Minha manhã já estava intensa antes mesmo do expediente começar. Passei mais de uma hora revisando planilhas e reorganizando informações que o antigo gerente deixou... do jeito que não se deixa nada.
E então Harry Cooper apareceu.
Do nada.
Silencioso como uma sombra loira de um metro e noventa.
E desde aquele momento eu fiquei... estranha.
Um pouco elétrica.
Um pouco irritada.
Um pouco consciente demais da existência dele.
Sim, eu percebi que ele olhou para mim mais do que no primeiro dia.
E sim, eu percebi o olhar da Bethany para ele.
E para mim.
E para o espaço entre nós.
Mas agora, horas depois, quando o relógio marca quase meio-dia, percebo outra coisa:
Harry Cooper está prestando atenção em mim.
De verdade.
Estou sentada na mesa revisando um documento quando sinto aquele olhar pesado.
Levanto os olhos e encontro Harry de pé, do outro lado do setor, conversando com Hillary.
Ou fingindo que conversa — porque os olhos dele estão aqui.
Em mim.
E quando ele percebe que eu notei, desvia rápido.
Hm.
Interessante.
Taylor PRECISA saber disso.
Pego o meu celular debaixo da mesa e deslizo até o w******p.
Madison:
AMIGA, ALERTA VERMELHO.
Seu predador loiro está ME OBSERVANDO.
A resposta aparece em segundos.
Óbvio, Taylor nunca me deixa no vácuo.
Taylor:
Observando tipo: "você vai ser demitida"?
ou
Observando tipo: "quero te morder, mas não admito nem sob tortura"?
Mordo o lábio para não rir alto.
Madison:
Segundo tipo.
Três pontinhos aparecem e desaparecem. Aparecem de novo.
Taylor:
EU SABIA.
Eu senti o cheiro do fogo desde ontem.
Ele tem cara de homem que não sabe lidar com atração. Só sabe ficar rabugento.
Suspiro, mexendo na xícara vazia.
Ela não está errada.
Olho para Harry novamente.
Ele está agora parado na porta da própria sala, lendo algo no tablet.
Mas a mandíbula dele está tensa... como se estivesse irritado com o ar.
Ou comigo.
Ou com o efeito que eu tenho nele — um efeito que ele claramente não quer ter.
Madison:
Ele me tratou como se eu tivesse invadido o território dele. De novo.
Mas sei lá... não parece só irritação.
Taylor:
Madison, ele quer te pegar.
Arregalo os olhos e aperto o celular como se pudesse calar a Taylor com força física.
Madison:
TAYLOR PELO AMOR DE DEUS CALA A BOCA.
Ela manda um áudio.
Não posso ouvir aqui.
Transcrição automática aparece:
Taylor (transcrito):
Madison, pelo amor de tudo, você tem OLHOS.
Ele olha pra você igual homem olha pra um problema delicioso.
Solto uma risada abafada e abaixo o rosto antes que alguém perceba.
— Algum problema, Bennett? — uma voz funda pergunta do meu lado.
Merda.
MERDA.
Levanto os olhos devagar e dou de cara com o próprio problema delicioso.
Harry.
De braços cruzados.
Sobrancelha arqueada.
Expressão neutra, mas olhos atentos demais.
Engulo seco.
— N-não. Só... respondendo uma mensagem. — digo.
Ele olha para o celular na minha mão, depois para mim.
Leva exatamente dois segundos avaliando.
E por alguma razão, parece que ele sabe que não estou falando com alguém "qualquer".
— Certo. — Murmura. — Sobre o relatório Parker... já revisou?
Aah, o tom profissional dele.
A muralha.
A barreira.
A tentativa de colocar distância.
— Quase. — Respondo. — Vou te enviar ainda hoje.
Ele assente.
Mas não vai embora.
Ele fica ali.
Por três segundos longos demais.
— Ótimo. — diz por fim. — Continue assim.
E se afasta.
Minha respiração sai num suspiro que eu nem sabia que estava segurando.
Abro o w******p.
Madison:
Ele veio aqui do nada. 100% do nada.
TAYLOR EU ODEIO ELE.
Taylor:
NÃO ODEIA NÃO.
Você está ferrada, amiga.
Reviro os olhos.
Mas... talvez ela esteja certa.
Porque enquanto tento voltar ao relatório, percebo algo impossível de ignorar:
A presença de Harry mexe comigo.
Me desafia.
Me irrita.
E, de algum jeito que eu não quero admitir...
Me intriga.
Muito mais do que deveria no terceiro dia de trabalho.
Tento me concentrar no relatório, mas as palavras começam a se embaralhar. Leio a mesma frase três vezes sem absorver nada. Meu cérebro insiste em voltar para a forma como Harry ficou parado ao meu lado — imóvel, silencioso, atento demais para alguém que só queria cobrar prazos.
Ele não é do tipo que perde tempo.
Então por que perdeu ali?
Ajusto a postura na cadeira e respiro fundo, forçando o foco. Não posso deixar isso virar distração. Não posso virar mais uma história sussurrada nos corredores, mais um nome associado ao sobrenome Cooper por motivos errados.
Eu trabalhei duro demais para isso.
Ainda assim, quando levanto para pegar água, sinto o peso do olhar dele de novo. Não é constante. Não é óbvio. É intermitente — como se ele estivesse se policiando. Como se quisesse olhar e, ao mesmo tempo, se proibisse.
Isso é novo.
Homens como Harry Cooper não costumam se proibir de nada.
No caminho de volta à mesa, cruzo com Hillary, que me lança um olhar curioso demais para ser casual.
— Está se adaptando bem? — ela pergunta.
— Estou — respondo, sincera. — O ritmo é intenso, mas… estimulante.
Ela sorri de um jeito estranho. Um sorriso que sabe mais do que diz.
— É — comenta. — Esse departamento muda as pessoas.
Volto a sentar com essa frase ecoando na cabeça.
Muda como?
Abro o e-mail e começo a digitar a versão final do relatório Parker. Ajusto gráficos, reorganizo argumentos, deixo tudo redondo. Perfeito. Quando termino, envio para Harry sem anexar nenhuma mensagem extra. Nada de justificativas. Nada de pedidos de aprovação.
Só trabalho bem-feito.
Alguns minutos depois, o aviso de “visualizado” aparece.
Meu estômago se contrai sem motivo lógico.
Continuo trabalhando, mas conto os segundos sem querer.
Então o e-mail de resposta chega.
Curto. Direto.
“Bom trabalho. Vamos conversar depois do almoço.”
Só isso.
Nada de elogios exagerados. Nada de críticas.
Mas também… nada de frieza.
E percebo, com uma clareza incômoda, que essa troca mínima foi suficiente para acelerar meu coração.
Fecho os olhos por um instante.
Ótimo, Madison.
Terceiro dia de trabalho e você já está reagindo ao chefe.
Isso só pode dar errado.
Mas, ainda assim, quando olho na direção da sala dele, não consigo evitar a sensação inquietante de que esse jogo — silencioso, tenso e ainda indefinido — já começou para nós dois.