Eu simplesmente não conseguia acreditar nisso! Eu realmente achei que ele estava se lembrando, pensando em nós e se entregando ao verdadeiro fio do destino. No fim eu fui levada pelo alto da trilha, de pés no chão e acorrentada como um bicho, porque não quis ser a concubina favorita dele!
Eu pisoteava a estrada com um grupo de lanceiros me guiando para um lado verde, escuro e denso. Ao meu lado, silenciosa, caminhava Tesla. Eu estava fula, mas ela me olhava com atenção, como quem notasse que não se tratava apenas de estar fula, mas sim magoada.
As pessoas me olhavam de um modo penalizado, já que eu salvei a vida de todo mundo controlando o lobo, mas ninguém ousaria ir contra Malekith por minha causa, e tinha a tal da Nefertiti. Se ela aumentasse o sorriso do rosto ainda mais, eu ia lá socar a cara dela até inchar e ficar do tamanho dos p****s dela.
Olhei minhas mãos juntas à minha frente, depois voltei a focar no caminho. Chegamos perto de uma gruta, cheia de folhas, galhos quebrados e árvores grandes, quase tapando a entrada. Com cuidado, um lanceiro se aproximou da entrada, ficou parado como um sentinela e me deu sinal para entrar.
Eu pisquei, fiquei esperando alguém dar o primeiro passo, mas ninguém se moveu. As pedras que formavam todo o molde da entrada eram de um cinza escuro e deixava claro que lá dentro não havia luz.
— Eu não enxergo no escuro.
— A luz não irá lhe faltar, entre. — Tesla segurou seu bastão, apontou a entrada e me olhou compadecida. — Este lugar é o único que possui apenas uma forma de entrar e sair. Não é um lugar perigoso, é apenas um lugar impossível de permitir uma fuga.
Eu andei, tentei engolir minha indignação e fui adiante. Senti o cheiro de pedras molhadas, ouvi um barulho de água, mas sentia as vistas ficando cada vez mais escuras. Olhei para trás e vi que Tesla ainda estava me acompanhando, enquanto eu criava ainda mais coragem e seguia em frente.
A parte escura passou, até que saímos em uma entrada que dava acesso a um lago termal. A gruta era deformada no teto e tinha algumas raízes úmidas nas pedras, indicando que o lugar era um paraíso natural e no subsolo.
Aquele lugar me lembrou as águas quentes que Malekith tinha em frente ao seu quarto, ou a água termal do castelo. Havia uma vegetação ricamente colorida, com luzes fora do comum. Elas iluminavam a paisagem de uma forma natural. A água era de um azul perfeito, no centro da visão da gruta que era rodeada por uma grama verde.
— Não parece uma prisão. — comentei, levantando as sobrancelhas.
— Fique aqui sem acesso, água e comida. Um dia será suficiente para mudar de perspectiva. — Tesla apoiou o bastão nas pedras, moveu as roupas de couro pesado e chacoalhou os colares de ossos pendurados no corpo. — É a única prisioneira.
— Não terei uma amiga de cela? — perguntei com uma gota sarcástica na língua
— A Ilha diminuiu. As forças do alpha cederam, e o povo também. — Eu olhei para o lado e vi seu olhar mirar a paisagem com tristeza nos olhos. — Morreram. Cederam e definharam. Os únicos capturados, são os inimigos, e estes são mortos sem nem mesmo um julgamento.
Era triste, eu sei. O problema era fazer Malekith entender que eu sou essencial para ele, mas não desse jeito: “Trepe comigo duas vezes por semana.” Ele acha que com isso tá tudo certo? Essa versão dele é tão i****a quanto as outras! As pessoas estão sofrendo e ele quer uma concubina!
— O que aconteceu? — resolvi perguntar — Eu tenho uma versão da história, mas o que realmente aconteceu?
Tesla olhou para trás, viu os homens se retirar e sorriu de forma fraca.
— Há muito tempo, quando o Alpha ainda era filhote, um jovem filhote, fui amaldiçoada com uma visão. — Eu caminhei devagar, pisoteando as pedras úmidas e segurando a ponta das vestes, enquanto Tesla me acompanhava. — Nesta visão, havia sofrimento, caos e a queda de um povo. Ainda jovem, foi declarado que o futuro Alpha tinha forças o suficiente para consertar as fendas do destino e impedir a queda de nossa raça.
