Capítulo 12

1064 Words
Algumas memórias não passam… só aprendem a esperar. O cheiro veio antes mesmo que eu percebesse o que estava acontecendo. Era suave, quente, familiar demais. Parei no meio da sala, franzindo levemente a testa, tentando entender de onde vinha aquilo. Não era nada do hotel. Não era café, nem comida do restaurante lá embaixo. — Eu pedi no café vegano lá de baixo — a voz de Ari veio da cozinha. — Mas não sei se ficou igual à que você fala. Meu coração falhou uma batida. Caminhei devagar até a bancada e então eu vi. O bolo salgado. Dourado por cima, com as bordas levemente irregulares, como se tivesse sido feita à mão. O cheiro era inconfundível. Bolo salgado. Por um segundo eu não estava mais ali. — Eu sei que não é igual à da sua mãe — Ari continuou, distraída — mas eu fiquei curiosa depois de você falar tanto. Eu não respondi, não consegui. Porque, de repente, não era mais só um bolo salgado, era uma porta. E ela tinha acabado de se abrir. Apoiei a mão na bancada, sentindo o ar ficar mais pesado nos pulmões. — Elena? A voz da Ari ficou mais próxima. — Você tá bem? Assenti de leve, mesmo sabendo que ela não ia se convencer com isso. — Tô. Mas minha voz saiu distante, como se não fosse totalmente minha. Ari me observou por alguns segundos, avaliando. — Quer que eu jogue fora? Aquilo me fez olhar pra ela rapidamente. — Não. Ela levantou levemente as sobrancelhas. — Tá. O silêncio se instalou por um instante. — Eu só… — comecei, mas parei. Não sabia como explicar. Como dizer que aquilo ali era mais do que comida, muito mais. Respirei fundo. — Eu vou sair um pouco. Ari não questionou dessa vez. Só assentiu. — Tá. Mas volta. Assenti e peguei a chave, saindo antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa. O ar lá fora estava mais quente, mas ainda assim, parecia mais fácil de suportar do que o que estava dentro de mim. Caminhei sem pensar muito, como se meu corpo já soubesse exatamente pra onde ir. E talvez soubesse mesmo. Quando dei por mim eu já estava ali de frente para aquele enorme prédio, o Azure. Imponente e intocado pelo tempo. Meu peito apertou imediatamente. — Claro — murmurei para mim mesma. — Tinha que ser aqui. Subi os poucos degraus lentamente, sentindo cada passo como se estivesse atravessando algo invisível. O lugar estava mais vazio do que no dia da reunião. Silencioso, quase respeitoso. Caminhei até a área externa e então parei. A vista era a mesma. O mar se encontrando com o céu no horizonte, os tons suaves se misturando, criando aquela sensação de infinito que sempre me deixava em silêncio. E, por um segundo eu não era mais a mesma pessoa. — Você vai me fazer subir tudo isso só pra ver o mar? A voz dela ecoou na minha memória antes mesmo que eu pudesse evitar. — Você reclama demais — respondi rindo, sem olhar pra trás. — Eu não reclamo, eu só questiono suas decisões duvidosas. — Duvidosas? — virei o rosto, fingindo indignação. — Isso aqui é arte. — Isso aqui é uma escada gigante que não leva a nada. — Leva sim. Estendi a mão na direção dela. — Confia. Maya olhou pra minha mão por um segundo. Depois pra mim, e então segurou. — Se não for bom, eu vou embora. — Você não vai. — Vou sim. — Não vai. — Elena. — Maya. Ela tentou segurar o riso. Falhou. E no momento em que chegamos lá em cima ela ficou em silêncio. — Tá — ela disse, depois de alguns segundos. — Talvez você tenha um ponto. Sorri, cruzando os braços. — Eu sempre tenho. — Convencida. — Realista. Ela revirou os olhos, mas não desviou o olhar da vista. O vento batia no cabelo dela, e por um instante tudo parecia leve, simples. Como se o mundo inteiro coubesse naquele momento. — É bonito — ela disse, mais baixo. — Eu sei. — Não o lugar. Franzi a testa, virando o rosto pra ela. — Então o quê? — Você aqui. Meu coração disparou. — Para. — Tô falando sério. — Maya... — Você fica diferente — ela continuou. — Mais leve. Engoli seco, desviando o olhar. — Você também. O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Foi cheio, carregado de algo que nenhuma de nós precisava nomear. Piscar foi o suficiente para tudo desaparecer. O som do mar voltou, o vento, o presente. Eu estava sozinha, de novo. Levei a mão ao rosto, pressionando os olhos com força. Mas não adiantava porque agora não era só lembrança, era sensação. Viva demais, próxima demais. Respirei fundo, tentando me recompor, mas então outra memória veio. Mais rápida, mais intensa. — Você nunca escuta! — a voz dela ecoou, irritada. — Porque você nunca fala direito! — Eu falo! — Não, você explode! — E você foge! O silêncio depois daquela frase foi ensurdecedor. — Eu não fujo — respondi, mais baixo. — Foge sim. Ela me encarou, os olhos brilhando. — Sempre que fica difícil. Aquilo doeu mais do que eu queria admitir. — Não é assim. — É exatamente assim, Elena. O vento parecia mais forte naquele dia. Ou talvez fosse só a forma como tudo estava acontecendo. — Eu tô aqui, não tô? — falei, tentando manter o controle. — Por enquanto. As palavras dela ficaram no ar quase como um aviso. Abri os olhos rapidamente. O peito apertado, a respiração descompassada. — d***a… — murmurei. Passei a mão pelo rosto, tentando voltar pro presente. Mas já era tarde. Porque agora eu lembrava. Não só das partes boas, mas de tudo. E talvez fosse isso que mais machucava. Fiquei ali por mais alguns minutos, ou talvez mais tempo. O suficiente pra perceber algo que eu vinha evitando desde que cheguei. Eu nunca tinha esquecido, só tinha guardado, muito bem guardado. Até agora. Olhei mais uma vez para a vista. para o lugar e para tudo que aquilo representava. E pela primeira vez eu não quis fugir. Mas também não sabia como ficar. Soltei o ar devagar e me virei para ir embora. Mas levei comigo algo que não tinha antes, certeza de que aquilo ainda não tinha terminado.
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