Capítulo 9

1141 Words
O bar da área inferior do hotel começava a ganhar vida conforme a tarde avançava. A piscina refletia o céu claro de Miami, e algumas pessoas já ocupavam as espreguiçadeiras ao redor, aproveitando o calor que parecia constante naquela cidade. O som baixo de música ambiente misturado ao barulho da água criava um clima quase relaxante. Quase. Porque dentro de mim… nada estava relaxado. — Você tá parecendo que levou um soco emocional — Ari comentou, se jogando na espreguiçadeira ao meu lado. Soltei um suspiro baixo, apoiando a cabeça para trás. — Talvez eu tenha levado. — Eu perdi alguma coisa depois que você saiu hoje cedo? Virei o rosto para ela. — Eu encontrei com a Maya. Ari ficou em silêncio por meio segundo. — Claro que encontrou. Revirei os olhos de leve. — Não começa. — Eu não tô começando nada — ela disse, levantando as mãos. — Eu só… tô aceitando que o universo claramente odeia você. Apesar de tudo, um pequeno sorriso escapou. — Foi rápido — continuei. — Nada demais. Ela me olhou com aquela expressão de “eu não acredito em você nem por um segundo”. — Elena. — Sério. — Você não sabe mentir — Ari respondeu. — Eu não tô mentindo. — Tá omitindo. Justo. Antes que eu pudesse responder, ouvi uma voz familiar atrás de mim. — Eu sabia que era você. Fechei os olhos por um segundo. Respira. Quando me virei, Naomi estava parada a poucos passos, usando óculos escuros e com aquele mesmo ar confiante de sempre. Diana estava ao lado dela, com um sorriso que misturava surpresa e diversão. — Elena — Naomi disse, abrindo um sorriso maior. — Eu ainda não acredito nisso. — Eu também não — respondi, me levantando. Ela me puxou para um abraço apertado, sem hesitar. — Você sumiu do mapa. — Dramática — Diana comentou, mas veio me abraçar logo em seguida. — Mas ela não tá errada. Soltei uma risada baixa. — Eu sei. Normani se afastou um pouco, me analisando. — Você mudou. — Vocês também. — A gente envelheceu com dignidade — Diana disse, orgulhosa. — Fala por você — Naomi rebateu. Ari, que até então observava tudo em silêncio, se levantou. — Eu vou assumir que vocês são as famosas amigas misteriosas do passado? Naomi virou o rosto para ela, sorrindo. — Naomi. — Diana. — Ariana — ela respondeu. — A melhor amiga atual. — Atual? — Diana repetiu, levantando uma sobrancelha. — Então teve outras? — Muitas — Ari respondeu, séria. Eu a encarei. — Ari. Ela deu de ombros. — O que? Tô criando caso. Naomi soltou uma risada. — Eu gostei dela. — Eu também — Diana concordou. — Ótimo — murmurei. — Mas o que vocês fazem aqui? — Fazemos parte dos membros do clube daqui — Naomi explicou. — E as piscinas quentes são as melhores de toda a Miami. Quase impossível de resistir. Concordei. De fato todas as coisas que o Palms Hotel oferecia nos deixava de boca aberta pela qualidade. Nos sentamos nas espreguiçadeiras, e por alguns segundos o clima foi leve. Quase normal, quase como se aqueles anos não existissem. Mas isso durou pouco. — Então… — Naomi começou, cruzando as pernas. — Paris? Assenti. — Faz tempo. — Seis anos — Diana completou, como se já soubesse. — Vocês sabem de tudo, né? — Sempre soubemos — Naomi respondeu, simples. Ari olhou entre nós, claramente interessada. — Eu sinto que eu perdi uns bons anos de história aqui. — Perdeu mesmo — Diana disse. — Vocês não ajudam — falei. Naomi me encarou por um segundo a mais. — Você nunca voltou. Aquilo não era acusação mas também não era neutro. — Não fazia sentido — respondi. — Faz agora? Pensei por um segundo. — Não exatamente. Diana inclinou a cabeça. — Então por que você tá aqui? — Trabalho. Naomi soltou um pequeno riso. — Claro. O mesmo tom da Maya. Aquilo me incomodou mais do que deveria. — É verdade. — A gente acredita — Diana disse. — Só não acredita que é só isso. Silêncio. Ari cruzou os braços, olhando diretamente para mim. — Eu também não. Revirei os olhos. — Vocês são insuportáveis. — A gente é honesta — Naomi corrigiu. Ela se inclinou um pouco pra frente. — Você sabia que era o casamento dela? — Não. — Nem desconfiou? — Não. — Nem quando falaram o nome? — Naomi — murmurei. Ela levantou as mãos. — Tá, parei. Mas não parou. — Você viu ela hoje? Ari respondeu antes de mim. — Viu. Naomi e Diana trocaram um olhar rápido, aquele tipo de olhar que dizia muita coisa. — E aí? — Diana perguntou. Respirei fundo. — Foi… estranho. — Só estranho? — Naomi provocou. — Muito estranho. — Melhor. Ari se inclinou um pouco pra frente. — Eu preciso perguntar — ela disse. — Como elas eram? O silêncio caiu. Naomi olhou pra mim, como se pedisse permissão. Eu não impedi. — Intensas — ela respondeu. — Caóticas — Diana completou. — Apaixonadas demais — Naomi acrescentou. Senti meu peito apertar. Ari absorveu cada palavra. — E…? Diana soltou um suspiro leve. — E isso nunca termina bem quando você tem dezessete anos. Ninguém riu. Porque ninguém achou graça. — Elas brigavam muito — Naomi disse, mais calma agora. — Mas também… se amavam de um jeito que não dava pra ignorar. Fechei os olhos por um segundo. — Era tudo ou nada — Diana completou. — E geralmente era tudo — Naomi disse. — Até virar nada. Ari ficou em silêncio. Processando. — E como acabou? — ela perguntou, olhando pra mim. Meu corpo inteiro ficou tenso. — Ari... — Não, eu quero entender. O olhar dela não era invasivo, era preocupado. — Acabou — respondi. Seco, direto e insuficiente. Naomi me encarou. — Você foi embora. Assenti. — Sem falar nada — Diana completou. Meu coração falhou uma batida. — Não foi assim. Mas minha voz não soou tão convincente. Ari percebeu. Claro que percebeu. — Então como foi? Silêncio. Eu não respondi. Porque não conseguia, porque não sabia como. Porque talvez eu nunca tivesse explicado aquilo direito. — Elena — Naomi disse, mais suave agora — a Maya ficou destruída. Aquilo me atingiu como um soco. Eu desviei o olhar imediatamente. — Eu sei. Mas será que sabia mesmo? — Não — Diana disse, balançando a cabeça. — Você não sabe. O silêncio voltou. Mas agora mais desconfortável, mais real. Ari olhou pra mim. E eu sabia que aquela conversa ainda não tinha acabado. Nem de longe. E, pela primeira vez desde que tudo começou, eu senti que o passado não estava só voltando. Ele estava sendo recontado e talvez, não da forma que eu lembrava.
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