POV 10 - HARRY

1052 Words
Quinta-feira. O dia em que eu, oficialmente, comecei a perder o controle da situação. Eu sempre chego cedo, mas hoje... cheguei mais cedo ainda. Ridículo, eu sei. Mas depois de ontem — depois de ver Madison Bennett rindo do celular como se estivesse conspirando com alguém contra mim — a minha cabeça ficou inquieta demais para dormir. E inquietação não combina comigo. Entro no prédio da Cooper & Co. Advertising e cumprimento a recepcionista com um aceno. Subo o elevador, já revendo mentalmente a reunião obrigatória do dia: apresentação trimestral do departamento, presidida pelo meu pai, Richard Cooper. Ele adora essas reuniões. Eu detesto. Perda de tempo. Mas tudo bem — faço a minha parte. Sou o diretor criativo, afinal. Quando as portas do elevador se abrem, eu vejo algo que trava os meus passos. Madison. De novo chegando cedo. De novo com café na mão. E de novo... rindo do celular. O mesmo riso que me irrita profundamente porque... porque não é meu. E isso não faz sentido nenhum. Atravesso o setor, o meu humor já azedando. — Bom dia. — ela diz, sorridente. O sorriso dela tem luz própria. É irritante. — Bom dia. — respondo, seco. Ela ergue uma sobrancelha, como se estivesse me analisando. Como se soubesse que estou irritado — e achasse graça nisso. Maravilha. Antes que qualquer faísca a mais aconteça, escuto um chamado doce demais vindo do fundo do corredor: — Harry! Oi! Esperei você chegar para irmos juntos para a reunião. Katherine Thomas. Ela surge segurando um tablet contra o peito, sorrindo como se eu fosse a única pessoa no universo. Katherine é gentil, fofa... e completamente apaixonada desde os nossos dezesseis anos. Eu já tentei dizer — discretamente — que não funciona assim. Mas ela nunca deixa isso realmente entrar. — Bom dia, Katherine. — digo, forçando a educação. — Oi! — Ela quase pula no lugar. — Fiz anotações sobre a apresentação. Posso te mostrar? Eu prendo o maxilar. — Depois. Temos tempo. Madison observa tudo do lugar dela, muito quieta. Mas os olhos verdes dela estão... atentos. Quase curiosos. Quase irritados também. Ótimo. Exatamente o que eu não precisava: Madison está com ciúme? A reunião é na sala de conferências grande, aquela com vidro do chão ao teto. Meu pai está sentado à cabeceira, impecável como sempre, terno alinhado, expressão de CEO que nunca relaxa. — Bom dia a todos. — Richard Cooper anuncia quando o departamento está acomodado. Eu fico do lado direito da mesa. Madison senta algumas cadeiras adiante, sem me olhar. Katherine senta praticamente colada em mim, o que me obriga a mover a cadeira discretamente para o lado. Richard começa a apresentação: números, metas, clientes novos, comparativos trimestrais. Eu deveria estar prestando atenção. Mas meus olhos... vão para Madison. Ela está concentrada. Faz anotações rápidas. Organizada. E profissional como ninguém do departamento no quarto dia teria obrigação de ser. Isso me surpreende. E... isso me atrai. Droga. — Harry. — A voz do meu pai me corta. Levanto o olhar. — Sim? — Quer falar sobre o desempenho criativo do último ciclo? Claro. Meu pai sempre gosta de me chamar quando estou distraído. Percepção aguçada — ou crueldade pura, nunca sei. — Claro. — Respondo, tranquilo por fora. Dou uma explicação firme, direta, sem hesitações. Funcionou — como sempre. Quando termino, sinto um olhar em mim. Madison. Ela parece... impressionada? Ela desvia rápido quando nota que percebi. E antes que eu consiga processar o que isso significa, Katherine se aproxima um centímetro demais para sussurrar: — Você arrasou, Harry. Como sempre. Eu fecho os olhos por um segundo. Paciência. Paciência. Paciência. Madison acompanha a cena com uma expressão que ela tenta esconder — mas não consegue totalmente. Não é ciúme. Não completamente. É... incômodo. E saber que eu posso causar isso mexe comigo de um jeito que não gosto. A reunião segue até que Richard finalmente encerra: — Excelente trabalho a todos. Madison, seja bem-vinda oficialmente à Cooper & Co. Advertising. Tenho certeza de que seu potencial vai render bons frutos aqui. Ela sorri, profissional. — Obrigada, senhor Cooper. Meu pai se levanta, e isso significa que a reunião acabou. Antes que eu possa falar com ela, Katherine já está presa ao meu lado. — Então, Harry, podemos almoçar juntos? — pergunta, ansiosa demais. Eu abro a boca para recusar, mas... Madison cruza por nós. Olhos verdes firmes, postura impecável, expressão neutra demais para ser realmente neutra. Ela diz, apenas: — Com licença. E segue. E eu sinto algo que não deveria sentir. Vontade de ir atrás. Vontade de dizer a Katherine "não hoje". Vontade de descobrir por que Madison não gostou do que viu. Respiro fundo. Merda. Eu estou ferrado. E o pior é que... parte de mim não quer resolver isso. Parte de mim quer ver até onde essa confusão vai. Eu respiro fundo, tentando me recompor, mas a presença de Madison ainda parece preencher o espaço ao redor da mesa, mesmo quando ela se afasta. Cada passo que ela dá ecoa na minha mente como um lembrete irritante de que ela existe e de que eu não consigo simplesmente ignorá-la. Katherine continua sorrindo ao meu lado, totalmente alheia à tempestade silenciosa que Madison provocou. Tento focar nela, nas conversas triviais, nos relatórios do dia, mas é impossível. Minha atenção se divide e, por mais que eu tente, a minha visão insiste em procurá-la no setor, mesmo quando sei que deveria me concentrar. E o mais desconcertante é que Madison não faz nada de extraordinário. Ela apenas existe, profissional, organizada, eficiente, e ainda assim consegue desestabilizar toda a minha postura de diretor seguro e controlado. Quando a reunião termina, e todos começam a se dispersar, não consigo deixar de notar cada detalhe: a forma como ela recolhe os seus materiais, a rapidez com que ajusta a cadeira, o leve toque no cabelo enquanto olha os relatórios. Pequenos gestos que, por algum motivo, queimam na minha memória. Respiro fundo outra vez. Tento racionalizar, me convencer de que nada disso importa, mas a verdade é clara — e irritante: Madison Bennett não só conquistou o meu respeito profissional em poucos dias, como começou a invadir a minha cabeça, de um jeito que não quero admitir. E eu ainda não decidi se isso é bom ou péssimo.
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