Capítulo 11

1129 Words
O apartamento parecia silencioso demais, grande demais. Como se o espaço todo amplificasse qualquer pensamento que eu tentasse ignorar. Eu fechei a porta atrás de mim com cuidado, deixando a bolsa escorregar do ombro até o chão. O ar condicionado mantinha o ambiente frio, mas ainda assim eu sentia o calor grudado na pele — não do clima, mas do dia. Ou melhor, das pessoas. Caminhei lentamente pela sala, passando os olhos pela televisão enorme, pelo sofá, pela bancada da cozinha… tudo exatamente no lugar. Organizado, impecável. Diferente de mim. — Então? A voz de Ari veio da cozinha. Parei por um segundo antes de me virar. Ela estava encostada na bancada, com uma xícara nas mãos, me observando por cima da borda como se já soubesse exatamente o que estava acontecendo. — Então o quê? — respondi, cansada. Ela arqueou a sobrancelha. — Sério que você ainda vai tentar isso comigo? Soltei um suspiro, passando a mão pelos cabelos. — Ari… — Você encontrou com ela de novo — ela disse, direta. Não era uma pergunta. Assenti, mesmo sem vontade. — Encontrei. Ari deixou a xícara sobre a bancada com um leve som. — E você vai me contar ou eu vou ter que adivinhar? Caminhei até a cozinha, abrindo a geladeira mais por impulso do que por necessidade. Peguei uma garrafa de água e dei um gole demorado, ganhando tempo. — Foi tranquilo — falei. Silêncio. Eu nem precisei olhar pra saber que ela não acreditou. — Elena... Fechei a geladeira devagar. — Foi. — Você não sabe mentir — ela respondeu, com calma demais. — Eu não estou mentindo. — Tá omitindo. A mesma palavra de antes, o mesmo peso. Encostei na bancada, cruzando os braços. — Foi uma conversa normal. Ari deu um passo na minha direção. — Com a sua ex. Que você não via há seis anos. Que agora é noiva do seu cliente. —Ela inclinou levemente a cabeça. — Super normal. Revirei os olhos. — Você quer o quê, Ari? — A verdade. Respirei fundo. — Ela só quis saber se a gente ia fingir que não se conhecia. — E vocês vão? — Não. — Óbvio que não. — Ari cruzou os braços. — E depois? — Depois a gente falou sobre coisas básicas. — Tipo? — Tipo… nada importante. Ela me encarou em silêncio por alguns segundos. — Você foi embora sem explicar, né? Aquilo me pegou desprevenida. Meu corpo inteiro ficou tenso. — Ari… — Você simplesmente foi — ela continuou. — Sem dar um motivo de verdade. — Não foi assim. Mas minha voz não tinha força. Ela percebeu, claro que percebeu. — Então como foi? Eu desviei o olhar, encarando a superfície da bancada como se ela tivesse alguma resposta ali. — Eu… não consegui ficar — falei, mais baixo. — Isso não é uma explicação — Ari respondeu. — Era pra mim. — Mas não pra ela. Aquilo me atingiu direto. — Eu achei que tava fazendo o certo. — Pra quem? Não respondi. Porque eu não sabia, ou talvez soubesse e não queria admitir. — Você falou isso pra ela? — Ari perguntou. Balancei a cabeça. — Não. — Você deu qualquer motivo? — Não. O silêncio caiu pesado entre nós. Ari passou a mão pelo rosto, respirando fundo. — Elena… O jeito que ela disse meu nome não era julgamento, era frustração. — Eu não sabia como explicar — continuei. — Tudo tava bagunçado. A gente brigava o tempo todo. Nada dava certo. — Então você foi embora. Assenti. — Eu achei que a distância ia resolver. — Resolveu? — Talvez. Minha voz saiu quase em um sussurro. Ari me observou com mais atenção. — Você ainda gosta dela. — Não é sobre isso. — É sim. — Não é. — Elena — ela disse mais firme — você não foge assim de alguém que não significa nada. Aquilo me deixou sem resposta. Porque no fundo ela estava certa. — Eu tenho uma vida em Paris — falei, tentando me manter firme. — Eu tenho outra realidade agora. — Isso não apaga o que você sente. — Não importa o que eu sinto. — Importa sim. Balancei a cabeça, negando. — Ela vai se casar. As palavras ficaram no ar. Ari ficou em silêncio por um segundo. — E você? Franzi a testa. — Eu o quê? — Você tá bem com isso? Abri a boca para responder mas nada saiu. — Você não tá me contando tudo — ela disse, mais calma agora. Meu corpo travou. — Tô sim. — Não tá. Silêncio. — Tem alguma coisa faltando — ela continuou. — Eu consigo ver. Desviei o olhar. — Não tem nada. — Tem sim. Ela se aproximou mais um passo. — O jeito que você reage, o jeito que você evita falar, tem alguma coisa aí no meio que você não quer encarar. Meu peito apertou. — Ari… — Você nunca me contou como terminou de verdade. Aquilo era verdade, eu nunca contei, nunca consegui. — Não tem muito o que contar. — Tem sim — ela insistiu. — Porque a versão que você me deu não bate com o que eu Eu passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço finalmente me alcançar. — Eu só não sabia como continuar — falei. Ari me observou por alguns segundos, e dessa vez ela não insistiu. Não porque acreditou, mas porque entendeu que eu não ia falar. Ainda não. — Tá — ela disse por fim, suspirando. — Mas isso não vai desaparecer só porque você não quer falar sobre. Eu assenti de leve. Ela pegou a xícara novamente, tomando um gole. — Só… não se perde nisso, tá? Olhei pra ela. — Eu não vou. O silêncio voltou. Ari saiu da cozinha, provavelmente indo tomar banho ou simplesmente me dar espaço. E eu fiquei ali. Apoiei as mãos na bancada, respirando fundo. As palavras dela ainda ecoavam na minha cabeça. “Você não tá me contando tudo.” Fechei os olhos e por um segundo eu vi. Não o presente, mas o passado. A forma como tudo parecia fácil antes de deixar de ser. Abri os olhos rapidamente mas não adiantou porque agora não era só memória. Era sensação, e ela ainda estava ali, presente demais. Soltei o ar devagar, passando a mão pelo rosto. Talvez Ari estivesse certa, talvez tivesse alguma coisa que eu nunca contei. Talvez eu nunca tivesse tido coragem. Olhei ao redor, como se o apartamento pudesse me dar alguma resposta, mas tudo continuava no mesmo lugar. E pela primeira vez desde que cheguei em Miami eu comecei a perceber que fugir não tinha funcionado. Nem naquela época, nem agora. E talvez nunca tivesse funcionado de verdade.
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