O dia começou normal demais, e talvez esse fosse o problema. Maya estava sentada à mesa do Azure, com um bloco de anotações aberto à sua frente, fingindo estar completamente focada nas escolhas do casamento. Flores, cores, texturas, detalhes. Tudo parecia importante, mas nada parecia suficiente para ocupar de verdade a mente dela.
— Eu gostei dessa combinação — uma das decoradoras comentou, apontando para uma paleta de tons claros.
Maya assentiu automaticamente.
— Sim… tá bonito.
Mas ela não estava vendo, não de verdade. Porque do outro lado do espaço Elena estava rindo. E aquilo por si só, já era suficiente para bagunçar tudo.
Maya tentou não olhar, tentou focar, tentou se convencer de que aquilo não significava nada. Mas falhou.
Seus olhos encontraram Elena quase sem querer. E como sempre, ficaram.
Ela estava com Ari. As duas inclinadas sobre uma mesa, discutindo alguma coisa com um dos chefs.
Elena gesticulava enquanto falava, animada, envolvida, viva. Como se estivesse exatamente onde deveria estar.
E aquilo mexia com algo profundo.
Maya desviou o olhar rápido demais.
— Maya?
Ela piscou, voltando para o presente.
— Oi?
— Você quer ver outras opções ou fechamos essa parte?
Maya demorou um segundo a mais do que deveria.
— Pode fechar.
A decoradora sorriu satisfeita, mas Maya não estava nem um pouco.
Horas depois, o movimento no Azure já havia diminuído. A maior parte da equipe havia saído. O silêncio voltou a ocupar o espaço, e foi nesse silêncio que o incômodo cresceu.
Maya caminhava lentamente pelo salão, passando os dedos distraidamente sobre algumas mesas ainda montadas.
Tudo ali tinha história, tinha memória.
Ela parou perto da entrada lateral, e antes que pudesse evitar, olhou.
Elena estava ali, sozinha dessa vez.
Encostada na mureta, olhando para a praia logo à frente.
O vento bagunçava levemente o cabelo dela, e por um segundo foi como voltar no tempo.
Maya deu um passo à frente, depois outro. E quando percebeu já estava perto demais para recuar.
— Você sempre vinha pra cá quando queria fugir de tudo.
A voz saiu mais baixa do que ela esperava.
Elena virou o rosto lentamente.
Surpresa.
Mas não completamente.
— E você sempre vinha atrás — respondeu.
O silêncio entre as duas não era confortável, mas também não era vazio.
Era cheio demais.
— Eu achei que você ia evitar esse lugar — Maya comentou.
Elena soltou um pequeno riso, sem humor.
— Eu achei que você também.
Maya cruzou os braços.
— Mas você tá aqui.
— Você também.
Maya respirou fundo.
— Eu te vi hoje.
Elena franziu levemente a testa.
— Me viu?
— Sorrindo.
Elena não respondeu de imediato.
— Você parece… bem.
Aquilo não era exatamente um elogio, e as duas sabiam.
Elena inclinou levemente a cabeça.
— Eu deveria parecer como?
Maya desviou o olhar por um segundo.
Erro.
— Eu não sei — respondeu. — Só… não assim.
Maya absorveu aquilo em silêncio.
— Eu aprendi a ficar bem, Maya.
A resposta veio calma, mas firme. E aquilo doeu mais do que Maya gostaria de admitir.
— Rápido demais, não acha?
A pergunta saiu antes que ela pudesse segurar.
Elena travou por um segundo.
— Já fazem anos.
— Não pra mim.
Maya respirou fundo, como se tentasse puxar o controle de volta. Mas já era tarde.
— Eu só… — ela começou, mas parou.
Elena a observava, esperando.
— Esquece.
— Não — Elena disse, firme. — Fala.
Maya riu baixo, passando a mão no rosto.
— Eu achei que ia ser diferente.
— O quê?
Ela finalmente olhou pra Elena.
— Te ver de novo.
O coração de Elena acelerou.
— Diferente como?
Maya demorou mas respondeu.
— Eu achei que não ia sentir nada.
Elena engoliu seco.
— E…?
Maya deu um pequeno passo pra trás.
Como se precisasse de espaço.
— Eu tava errada.
O vento soprou mais forte naquele momento, ou talvez fosse só impressão.
Porque tudo parecia instável demais.
Elena abriu a boca pra responder—
Mas não teve tempo.
— Elena?
A voz feminina cortou o ar com naturalidade. Leve, familiar e completamente fora de contexto.
As duas se viraram ao mesmo tempo.
E foi ali naquele exato segundo que tudo mudou. Uma mulher caminhava na direção delas. Cabelos levemente bagunçados pela viagem. Um sorriso cansado, mas sincero. Olhos focados direto em Elena.
Maya sentiu antes mesmo de entender.
— Oi… — a mulher disse, parando a poucos passos.
Elena ficou imóvel. Surpresa, confusa, desarmada.
— Laura…?
O nome escapou quase em um sussurro.
E foi o suficiente. Maya não conhecia aquela mulher, nunca tinha visto. Mas o jeito como Elena disse o nome, o jeito como o ar mudou, o jeito como aquela presença se encaixava… Foi automático.
Laurq sorriu de leve.
— Eu sei que devia ter avisado… — ela começou, respirando fundo. — Mas eu precisava te ver.
O coração de Maya afundou.
Elena ainda parecia tentando processar.
— Como você…?
— Eu vim assim que consegui — Laura respondeu. — Não queria mais ficar longe.
Laura deu mais um passo à frente, os olhos ainda presos em Elena.
— Você nem imagina o quanto eu senti sua falta.
Elena engoliu em seco.
— Laura…
Maya desviou o olhar, mas já era tarde.
Já tinha visto, já tinha sentido, já tinha entendido. E doeu mais do que qualquer outra coisa até agora. Porque não era mais sobre o passado, era sobre o presente. E o presente não era dela.
Maya deu um passo para trás, depois outro. Sem fazer barulho, sem interromper. ?as por dentro tudo desmoronava de novo.
Elena ainda não sabia o que fazer, e Laura só olhava pra ela. Como se estivesse exatamente onde queria estar.
E pela primeira vez desde que Elena voltou, Maya percebeu que talvez ela tivesse chegado tarde demais.