Capítulo 24

943 Words
Maya chegou atrasada de novo. Mas dessa vez não passou despercebido. — Que bom que decidiu aparecer. A voz de Phillip veio antes mesmo que ela cruzasse completamente o salão. Seca, controlada, mas carregada. Maya travou por um segundo. — Tive um imprevisto. Resposta automática. Ele assentiu devagar, como se estivesse avaliando cada palavra. — Imagino. Silêncio. E aquilo já dizia muito mais do que qualquer discussão. Eu estava do outro lado do salão, mas parecia perto demais, porque dava pra sentir a tensão, o desconforto, a mudança. — A gente precisa falar sobre alguns ajustes — Phillip continuou, ainda olhando pra ela. — Principalmente sobre... organização. A pausa foi sutil, mas intencional. Maya cruzou os braços. — Se tiver algo específico, pode falar. — Tenho. Ele deu um passo à frente diminuindo o espaço entre eles. — Você tem se distraído. Aquilo me fez prender a respiração. Maya sustentou o olhar. — Não tenho. — Tem, sim. — Agora mais firme. — E eu não gosto disso. Maya inclinou levemente a cabeça. — Isso é sobre o trabalho ou…? Ela não terminou a frase, mas também não precisava. Phillip sorriu de lado, sem humor. — Deveria ser só sobre o trabalho. Aquilo não era uma acusação direta, mas também não era neutro. Era aviso. — Tá tudo certo aqui? Ari apareceu no momento exato, como sempre. Maya foi a primeira a desviar o olhar. — Está. Phillip ainda ficou alguns segundos em silêncio, observando. Depois assentiu. — Claro. Mas não parecia nem um pouco convencido. O clima no Azure mudou. Não era mais só tensão emocional, agora tinha risco. Passei o resto da manhã tentando focar, mas era impossível porque toda vez que eu olhava Maya estava diferente. Mais quieta, mais distante, mais fechada. E aquilo me incomodava mais do que eu queria admitir. — Para de olhar. A voz de Ari surgiu ao meu lado. — Eu não estou olhando. — Está sim. Revirei os olhos. — Você tá paranoica. — E você tá óbvia. Cuidado. Ela completou, e aquilo não foi uma brincadeira. No meio da tarde, Phillip chamou todos para revisar o andamento geral. Equipe reunida, papéis, planejamento. Mas ninguém ali estava realmente focado só nisso. — Precisamos de mais alinhamento — ele disse, andando de um lado pro outro. — Principalmente entre os responsáveis diretos. Os olhos dele passaram por mim, depois por Laura e pararam em Maya por tempo demais. — Não podemos ter falhas agora. Silêncio. — Eu estou aqui participando de tudo, do jeito que você me pediu. — Maya respondeu firme. Ele parou. — Então começa a agir como alguém que realmente se importa com esse casamento. Aquilo foi direto. Sem disfarce, sem cuidado. O ar ficou pesado de novo, mas agora todo mundo sentiu. — Se você tiver alguma crítica específica. — Eu tenho. Ele cortou sem hesitar. — Você não está focada. Direto, na frente de todo mundo. Aquilo não era mais só cobrança, era exposição. — Phillip... — Não, Maya. — Ele deu mais um passo. — Eu preciso saber se você está realmente comprometida com isso. Silêncio. Maya travou por um segundo, efoi o suficiente, porque ele percebeu. — Ou se tem alguma coisa te distraindo. Os olhos dele foram até mim. Rápido, mas claro. Meu coração disparou. Todos que estavam ali perceberam, e pela primeira vez, ninguém ali estava confortável. — Isso não tem nada a ver com a equipe. Maya respondeu firme, mas a voz não estava tão segura quanto antes. — É mesmo? Silêncio. Eu não aguentei. — Isso já passou do limite. A minha voz saiu antes que eu pudesse impedir. Todos olharam pra mim, inclusive ele. — Isso é uma reunião profissional — continuei. — Se tem algo a ser tratado, que seja de forma profissional. Phillip me encarou por um segundo longo demais. — Eu estou sendo profissional. — Não parece. — Você tem algo a acrescentar além disso? — Ele perguntou seco. Eu deveria parar, mas não parei. — Só que isso aqui não é a maneira certa de lidar com a equipe. Maya me olhou na hora. E naquele olhar tinha tudo. Alerta, medo e algo mais. Phillip soltou um leve riso, sem humor. — Eu não sabia que você também fazia parte dessa discussão. Aquilo foi direto. — Eu faço parte da equipe. — Mas não dessa parte. Corte seco. — Acho que todo mundo aqui quer a mesma coisa. — Ari interveio. — Então vamos focar nisso. Phillip não respondeu de imediato. Ficou olhando, analisando, ligando pontos. Depois de alguns segundos ele assentiu. — Claro. Mas o clima já estava quebrado. — Reunião encerrada. As pessoas começaram a se dispersar. Devagar, em silêncio. Ninguém queria estar ali mais. — Elena. — A voz de Maya veio baixa. — O que você fez? — Eu só falei o óbvio. — Você não entende. — Então me explica. Ela passou a mão no rosto inquieta. — Você não pode fazer isso. — Isso o quê? — Se meter. Silêncio. Aquilo doeu. — Eu não estou me metendo. — Está sim. E você só piora as coisas. — Eu tava te defendendo. — Eu não preciso que você me defenda. A frase saiu dura, e no mesmo segundo ela se arrependeu. Mas já era tarde. — Entendi. Minha voz saiu mais fria do que eu pretendia. — Não foi isso que eu quis dizer... — Não precisa explicar. Eu já entendi. Me virei e saí do outro lado do salão Laura estava parada, observando tudo. O olhar dela não tinha dúvida, nem hesitação. Só certeza. E isso era pior do que qualquer briga.
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