Capítulo 8

1283 Words
Estava tudo silencioso demais. Era cedo, cedo o suficiente para que a maioria das pessoas ainda estivesse dormindo ou começando o dia com calma. Mas, para mim, não havia nada de calmo naquela manhã. Eu não tinha dormido, não de verdade. Passei a noite inteira virando de um lado para o outro, revivendo cada detalhe da noite anterior como se minha mente tivesse decidido me torturar lentamente. O jeito que ela me olhou, a voz dela dizendo meu nome, a forma como tudo dentro de mim simplesmente desmoronou. Soltei um suspiro pesado enquanto caminhava pelo corredor, segurando o celular com força demais entre os dedos. Ari ainda estava dormindo quando saí ou fingiu estar. Ela sabia que eu precisava de um tempo, e pela primeira vez, eu também sabia. Desci até o andar do restaurante do hotel, pensando em tomar um café, organizar a cabeça, talvez fingir por alguns minutos que aquilo tudo não estava acontecendo. Mas, no fundo eu sabia que não tinha como fugir. Quando as portas do elevador se abriram, dei de cara com o salão praticamente vazio. Algumas mesas ocupadas, garçons andando de um lado para o outro, o cheiro de café recém-passado no ar. Escolhi uma mesa no canto, afastada, e me sentei, apoiando os cotovelos na mesa e passando a mão pelo rosto. Respira. Só respira. — Não achei que você fosse fugir. Meu corpo inteiro travou. Eu não precisei me virar para saber quem era. Fechei os olhos por um segundo antes de levantar o olhar. Maya estava parada a poucos passos da mesa, os cabelos presos de forma simples, o rosto limpo, sem maquiagem pesada como na noite anterior. Ainda assim… Ela continuava sendo ela e isso era o suficiente para bagunçar tudo. — Eu vim resolver umas coisas do casamento — ela completou, puxando a cadeira sem pedir permissão. — A gente ainda tá alinhando alguns detalhes com fornecedores… mesmo com tudo sendo no Azure. Ela fez uma pequena pausa antes de continuar: — E… é mais fácil encontrar todo mundo aqui no hotel. Claro que seria no Azure. Tinha que ser lá. — Eu não estou fugindo — respondi, mais automático do que convincente. Ela arqueou levemente a sobrancelha, como se não acreditasse nem por um segundo. — Claro. O silêncio desconfortável caiu entre nós por alguns segundos. Ela puxou a cadeira à minha frente sem pedir permissão e se sentou. Aquilo, por si só, já dizia muito. — A gente vai mesmo fingir que nunca se conheceu? — ela perguntou, direta. Respirei fundo. Era cedo demais para aquilo, mas, ao mesmo tempo, talvez nunca fosse o momento certo. — Não — respondi. Ela me observou por alguns segundos, como se estivesse tentando entender até onde eu iria. — Então? Passei a mão pelos cabelos, desviando o olhar por um instante. — Então o quê? Ela soltou uma pequena risada, sem humor. — Você sempre foi boa nisso. Franzi a testa. — Nisso o quê? — Em fingir que não entende. Aquilo me irritou mais do que deveria. — Eu não estou fingindo nada. — Tá sim — ela rebateu, rápida. — Você age como se as coisas simplesmente… não existissem. Engoli seco. Porque, no fundo ela não estava totalmente errada. — A gente não precisa fazer isso aqui — falei, tentando manter o controle. — Não agora. — Quando então? — ela perguntou. — No dia do casamento? A palavra ficou no ar, pesada, irritante e dolorida. — Eu estou trabalhando — respondi, mais firme. Ela inclinou levemente a cabeça, me analisando. — E eu estou tentando entender o que você acha que está fazendo aqui. — O meu trabalho. — Não — ela disse, balançando a cabeça. — Eu quero saber o que você está fazendo aqui, Elena. Meu peito apertou. — Eu fui contratada — respondi. — Eu não sabia que era você. Ela sustentou meu olhar procurando alguma coisa. — Mas agora sabe. Silêncio. — E você ficou — ela completou. Aquilo não era uma pergunta. — Eu não posso simplesmente ir embora. — Por quê? A pergunta veio rápida, sem espaço para resposta pronta. — Porque isso é importante — falei. — É o meu trabalho. A minha empresa depende disso. Ela me observou por alguns segundos. — Sempre muito responsável. Soltei um suspiro baixo. — O que você quer que eu faça, Maya? Ela ficou em silêncio por um instante. E, pela primeira vez desde que chegou, pareceu menos na defensiva. — Eu não sei — ela admitiu, mais baixo. Aquilo me pegou de surpresa. — Eu só… — ela parou, como se estivesse escolhendo as palavras. — Eu não esperava. Soltei uma risada fraca. — Nem eu. O silêncio voltou, mas dessa vez diferente. Menos agressivo e mais confuso. — Você mudou — ela disse de repente. Levantei o olhar. — Você também. Ela desviou os olhos por um segundo, como se aquela resposta tivesse algum peso. — Paris, né? — Assenti. — Faz tempo. — Seis anos. Seis anos. Dizer aquilo em voz alta fez parecer ainda mais absurdo. — Você… — ela começou, mas parou. — O quê? Ela hesitou. E isso, vindo dela, era raro. — Você tá bem? A pergunta foi simples mas carregava muito mais do que parecia. — Eu estou tentando — respondi. Ela assentiu devagar como se entendesse. E talvez entendesse mesmo. — Eu achei que você nunca mais voltaria — ela disse, mais baixo. Meu peito apertou de novo. — Eu também achei. Ela soltou um pequeno suspiro. — Miami não era mais um lugar que fazia sentido pra você. Aquilo me fez olhar pra ela com mais atenção. — Não era. — E agora é? Pensei por um segundo. — Agora é trabalho. Ela sorriu de leve. Mas não era um sorriso feliz. — Claro. Um garçom se aproximou, quebrando o clima por alguns segundos. Fizemos pedidos simples, quase automáticos, e o silêncio voltou assim que ele se afastou. O silêncio durou alguns segundos. Até que ela levantou o olhar novamente, me encarando de um jeito mais direto. — Você seguiu em frente, né? Meu coração deu um pequeno salto. A pergunta não era acusação, mas também não era leve. Respirei fundo antes de responder. — Acho que todas nós seguimos. Eu tenho uma vida em Paris. Ela sustentou meu olhar por um segundo como se procurasse algo além da resposta. — Entendi — disse por fim, desviando os olhos. Mas o jeito que ela falou deixava claro que não tinha entendido nada. — A gente não precisa complicar isso — falei. Ela levantou o olhar rapidamente. — Isso já é complicado. Silêncio. — Eu vou me casar — ela disse, como se estivesse lembrando a si mesma. A frase caiu entre nós como um peso. — Eu sei. Ela me observou por mais alguns segundos. — A gente precisa manter isso profissional. Assenti. — Concordo. Mas nenhuma das duas parecia convencida. O garçom voltou com nossos pedidos, e, por alguns minutos, fingimos normalidade. Comentamos coisas superficiais, evitamos qualquer assunto que importasse de verdade. Quando terminamos, Maya se levantou primeiro. — A gente se vê mais tarde — ela disse. Assenti. — No trabalho. Ela segurou meu olhar por um segundo a mais do que o necessário. — No trabalho. E então foi embora. Fiquei ali, sentada, olhando para a xícara de café já fria. Sentindo algo dentro de mim se reorganizar. Ou talvez… se desorganizar ainda mais. Porque agora não era mais surpresa, não era mais choque. Era real, ela estava ali. E eu também. E, pela primeira vez a gente tinha parado de fugir. Mesmo que só um pouco. E isso… já era perigoso demais.
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