava mais irritada, porque aquilo era exatamente o que ele queria.
Até meu celular tocar. Número desconhecido. De novo. Atendi imediatamente.
— Fala.
— Você me procura como se eu estivesse escondido.
Uma risada baixa ecoou do outro lado. Meu sangue gelou. Marconi.
— Onde você tá?
— Olha para frente.
Meu coração disparou. Levantei os olhos e vi. Do outro lado da rua, parado, sem esconder o rosto, sem fugir, sem medo: Marconi.
Ele era mais velho do que eu imaginava. Alto, com cabelos grisalhos nas laterais, olhos escuros e um sorriso que me deu arrepios. Parecia que ele já sabia exatamente como aquela história terminaria.
— Finalmente — a voz dele saiu pelo telefone enquanto me encarava. — Você não é muito diferente do que me disseram.
Minha mão apertou a arma.
— E você fala demais.
Ele sorriu.
— Igual ao Matador.
Atravessei a rua sem pensar, sem ouvir os gritos dos homens atrás de mim, sem ouvir Relíquia me chamando. Nada. Só enxergava ele. O homem que tinha destruído tudo, o homem que tinha transformado nossas vidas num inferno.
Quando parei a poucos metros dele, Marconi apenas abriu os braços.
— Então você é a famosa Raíssa..
— E você é mais feio pessoalmente.
Ele gargalhou. Uma gargalhada sincera, como se estivesse se divertindo. Aquilo me irritou ainda mais.
— Você matou gente minha.
— E vou matar mais.
Meu dedo apertou o gatilho. Mas, antes que eu pudesse puxá-lo, Marconi falou uma frase que me fez congelar.
— Você sabe por que sua mãe vendia você quando era criança?
O mundo parou. Completamente. Porque havia coisas sobre o meu passado que ninguém deveria conhecer. Ninguém. E Marconi acabara de provar que conhecia todas elas.