Capítulo 24

522 Words
Eu não dormi. De novo. A ligação do Marconi não saía da minha cabeça. "Você confia demais nas pessoas erradas." Era exatamente isso que me irritava, porque ele estava conseguindo. Estava colocando dúvidas onde antes existia certeza. E no crime, dúvida mata mais rápido que bala. O sol ainda nem tinha nascido quando ouvi gritos do lado de fora da casa. Saí imediatamente. Arma na cintura, coração acelerado. Os homens estavam reunidos perto do portão, todos olhando para a mesma coisa. — O que aconteceu? — perguntei. Ninguém respondeu. Então eu vi. Uma parede, pichada durante a madrugada em letras vermelhas e gigantes: "O TRAIDOR ESTÁ MAIS PERTO DO QUE VOCÊ IMAGINA." Meu estômago virou. Abaixo da frase havia outro detalhe: um desenho de uma coroa, o símbolo antigo da facção do Marconi. — Filho da puta... — murmurei. Aquilo não era uma ameaça; era provocação. E pior: significava que alguém tinha entrado no nosso território sem ser visto, sem ser parado. Matador apareceu alguns segundos depois. Ao ler a mensagem, sua expressão endureceu. — Ele quer brincar. — Em tão vamos brincar — respondi. Os olhos dele encontraram os meus. — Não. — Como não? — Porque é exatamente isso que ele quer. Aquilo me irritou. Eu queria agir, atacar, fazer alguma coisa, mas, no fundo, sabia que Matador estava certo. Marconi estava puxando nossas cordas, e nós estávamos dançando. Mais tarde, eu estava analisando o celular encontrado na mochila de Caveira. Pela décima vez. Talvez pela vigésima. Até que encontrei algo estranho: uma mensagem apagada, quase destruída, mas ainda legível. Meu coração acelerou. Abri e congelei. A mensagem dizia: "A garota é prioridade." A garota. Eu. Meu sangue gelou porque aquilo significava uma coisa: desde o começo, Marconi não estava atrás apenas do Matador. Ele estava atrás de mim. A porta se abriu e Relíquia entrou. — Você tá com essa cara de novo. — Que cara? — A cara de quem descobriu alguma merda. Joguei o celular para ele. — Lê. Ele leu, e pela primeira vez em muito tempo vi o rosto dele perder a cor. — Isso não é bom. — Eu sei. — Muito não é bom. — Eu sei. Relíquia passou a mão pelos cabelos, nervoso. — Se você é prioridade... então isso começou antes da prisão. Meu coração acelerou, porque era exatamente o que eu estava pensando. Antes que qualquer um de nós pudesse continuar, a porta da casa se abriu violentamente. Caveira apareceu pálido, ofegante, assustado. Mais assustado do que eu jamais tinha visto. — Ele tá aqui. Levantei da cadeira. — Quem? — Marconi. O silêncio explodiu na sala. — O quê? — Ele tá no morro. Meu coração disparou. — Tem certeza? Caveira assentiu. — Acabei de receber uma foto. — Que foto? As mãos dele tremiam quando entregou o celular. Olhei a tela e senti o sangue desaparecer do meu corpo, porque a foto era recente, muito recente. Nela aparecia alguém sentado na laje da minha casa, observando a janela do meu quarto. Observando a mim. E logo abaixo havia uma mensagem: "Agora você tem minha atenção, Raíssa."
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