POV 8 - HARRY

1039 Words
Voltar para casa depois de uma noite no pub com o Noah deveria ter sido suficiente para desligar a minha mente. Mas não foi. Porque toda maldita vez que fecho os olhos, eu vejo Madison Bennett. E isso é irritante pra c*****o. Chego cedo na Cooper & Co. Advertising — como sempre. O prédio ainda respira silêncio, aquele intervalo curto entre o nascer do sol e o caos que eu domino tão bem. Eu gosto desse horário. Gosto de controle. Gosto de previsibilidade. E desde que ela chegou... nada é previsível. Estou atravessando o open space quando paro no meio do caminho. Madison já está aqui. De novo. Sentada na própria mesa, cabelo caído sobre o ombro, laptop aberto, café gigante nas mãos. A postura é relaxada, mas os olhos estão afiados — acompanhando números, revisando slides, reescrevendo algo com precisão irritantemente eficiente. Ela não percebe a minha presença. E, por algum motivo i****a, isso me incomoda mais do que deveria. — Você sempre chega antes de todo mundo? — pergunto, a voz saindo seca demais. Madison ergue o rosto devagar. Os olhos verdes encontram os meus com aquela confiança provocadora que ela usa como armadura. — Bom dia pra você também, chefe. — Um sorriso pequeno surge no canto da boca. — E sim. Chego cedo. Mas imagino que você já tenha uma lista de críticas pronta. Cruzo os braços. — Eu não disse que era uma crítica. — Não disse... mas pensou. — Ela volta a digitar. Inferno. Ela sempre acerta. Dou dois passos para perto — só para cutucar, só para ver a reação. Só para... sei lá. Idiotice pura. — Você está revisando o material da conta Parker? — pergunto, me inclinando o suficiente para ver a tela dela. Madison gira ligeiramente a cadeira. Ficamos a poucos centímetros. Centímetros demais. — Estou. — Ela cruza os braços também, espelhando o meu gesto. — Resolvi reorganizar antes de enviar pra você. A estrutura estava uma bagunça. Arqueio a sobrancelha. — "Bagunça" é uma palavra forte para alguém no terceiro dia. Ela inclina a cabeça, o sorriso aumentando. — Só se a verdade te incomodar. Eu abro a boca para retrucar, mas o som de saltos interrompe tudo. Ótimo. Claro. Ela. Bethany. — Harry! — Ela surge com um sorriso tão ensaiado que poderia ser usado em propagandas de pasta de dente. — Precisamos falar sobre o layout da Stone. E... ah. — Ela olha Madison dos pés à cabeça, doce como veneno. — Bom dia. Madison sorri de volta. Educada. Controlada. Falsa — do jeito certo. — Bom dia, Bethany. Bethany se vira para mim, aproximando-se mais do que o necessário. Sempre mais do que o necessário. — Você tem um minuto? Madison volta ao computador, mas vejo os ombros dela ficarem tensos. Ela não gosta da Bethany. Nem tenta esconder. E a verdade é... eu percebo. E por algum motivo e******o, isso me importa. — Depois, Bethany. — digo. — Estou ocupado. Ela parece engolir um limão inteiro antes de responder: — Claro, Harry. Quando estiver disponível, você sabe onde me encontrar. E sai. Eu solto o ar, voltando para Madison. Ela finge que não viu nada. Finge m*l. — Ela sempre é assim? — pergunta sem olhar pra mim. — Não sei do que está falando. — minto. Madison solta uma risada baixa. — Sabe sim. Eu não respondo. Não porque não queira — mas porque admitir significaria assumir que Bethany é um problema. E eu não admito problemas que têm perfume caro e memória demais. — Termine a revisão da Parker e me envie até o fim da manhã. — digo, retomando o tom profissional. Ela ergue os olhos. — Pode deixar, chefe. Mas tem algo na forma como ela diz chefe. Não é desafio. Não é ironia. É... outra coisa. Uma ousadia silenciosa. Eu me afasto e entro na minha sala. Mas já é tarde demais. Porque eu entro pensando em prazos, contratos, reuniões... E fecho a porta pensando nela. Só nela. Na irritante, disciplinada, rápida, perspicaz... Madison Bennett. E, por algum motivo que não vou admitir — nem sob tortura — Ela está começando a se tornar a minha primeira distração real em anos. Sento na minha cadeira e encaro a tela apagada do computador por tempo demais. O reflexo devolve um homem que deveria estar focado, centrado, imune a distrações desnecessárias. Um homem que construiu esse departamento com mão firme e decisões frias. Mas tudo o que vejo é o jeito como Madison me encarou segundos atrás. Não foi desafio aberto. Não foi submissão. Foi algo no meio — algo que não pede permissão e não recua. E isso me incomoda mais do que qualquer erro técnico jamais incomodaria. Abro um arquivo qualquer só para ter algo na tela. Não leio. Não absorvo. Minha mente insiste em revisitar a cena: ela ali, cedo demais, confiante demais, confortável demais em um espaço que sempre foi meu território. Ela não pediu aprovação. Ela não esperou validação. Ela simplesmente fez. E fez bem. O que é perigoso. Porque gente competente que não teme autoridade costuma virar problema rápido. Ainda mais quando não se curva, não se encolhe e não tenta agradar. Ainda mais quando me olha como se eu fosse apenas mais um obstáculo a ser contornado. Apoio os cotovelos na mesa e passo a mão pelo rosto, respirando fundo. Não posso permitir que isso vire algo pessoal. Não posso permitir que ela se torne uma exceção. Exceções quebram estruturas. E eu não cheguei até aqui abrindo concessões. Mas quando fecho os olhos por um segundo, é a voz dela que ecoa. O jeito firme. A segurança sem arrogância. A calma de quem sabe exatamente o que está fazendo. Madison Bennett não está tentando me desafiar. Ela está me obrigando a reagir. E talvez seja isso que mais me tira do eixo. Porque eu não gosto de reagir. Eu gosto de antecipar. E, pela primeira vez em muito tempo, alguém entrou no meu jogo sem pedir permissão — e sem parecer minimamente intimidada por mim. Abro os olhos. Endireito a postura. Hoje vai ser um dia longo. E eu já sei, com uma clareza incômoda, que isso está só começando.
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