Imediatamente eu olhei para ela, engoli devagar e soltei com a voz empolgada:
— O Malekith mais jovem! — Em meu olhos, me recordei claramente de uma cena peculiar. Malekith estava na sala, no casarão de Andrômeda e falava sobre uma feiticeira que previu o futuro e o enviava para colocar as linhas no eixo, e a cena dele apontando para Tesla, era alto e clara em minha cabeça. — Sim! Isso aconteceu! Aconteceu, não foi? — Tesla piscou confusa. — Ele foi resolver o problema. Mas, Malekith sabia que quando as coisas voltassem ao normal, ele podia me esquecer. Então ele mesmo causou um efeito colateral, lhe deu essa visão e trouxe uma versão dele que não seria prejudicada quando voltasse pra casa. De qualquer forma, ele se vinculou a mim, mesmo fora da história. Mas o que foi que aconteceu, e porque Malekith não se lembra de mim?
— Interessante… — murmurou estudando minhas feições. Ela não parecia feliz com as minhas palavras, apenas se limitou a me observar e apontar com o cajado a paisagem à frente. — Como pode perceber, há uma densidade no ar. Sugiro que faça suas necessidades atrás das pedras, e evite se banhar. Não haverá avisos prévios para verificações quanto a resistência da divindade e sua beleza aguçou muitos dos lobos solitários.
— Não podem me tocar. — respondi cerrando os olhos — Os lobos não fazem isso.
— Não podem, mas como uma divindade vos peço que tenha misericórdia de meu povo. O vínculo entre sua natureza e nosso líder é de uma ruptura sem tamanho, e já tivemos mortos o suficiente. — Eu me calei, Tesla tinha muita dor em sua voz e ela não ia me responder. — E gostaria de aproveitar e lhe dizer que tenho orado firmemente. Por um acaso, sou merecedora de uma resposta? — Eu mexi os músculos do rosto, pensando numa forma de tentar explicar a ela que não sou uma Deusa, mas quando ponderei responder, Tesla soltou sua pergunta antes mesmo da minha voz sair. — Em um mundo em que não sirvo aos espíritos, havia um lugar para mim? Qual era o meu papel?
Eu tinha levantado o dedo, estava planejando contar a ela como eu a conheci e como as coisas desandaram, mas eu foquei na resposta principal. Tesla tinha uma vida solitária. Vivia no meio do povo, mas se alimentava de fé. O que fazia, de certo modo, da sua vida um constante solitária. E quem sabe, lá no fundinho, eu não consiga aguçar sua curiosidade e posteriormente sua confiança.
— Sua metade é Taurum. — Ela abriu a boca, arregalou os olhos e eu respirei fundo, juntando as mãos e respondendo apenas o que era uma verdade para mim. — E mesmo não servindo aos Deuses, sua vida ainda foi plenamente abençoada. Você e Taurum são os protetores dos filhotes de Malekith.
— Quando deixará de bajular a divindade, espiritiza? — Taurum rompeu a entrada, roubando nossa atenção e os olhos de Tesla. E ela nem mesmo conseguiu conter o rubor em sua bochecha, suas feições de espanto e os olhos grandes mirando o homem parrudo. — Algum problema? — Ele questionou, para os olhos observadores da mulher.
Tesla fechou a boca, engoliu devagar e se apegou em seu cajado. Logo, eu fiquei sozinha no paraíso, sabendo que alguma desgraça aconteceria depois. O fato é que eu consegui entender um pouco mais, e não sabia dizer se estava tudo bem.
Malekith realmente usou seus poderes para se enviar até mim e garantir que o vínculo acontecesse, mas será que ele sabia das consequência disso?
— Será que você sabia, Malekith, que manter o nosso vínculo era pior? — Eu deixei as lágrimas tomarem conta de mim, me sentei à beira de uma pedra e vi o azul da água se movimentar enquanto eu molhava meus pé. Os peixes coloridos se afastaram e eu pousei as mãos presas no colo, me permitindo chorar. — Você não se lembra de mim e Tesla desconhece o amor de Taurum, é como um livro dramático à espera de um final triste. Mas eu não quero, dessa vez eu não quero, que a gente acabe de vez! — chorei, me abaixei em meu próprio colo e dessa vez me permiti sentir o sofrimento e a angústia a qual estava recusando a me entregar.
Aconteceu. Realmente aconteceu, e aquilo só me faz acreditar que Malekiht está ciente e disposto a realmente cortar o vínculo. Não tinha outra resposta.