Eu não conseguia respirar. Não direito. Não depois do que ouvi.
— Mentira — foi a única palavra que consegui dizer.
— Queria que fosse — a voz de Matador saiu pesada, cansada.
Marconi observava tudo, como se estivesse assistindo a um espetáculo.
— Você tá mentindo — olhei para ele. — Cala a boca.
— Eu nem terminei.
Minha mão apertou a arma.
— Eu falei pra calar a boca!
Mas dessa vez foi Matador quem falou.
— Ele tá dizendo a verdade.
O mundo pareceu parar completamente.
— O quê?
Os olhos dele encontraram os meus, e eu vi algo que nunca imaginei ver nele: culpa.
— Sua mãe devia dinheiro.
Meu coração disparou.
— Que dinheiro?
— Droga.
Fechei os olhos, porque aquela parte eu já sabia. Minha mãe devia para todo mundo.
— E daí?
Matador respirou fundo.
— Ela devia para a organização do Marconi. Quando a dívida cresceu, ela não tinha mais como pagar.
Meu estômago embrulhou, porque eu já sabia para onde aquilo estava indo.
— Não.
— Raíssa...
— Não!
— Eles queriam você.
O chão desapareceu sob meus pés. Porque eu entendia perfeitamente o que aquilo significava. Entendia bem demais.
Marconi abriu um sorriso.
— Inteligente.
Virei para ele, com vontade de arrancar aquele sorriso da cara dele.
— Você tá dizendo que eu era pagamento?
— Não.
Meu coração acelerou.
— Então fala.
— Você era mais valiosa que a dívida.
Um arrepio percorreu minha espinha. Aquelas palavras não tinham som de passado. Tinham som de obsessão.
— Eu tinha onze anos — minha voz saiu falhada.
— Eu sei — Marconi respondeu.
— Então que p***a você queria comigo?
Pela primeira vez, o sorriso dele desapareceu.
— Seu pai.
O silêncio explodiu entre nós. Meu coração travou.
— Meu pai?
— Seu verdadeiro pai.
Olhei para Matador. Ele fechou os olhos, como alguém que já sabia que aquela bomba explodiria um dia.
— Eu não conheci meu pai.
— Não — Marconi respondeu. — Mas ele me conheceu muito bem.
A rua inteira parecia ter desaparecido. Os homens, as armas, o morro, tudo. Só existiam aquelas palavras.
— Quem era ele?
Marconi deu um passo à frente.
— O único homem que conseguiu me roubar.
Meu coração acelerou.
— Roubar o quê?
— Milhões.
O silêncio caiu, pesado e absoluto.
— Você tá louco.
— Não. — Ele continuou me encarando. — Durante anos eu procurei por ele.
— E?
— Nunca encontrei.
Meu sangue gelou, porque eu já sabia o resto.
— Então procurou por mim.
Marconi sorriu devagar.
— Finalmente você tá entendendo.
Relíquia deu um passo para frente.
— Acabou — a voz dele saiu fria, perigosa. — Você falou demais.
Marconi olhou para ele, sem medo.
— Você sempre foi impulsivo.
Relíquia congelou. Meu coração disparou, porque aquilo não fazia sentido. Nenhum.
— Como você sabe disso? — perguntei.
Marconi não respondeu, mas o olhar que lançou para Relíquia foi suficiente. Porque Relíquia empalideceu. E, naquele instante, pela primeira vez, Matador percebeu também.
— Relíquia...
O silêncio ficou mortal. Havia reconhecimento naquele olhar. Reconhecimento demais.
E eu senti um frio atravessar minha espinha.
Porque, de repente, o infiltrado que procurávamos há semanas parecia estar muito mais perto do que qualquer um de nós imaginava.