O bar da área inferior do hotel começava a ganhar vida conforme a tarde avançava.
A piscina refletia o céu claro de Miami, e algumas pessoas já ocupavam as espreguiçadeiras ao redor, aproveitando o calor que parecia constante naquela cidade.
O som baixo de música ambiente misturado ao barulho da água criava um clima quase relaxante.
Quase. Porque dentro de mim… nada estava relaxado.
— Você tá parecendo que levou um soco emocional — Ari comentou, se jogando na espreguiçadeira ao meu lado.
Soltei um suspiro baixo, apoiando a cabeça para trás.
— Talvez eu tenha levado.
— Eu perdi alguma coisa depois que você saiu hoje cedo?
Virei o rosto para ela.
— Eu encontrei com a Maya.
Ari ficou em silêncio por meio segundo.
— Claro que encontrou.
Revirei os olhos de leve.
— Não começa.
— Eu não tô começando nada — ela disse, levantando as mãos. — Eu só… tô aceitando que o universo claramente odeia você.
Apesar de tudo, um pequeno sorriso escapou.
— Foi rápido — continuei. — Nada demais.
Ela me olhou com aquela expressão de “eu não acredito em você nem por um segundo”.
— Elena.
— Sério.
— Você não sabe mentir — Ari respondeu.
— Eu não tô mentindo.
— Tá omitindo.
Justo.
Antes que eu pudesse responder, ouvi uma voz familiar atrás de mim.
— Eu sabia que era você.
Fechei os olhos por um segundo.
Respira.
Quando me virei, Naomi estava parada a poucos passos, usando óculos escuros e com aquele mesmo ar confiante de sempre. Diana estava ao lado dela, com um sorriso que misturava surpresa e diversão.
— Elena — Naomi disse, abrindo um sorriso maior. — Eu ainda não acredito nisso.
— Eu também não — respondi, me levantando.
Ela me puxou para um abraço apertado, sem hesitar.
— Você sumiu do mapa.
— Dramática — Diana comentou, mas veio me abraçar logo em seguida. — Mas ela não tá errada.
Soltei uma risada baixa.
— Eu sei.
Normani se afastou um pouco, me analisando.
— Você mudou.
— Vocês também.
— A gente envelheceu com dignidade — Diana disse, orgulhosa.
— Fala por você — Naomi rebateu.
Ari, que até então observava tudo em silêncio, se levantou.
— Eu vou assumir que vocês são as famosas amigas misteriosas do passado?
Naomi virou o rosto para ela, sorrindo.
— Naomi.
— Diana.
— Ariana — ela respondeu. — A melhor amiga atual.
— Atual? — Diana repetiu, levantando uma sobrancelha. — Então teve outras?
— Muitas — Ari respondeu, séria.
Eu a encarei.
— Ari.
Ela deu de ombros.
— O que? Tô criando caso.
Naomi soltou uma risada.
— Eu gostei dela.
— Eu também — Diana concordou.
— Ótimo — murmurei. — Mas o que vocês fazem aqui?
— Fazemos parte dos membros do clube daqui — Naomi explicou. — E as piscinas quentes são as melhores de toda a Miami. Quase impossível de resistir.
Concordei. De fato todas as coisas que o Palms Hotel oferecia nos deixava de boca aberta pela qualidade.
Nos sentamos nas espreguiçadeiras, e por alguns segundos o clima foi leve. Quase normal, quase como se aqueles anos não existissem.
Mas isso durou pouco.
— Então… — Naomi começou, cruzando as pernas. — Paris?
Assenti.
— Faz tempo.
— Seis anos — Diana completou, como se já soubesse.
— Vocês sabem de tudo, né?
— Sempre soubemos — Naomi respondeu, simples.
Ari olhou entre nós, claramente interessada.
— Eu sinto que eu perdi uns bons anos de história aqui.
— Perdeu mesmo — Diana disse.
— Vocês não ajudam — falei.
Naomi me encarou por um segundo a mais.
— Você nunca voltou.
Aquilo não era acusação mas também não era neutro.
— Não fazia sentido — respondi.
— Faz agora?
Pensei por um segundo.
— Não exatamente.
Diana inclinou a cabeça.
— Então por que você tá aqui?
— Trabalho.
Naomi soltou um pequeno riso.
— Claro.
O mesmo tom da Maya.
Aquilo me incomodou mais do que deveria.
— É verdade.
— A gente acredita — Diana disse. — Só não acredita que é só isso.
Silêncio.
Ari cruzou os braços, olhando diretamente para mim.
— Eu também não.
Revirei os olhos.
— Vocês são insuportáveis.
— A gente é honesta — Naomi corrigiu.
Ela se inclinou um pouco pra frente.
— Você sabia que era o casamento dela?
— Não.
— Nem desconfiou?
— Não.
— Nem quando falaram o nome?
— Naomi — murmurei.
Ela levantou as mãos.
— Tá, parei.
Mas não parou.
— Você viu ela hoje?
Ari respondeu antes de mim.
— Viu.
Naomi e Diana trocaram um olhar rápido, aquele tipo de olhar que dizia muita coisa.
— E aí? — Diana perguntou.
Respirei fundo.
— Foi… estranho.
— Só estranho? — Naomi provocou.
— Muito estranho.
— Melhor.
Ari se inclinou um pouco pra frente.
— Eu preciso perguntar — ela disse. — Como elas eram?
O silêncio caiu. Naomi olhou pra mim, como se pedisse permissão. Eu não impedi.
— Intensas — ela respondeu.
— Caóticas — Diana completou.
— Apaixonadas demais — Naomi acrescentou.
Senti meu peito apertar.
Ari absorveu cada palavra.
— E…?
Diana soltou um suspiro leve.
— E isso nunca termina bem quando você tem dezessete anos.
Ninguém riu. Porque ninguém achou graça.
— Elas brigavam muito — Naomi disse, mais calma agora. — Mas também… se amavam de um jeito que não dava pra ignorar.
Fechei os olhos por um segundo.
— Era tudo ou nada — Diana completou.
— E geralmente era tudo — Naomi disse. — Até virar nada.
Ari ficou em silêncio. Processando.
— E como acabou? — ela perguntou, olhando pra mim.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— Ari...
— Não, eu quero entender.
O olhar dela não era invasivo, era preocupado.
— Acabou — respondi.
Seco, direto e insuficiente.
Naomi me encarou.
— Você foi embora.
Assenti.
— Sem falar nada — Diana completou.
Meu coração falhou uma batida.
— Não foi assim.
Mas minha voz não soou tão convincente.
Ari percebeu. Claro que percebeu.
— Então como foi?
Silêncio. Eu não respondi. Porque não conseguia, porque não sabia como. Porque talvez eu nunca tivesse explicado aquilo direito.
— Elena — Naomi disse, mais suave agora — a Maya ficou destruída.
Aquilo me atingiu como um soco. Eu desviei o olhar imediatamente.
— Eu sei.
Mas será que sabia mesmo?
— Não — Diana disse, balançando a cabeça. — Você não sabe.
O silêncio voltou. Mas agora mais desconfortável, mais real.
Ari olhou pra mim. E eu sabia que aquela conversa ainda não tinha acabado. Nem de longe. E, pela primeira vez desde que tudo começou, eu senti que o passado não estava só voltando.
Ele estava sendo recontado e talvez, não da forma que eu lembrava.