Maya chegou atrasada de novo. Mas dessa vez não passou despercebido.
— Que bom que decidiu aparecer.
A voz de Phillip veio antes mesmo que ela cruzasse completamente o salão.
Seca, controlada, mas carregada.
Maya travou por um segundo.
— Tive um imprevisto.
Resposta automática.
Ele assentiu devagar, como se estivesse avaliando cada palavra.
— Imagino.
Silêncio. E aquilo já dizia muito mais do que qualquer discussão.
Eu estava do outro lado do salão, mas parecia perto demais, porque dava pra sentir a tensão, o desconforto, a mudança.
— A gente precisa falar sobre alguns ajustes — Phillip continuou, ainda olhando pra ela. — Principalmente sobre... organização.
A pausa foi sutil, mas intencional.
Maya cruzou os braços.
— Se tiver algo específico, pode falar.
— Tenho.
Ele deu um passo à frente diminuindo o espaço entre eles.
— Você tem se distraído.
Aquilo me fez prender a respiração.
Maya sustentou o olhar.
— Não tenho.
— Tem, sim. — Agora mais firme. — E eu não gosto disso.
Maya inclinou levemente a cabeça.
— Isso é sobre o trabalho ou…?
Ela não terminou a frase, mas também não precisava. Phillip sorriu de lado, sem humor.
— Deveria ser só sobre o trabalho.
Aquilo não era uma acusação direta, mas também não era neutro. Era aviso.
— Tá tudo certo aqui?
Ari apareceu no momento exato, como sempre. Maya foi a primeira a desviar o olhar.
— Está.
Phillip ainda ficou alguns segundos em silêncio, observando. Depois assentiu.
— Claro.
Mas não parecia nem um pouco convencido.
O clima no Azure mudou. Não era mais só tensão emocional, agora tinha risco. Passei o resto da manhã tentando focar, mas era impossível porque toda vez que eu olhava Maya estava diferente. Mais quieta, mais distante, mais fechada. E aquilo me incomodava mais do que eu queria admitir.
— Para de olhar.
A voz de Ari surgiu ao meu lado.
— Eu não estou olhando.
— Está sim.
Revirei os olhos.
— Você tá paranoica.
— E você tá óbvia. Cuidado.
Ela completou, e aquilo não foi uma brincadeira.
No meio da tarde, Phillip chamou todos para revisar o andamento geral. Equipe reunida, papéis, planejamento. Mas ninguém ali estava realmente focado só nisso.
— Precisamos de mais alinhamento — ele disse, andando de um lado pro outro. — Principalmente entre os responsáveis diretos.
Os olhos dele passaram por mim, depois por Laura e pararam em Maya por tempo demais.
— Não podemos ter falhas agora.
Silêncio.
— Eu estou aqui participando de tudo, do jeito que você me pediu. — Maya respondeu firme.
Ele parou.
— Então começa a agir como alguém que realmente se importa com esse casamento.
Aquilo foi direto. Sem disfarce, sem cuidado. O ar ficou pesado de novo, mas agora todo mundo sentiu.
— Se você tiver alguma crítica específica.
— Eu tenho.
Ele cortou sem hesitar.
— Você não está focada.
Direto, na frente de todo mundo. Aquilo não era mais só cobrança, era exposição.
— Phillip...
— Não, Maya. — Ele deu mais um passo. — Eu preciso saber se você está realmente comprometida com isso.
Silêncio.
Maya travou por um segundo, efoi o suficiente, porque ele percebeu.
— Ou se tem alguma coisa te distraindo.
Os olhos dele foram até mim. Rápido, mas claro. Meu coração disparou.
Todos que estavam ali perceberam, e pela primeira vez, ninguém ali estava confortável.
— Isso não tem nada a ver com a equipe.
Maya respondeu firme, mas a voz não estava tão segura quanto antes.
— É mesmo?
Silêncio.
Eu não aguentei.
— Isso já passou do limite.
A minha voz saiu antes que eu pudesse impedir. Todos olharam pra mim, inclusive ele.
— Isso é uma reunião profissional — continuei. — Se tem algo a ser tratado, que seja de forma profissional.
Phillip me encarou por um segundo longo demais.
— Eu estou sendo profissional.
— Não parece.
— Você tem algo a acrescentar além disso? — Ele perguntou seco.
Eu deveria parar, mas não parei.
— Só que isso aqui não é a maneira certa de lidar com a equipe.
Maya me olhou na hora. E naquele olhar tinha tudo. Alerta, medo e algo mais.
Phillip soltou um leve riso, sem humor.
— Eu não sabia que você também fazia parte dessa discussão.
Aquilo foi direto.
— Eu faço parte da equipe.
— Mas não dessa parte.
Corte seco.
— Acho que todo mundo aqui quer a mesma coisa. — Ari interveio. — Então vamos focar nisso.
Phillip não respondeu de imediato. Ficou olhando, analisando, ligando pontos. Depois de alguns segundos ele assentiu.
— Claro.
Mas o clima já estava quebrado.
— Reunião encerrada.
As pessoas começaram a se dispersar.
Devagar, em silêncio. Ninguém queria estar ali mais.
— Elena. — A voz de Maya veio baixa. — O que você fez?
— Eu só falei o óbvio.
— Você não entende.
— Então me explica.
Ela passou a mão no rosto inquieta.
— Você não pode fazer isso.
— Isso o quê?
— Se meter.
Silêncio.
Aquilo doeu.
— Eu não estou me metendo.
— Está sim. E você só piora as coisas.
— Eu tava te defendendo.
— Eu não preciso que você me defenda.
A frase saiu dura, e no mesmo segundo ela se arrependeu. Mas já era tarde.
— Entendi.
Minha voz saiu mais fria do que eu pretendia.
— Não foi isso que eu quis dizer...
— Não precisa explicar. Eu já entendi.
Me virei e saí do outro lado do salão Laura estava parada, observando tudo.
O olhar dela não tinha dúvida, nem hesitação. Só certeza.
E isso era pior do que qualquer briga.