Capítulo 27

549 Words
Eu não conseguia respirar. Não direito. Não depois do que ouvi. — Mentira — foi a única palavra que consegui dizer. — Queria que fosse — a voz de Matador saiu pesada, cansada. Marconi observava tudo, como se estivesse assistindo a um espetáculo. — Você tá mentindo — olhei para ele. — Cala a boca. — Eu nem terminei. Minha mão apertou a arma. — Eu falei pra calar a boca! Mas dessa vez foi Matador quem falou. — Ele tá dizendo a verdade. O mundo pareceu parar completamente. — O quê? Os olhos dele encontraram os meus, e eu vi algo que nunca imaginei ver nele: culpa. — Sua mãe devia dinheiro. Meu coração disparou. — Que dinheiro? — Droga. Fechei os olhos, porque aquela parte eu já sabia. Minha mãe devia para todo mundo. — E daí? Matador respirou fundo. — Ela devia para a organização do Marconi. Quando a dívida cresceu, ela não tinha mais como pagar. Meu estômago embrulhou, porque eu já sabia para onde aquilo estava indo. — Não. — Raíssa... — Não! — Eles queriam você. O chão desapareceu sob meus pés. Porque eu entendia perfeitamente o que aquilo significava. Entendia bem demais. Marconi abriu um sorriso. — Inteligente. Virei para ele, com vontade de arrancar aquele sorriso da cara dele. — Você tá dizendo que eu era pagamento? — Não. Meu coração acelerou. — Então fala. — Você era mais valiosa que a dívida. Um arrepio percorreu minha espinha. Aquelas palavras não tinham som de passado. Tinham som de obsessão. — Eu tinha onze anos — minha voz saiu falhada. — Eu sei — Marconi respondeu. — Então que p***a você queria comigo? Pela primeira vez, o sorriso dele desapareceu. — Seu pai. O silêncio explodiu entre nós. Meu coração travou. — Meu pai? — Seu verdadeiro pai. Olhei para Matador. Ele fechou os olhos, como alguém que já sabia que aquela bomba explodiria um dia. — Eu não conheci meu pai. — Não — Marconi respondeu. — Mas ele me conheceu muito bem. A rua inteira parecia ter desaparecido. Os homens, as armas, o morro, tudo. Só existiam aquelas palavras. — Quem era ele? Marconi deu um passo à frente. — O único homem que conseguiu me roubar. Meu coração acelerou. — Roubar o quê? — Milhões. O silêncio caiu, pesado e absoluto. — Você tá louco. — Não. — Ele continuou me encarando. — Durante anos eu procurei por ele. — E? — Nunca encontrei. Meu sangue gelou, porque eu já sabia o resto. — Então procurou por mim. Marconi sorriu devagar. — Finalmente você tá entendendo. Relíquia deu um passo para frente. — Acabou — a voz dele saiu fria, perigosa. — Você falou demais. Marconi olhou para ele, sem medo. — Você sempre foi impulsivo. Relíquia congelou. Meu coração disparou, porque aquilo não fazia sentido. Nenhum. — Como você sabe disso? — perguntei. Marconi não respondeu, mas o olhar que lançou para Relíquia foi suficiente. Porque Relíquia empalideceu. E, naquele instante, pela primeira vez, Matador percebeu também. — Relíquia... O silêncio ficou mortal. Havia reconhecimento naquele olhar. Reconhecimento demais. E eu senti um frio atravessar minha espinha. Porque, de repente, o infiltrado que procurávamos há semanas parecia estar muito mais perto do que qualquer um de nós imaginava.
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